Entre Chamas

1995

Seriam 4 horas da manhã, quando na noite de 23 para 24, Domingo para segunda-feira deste mês de Julho, quando o fogo, vindo de Mira de Aire atinge o Casal Duro, (vinha do lado de Vale de Barreiros).

Em poucos segundos e com incrível rapidez foi o pânico geral. O fogo era avassalador e passado pouco mais de meia hora já havia atravessado o Valongo e estava em Bouceiros, seriam umas 4h45 da madrugada.

Já se adivinhava pelo fumo e pelas chamas avistadas, mas ninguém supunha tanta força naquela labareda devoradora.

Não havendo hipótese de salvar as florestas, tudo corre às habitações, e o resto… olha, é quase um “deixa arder”. Os próprios bombeiros montam pontos estratégicos junto das habitações, o que não evita o perigo eminente a muitas habitações, onde o fogo lambeu tudo ao redor

Mas é no Casal Duro onde o fogo se acendeu e reacendeu mais, no dia 24 à noite ainda havia madeiros de palheiros a arder e o fogo assume aspetos mais catastróficos.

Barracões, alfaias agrícolas, culturas no campo e já colhidas nas eiras, anexos às habitações e até 18 grandes bovinos serviram de pasto às chamas. Foi o lugar da freguesia mais sacrificado. Até centenas de coelhos e galinhas serviram para o fogo. Ao redor da Capela tudo ardeu. Fazia pena aquela boa gente. Às 21 horas do dia seguinte ainda vários carros de bombeiros, andavam em operações de rescaldo, e uma máquina da Câmara enterrava as vacas. O mais prejudicado foi o Sr. Jorge Vieira.

Nos Bouceiros e Valongo foi o medo de tudo se ver rodeado de chamas e o fogo a chegar a algumas habitações cujo perigo foi mais do que eminente. Há casos em que o povo diz ter sido milagre.

Sempre a arder em todas estas frentes e lugares, de Bouceiros passa por um lado para São Mamede e por outro para as Covas Altas e Alqueidão da Serra.

Nas Covas Altas, outra e quase única preocupação: salvar as casas.

A noite estava excecionalmente quente e muita gente no Alqueidão da Serra não conseguiu dormir. Entre a Cabeça do Sol e o Vale de Ourém a luz era intensa. De manhã já não se podia respirar com tanto fumo e cinzas que caiam e cobriam toda a freguesia.

Mas talvez ninguém pudesse supor que o inimigo avançaria esfomeado por ai a baixo e por horas de antes do almoço há casas da Carreirancha já em perigo grande, tendo-se evacuado por completo uma habitação que se esperava que ardesse, mas felizmente não aconteceu.

Havia que chamar gente, dada a extensão da freguesia. Mas como tocar o sino? Com estas automatizações tirou-se a corrente exterior, a que outrora o povo recorria em momentos de aflição. Mesmo assim, alguém sobe à torre e toca, já um pouco tarde.

Foi um pandemónio sobretudo pela Carreirancha fora. Os populares deixaram tudo e vieram o que permitiu salvar muitas casas colaborando com os Bombeiros.

O Cenário era dantesco. Não há palavras. Casais dos Vales e Covão de Oles no mesmo pânico. Nestas ocasiões dá-se valor aos bombeiros.

É que ardeu e ia ardendo tudo quanto eram florestas de pinheiros, sobreiros e eucaliptos, e tudo quanto eram vegetações que cabiam, da serra mais baixa à mais alta.

Era impressionante ver batatais, terras de milho, colmeias, tudo a arder, e até um agricultor a quem  uma carroça com sacos de batatas, por pouco não ficou também nas chamas. Não ganhou para o susto.

No dia 25 ainda havia bastantes focos de fogo, mais nos matos e troncos de árvores, mas já circunscritos. Dias 26 e 27 ainda havia raízes e troncos a arder.

Dei uma volta linear poe toda a área ardida, por onde um carro transita, e fiz uns 40km. Cinzas, carvão, fumo e falta de oxigénio.

Sabemos que o gabinete de crise já está reunido desde as 6h00 da manhã em Leiria e que à mesma hora parte para a zona dos fogos o nosso presidente da Junta com o Sr. Vereador substituto.

O Comandante dos bombeiros de Porto de Mós foi incansável no comando de todas as operações, mas as chamas eram tantas que os Bombeiros já exaustos não sabiam onde acudir, e em todo o lado eram poucos.

Presentes no dia 24 estiveram aqui o Sr. Governador Civil, a Diretora e todos os técnicos do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, o Sr. Secretário de Estado da Administração interna e outros.

Chegou a vir o Exército, por ordem deste e falamos de 16 corporações de bombeiros num total de talvez mais de 145 soldados da paz.

Num reconhecimento de helicóptero feito a toda esta vasta área, que não só o Alqueidão calculam-se 8000 hectares ardidos. Destes talvez uns 3000 caibam à freguesia de Alqueidão da Serra.

Tudo o que havia de matas e serras, ardeu. Ficaram as habitações. Agora é uma desolação passear na serra.

Uma vez mais se viu o perigo das casas feitas nas matas ou perto da serra, sem um razoável areeiro de proteção.

A falta de caminhos, e caminhos largos, a falta de um helicóptero e de lagos onde estes possam abastecer.

Se a Lagoa do Chão Nogueira já estivesse concluída há mais tempo em condições, que assim, dizem-nos que não segurará água nenhuma.

Os comandos da GNR, PSP, BT e carro do 115, bem como as autarquias, Câmara Municipal e Junta de Freguesia, foram incansáveis e estiveram sempre ao lado das populações num apoio logístico importante. Meios aéreos não vieram.

Um reparo: A estrada do Alqueidão deveria logo de manhã ter sido cortada, como se pediu à GNR aos grandes camiões que nesse dia não paravam em busca da pedreira.

Às tantas a confusão era total, entre a população, os bombeiros e os ditos camiões, tudo na mesma estrada, houve até atrasos na chegada da água aos fogos.

Foram os dias mais negros na já longa história desta freguesia. Não há memória, ninguém se lembra de uma tragédia tal.

Seria fastidioso enumerar as serras ardidas porque foram todas. Por pouco o monumento ao Jurássico não ia também.

Fala-se numa reflorestação. Porque as autarquias e serviços florestais têm aqui agora campo grande para planear e executar melhor.

Que aceiros, caminhos e lagoas não fiquem esquecidos, e que o helicóptero não seja mais uma ideia adiada.

E se este verão continua quente e seco? Vêm aí as festas, como vai ser de foguetes? Por muitas partes do país estes foram já proibidos ou é acompanhado o seu lançamento. E no nosso concelho vamos esperar que um palheiro velho, um Páteo de mato ou um monte de pasto animal, ponha em perigo uma aldeia?

Câmara, GNR e Paróquias poderão acertar estratégias.

É sempre assim: Depois de portas arrombadas…. Mas o melhor é que não se arrombe mais nenhuma.

Foi assim resumidamente esta página negra na história do Alqueidão da Serra. Mas sabemos que nas terras vizinhas a nascente-norte, o cenário não foi melhor.

Eu já tinha assistido nas Beiras a uma destas catástrofes. Nunca pensei que tal fosse possível acontecer na minha terra.

O povo não tinha nem ideia do poder do fogo, “e com ele não se brinca” diz-se há muito.

27-07-1995

 Carlos Alberto Rosa Vieira.

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