Os Ares da Serra

Os dias da pandemia recordam que há um século Portugal enfrentou outra peste: A Tuberculose.

As pessoas apresentavam fraqueza repentina, febres altas, o sangue expelido na tosse…

Na ausência de medicamentos a comunidade médica apostava nas únicas estratégias ao seu alcance: repouso, higiene de sono, clima marítimo ou de altitude e uma boa alimentação.

Os médicos das aldeias ainda tentavam tratamento com ventosas, o isolamento, e uma alimentação melhorada. As famílias eram muito numerosas e muito pobres e uma alimentação melhorada exigia um esforço muito grande para quem tinha doentes em casa. Alimentação melhorada era o que todos precisavam, mesmo quem não estava doente.

Durante as três primeiras décadas do século XX, sem fármacos  específicos, para combater a tuberculose, a doença alastrou e fez muitas vitimas.

No Alqueidão morreu muita gente nesta altura. Numa família da Carreirancha morreram todos, menos um que não estava em casa, tinha ido viver com uns tios em Lisboa.

Alguns faziam tratamento em casa, isolados num quarto, e outros tentavam a recuperação dos Sanatórios do Caramulo.

O hotel do Caramulo construído a 800 metros de altitude passou a sanatório para receber doentes com tuberculose, e rapidamente teve que aumentar a sua capacidade construindo outros edifícios: sanatórios, enfermarias, casas de saúde etc.

Na década de 1950, o Caramulo transformou-se num centro de combate à tuberculose.

José Francisco Saloio tinha regressado do Brasil com tuberculose, e contagiou dois dos seus filhos o João e o Joaquim.

Os dois estiveram internados no Caramulo durante alguns anos, e de lá enviaram muitas fotografias para a família.

Acabaram por não resistir. O João faleceu em 21 de Dezembro de 1941 com 23 anos de idade, vitima de tuberculose. Era pai de Brigida Amado que foi viver para Paço d’Arcos,  era solteira e não deixou descendência .

O Joaquim faleceu em 15 de Setembro de 1953 com 30 anos, vitima de tuberculose, era solteiro e não deixou descendência.

A vacina B.C.G. foi descoberta em 1921, mas só em 1929 ela começou a ser produzida no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana em Lisboa.

Apesar de existir uma arma terapêutica eficaz contra a tuberculose, na década de 50 o surto ainda estava bastante ativo.

Em 2021 a luta é contra o coronavírus.

Nunca uma vacina foi produzida tão rapidamente. A meio do segundo ano de pandemia uma grande parte da população mundial já está vacinada.

Mas as duvidas são mais que muitas:  Não sabemos por quanto tempo ficamos imunes; não sabemos os riscos para a saúde no longo prazo; não houve tempo para verificar tudo, e os estudos vão se fazendo ao mesmo tempo…

Sabemos que temos que continuar sem festas, sem ajuntamentos, sem abraços e beijinhos, e sem puder reunir a família mais alargada, porque não queremos ficar doentes.

Respirar o ar da nossa Serra, fazer caminhadas e ter um contacto mais direto com a Natureza são coisas que passaram a fazer parte dos nossos hábitos. Muitas pessoas passaram a cultivar as terras que estavam ao abandono, e tudo vai ficando mais bonito.

Por enquanto há que cuidar de quem fica doente, e adotar formas de aumentar a nossa imunidade para nos mantermos saudáveis.

Porque tudo isto vai passar… e daqui a algum tempo nós já vamos poder contar como foi que derrotamos a Covid-19.

Publicado em Alqueidão | Publicar um comentário

O Jardim da Carreirancha

O Jardim da Carreirancha
por mim é relembrado
Era uma lagoa de água
por muitos estimada

Era uma lagoa com muita utilidade
Tinha água todo o ano
Para os animais beberem
quando vinham do trabalho

Mas também era um perigo
Quando ela estava cheia
Luz não havia, e a água batia
mesmo na berma da estrada.

Autor: Inocêncio Gomes
Alcunha: Pulguito
A Barreira em 1982 – Local onde atualmente está o jardim onde foi colocado o monumento em homenagem ao Major.
Publicado em Alqueidão | Publicar um comentário

A Fonte do Alqueidão

Alqueidão é a minha terra
Fica em cima do monte
Quando eu queria beber água
Ia buscá-la à fonte

A fonte era uma relíquia
Que havia no Alqueidão
Onde os rapazes novos se lavavam
Na véspera para ir à inspeção

Era um encanto lá estar
Ver as bicas a correr
As mulheres com os seus cântaros
à espera de vez para os encher

Havia lá dois grandes tanques
Sempre com água a correr
Onde as mulheres iam lavar a roupa
Para mais tarde a estender

Tudo isto acabou
Aqui na nossa terra
Era um encanto lá estar
mesmo à beira da serra

Nesse tempo lhe chamavam
A Fonte dos namoricos
Em que as moças iam à fonte
para arranjar seus namoricos

Isto não é só por falar,
Era mesmo tradição
Foi no caminho dessa Fonte
que embrulhei meu coração

A mocidade ia à Fonte
de propósito para arranjar
o seu namorico
para um dia se casar

Foi assim que me calhou
A minha sorte estava destinada
Era melhor que a Fonte estivesse seca
Não se tinha arranjado nada.

Autor: Inocêncio Gomes
Alcunha: Pulguito
Publicado em Alqueidão | Publicar um comentário

O Balugas

No século XIX as crianças eram registadas só com o primeiro nome. Como os nomes eram todos iguais, com a passar do tempo adquiriam alcunhas, isto é, nomes pelos quais eram conhecidos, e que refletiam alguma característica sua, de maneira que os nomes de Batismo quase ninguém os sabia.

Ainda hoje existem alcunhas que passam de geração em geração.

Balugas

O Xico Balugas herdou a alcunha do pai, a quem chamavam Balugas. O filho mais novo do Xico Balugas, o Rafael, também toda a gente o conhece por Balugas e o neto também não conseguiu fugir a esta alcunha. O bisneto, o pequenito que anda na pré-escola também já lhe chamam o Balugas.

E como foi que tudo isto começou?

Em 28-06-1868 no Alqueidão da Serra nasceu Manuel Carvalho que era filho de João Carvalho e Maria de Jesus, (Maria Carvalha).

Era um homem alto e magro (e talvez por esta característica física lhe começaram a chamar Balugas) e que gostava muito de falar e era muito alegre. Tinha alguma dificuldade para andar, e por isso deslocava-se quase sempre de burro, de resto andava amparado a uma muleta. Trabalhava na agricultura. Ia muitas vezes à Ribeira cavar vinha.

Casou aos 32 anos com Maria do Rosário que era filha de Domingos da Silva Martho e Francisca Carvalha. O casamento foi no Alqueidão da Serra em 11-02-1900.

Em 29-10-1900 nasceu a primeira filha, Maria do Rosário que, tal como a mãe não tinha mais nenhum apelido. No registo do Batismo desta menina, em 4-11-1900, o nome do pai é Manuel Carvalho Balugas, ou seja, a partir daqui Balugas é apelido e aparece nos livros dos registos oficiais.

O segundo filho, o José, nasceu em 25-08-1903, foi batizado no mesmo dia e faleceu logo a seguir. Mas, em 19-09-1904 nasceu outro menino e também lhe deram o nome de José. Já o José tinha 7 anos quando nasceu o Francisco.

Maria do Rosário, José e Francisco foram os nomes que eles escolheram para os seus filhos, no entanto, isso não interessava nada porque toda a gente os conhecia era pelas alcunhas.

Assim o Francisco ficou Xico Balugas, e o José ficou Zé Magota. A Maria do Rosário ficou Rosaira, que é bem mais fácil de dizer.

O Xico Balugas

O Xico Balugas (Francisco Carvalho) veio a casar com a Maria do Coxo, que, na realidade se chamava Maria Amado, mas quase ninguém sabia.

Quem era a Maria do Coxo?

Nasceu em 17-04-1910 no Zambujal, onde moravam os seus pais, Manuel Catarino (que era dos Vales) e Joaquina Amado.

Quando casou com o Xico Balugas veio morar para o Alqueidão, pertinho da Igreja.

Xico Balugas com a esposa Maria e o Filho Manuel (o Roque)

Tiveram 6 filhos, e todos eles eram conhecidos pelas suas alcunhas.

  • Dois bebés morreram.
  • A Deolinda (chamavam-lhe Violeta) morreu com sete anos, atropelada pela camioneta da carreira na estrada de Porto de Mós, perto do Zambujal, quando seguia com outras pessoas atrás de uma carroça, e atravessou a estrada de repente.
  • A Laura (Pirralha), faleceu em 02-07-1990.
  • O Manuel, conhecemo-lo por “o Roque” porque ele gostava de correr atras da carreira (camionagem Roque e Alcobia), segurava-se nas traseiras e pulava na próxima curva. Faleceu em 14-08-2003.
  • O Rafael, ou seja, o Balugas, é o pai da Patricia e do Bruno (que também é Balugas).

A próxima geração: O neto do Rafael (Balugas) também é Balugas. E assim desde 1868, a alcunha vai atravessando as gerações.

************************ ******************* **********************

Consultas: Livro de Registos de Batizados, Casamentos e Óbitos do Cartório Paroquial do Alqueidão da Serra.

Agradeço a toda a gente que perdeu um pouco do seu tempo para me ajudar partilhando as suas memórias: Ao Armando da Ti Rosaira que está na França e à sua filha Adélia; Ao Rafael e à Carmita; à Célia; e à Ana Maria que está na França e que disponibilizou a fotografia.

Publicado em Alqueidão | 2 Comentários

Alqueidão da Serra e o Futebol

O livro da autoria do Dr. António Pereira Carvalho intitulado “Alqueidão da Serra e o Futebol – Uma História Várias Gerações”, é uma obra que retrata a paixão pelo futebol vivida ao longo de várias gerações.

As lutas, as conquistas, as dificuldades, contadas por quem, de facto as viveu, por estar durante muitos anos na direção do CCR.

Neste livro, o autor recorda:

  • Os jogos num terreno junto à lagoa do Chão Nogueira,
  • O aparecimento da primeira bola de futebol
  • A construção do Campo da Chã
  • Os jogos de futebol até à criação do formal do CCR
  • A entrada na 2º Divisão Distrital da Associação de Futebol de Leiria
  • Todos os prémios conquistados pelo clube até à subida à 3ª Divisão Nacional
  • A sobrevivência financeira do futebol através dos tempos
  • Etc.

O livro foi editado por Jacinto-de-Água, tem capa de Rui Gabriel, e prefácio de Júlio Vieira (Diretor da Federação Portuguesa de Futebol), e é dedicado a todos aqueles que contribuíram para o nascimento e desenvolvimento do futebol no Alqueidão da Serra.

Olivia Matos Gabriel foi responsável pelas fotos (capa e troféus), e a Revisão esteve por conta do nosso conterrâneo Jorge dos Reis Amado. A composição esteve ao cuidado de João Amado Gabriel.

Um livro que é uma parte da nossa História.

Para encomendar este livro pode enviar mensagem para

alqueidaodascontas@gmail.com

Publicado em Alqueidão | Publicar um comentário