Gente de Fé

Dia 8 de Dezembro de 2019, dia da Imaculada Conceição, faz 83 anos que morreu o Jesus.

Tinha 18 anos. Perdeu a vida no desastre da Escola em Porto de Mós, quando o  chão do 1º andar do edifício desabou, caindo em cima de quem estava no rés-do-chão.

Grande multidão estava em Porto de Mós naquele dia 8 de Dezembro de 1936 para a festa da juventude da Ação Católica. Estava gente de todas as freguesias do concelho. Do grupo do Alqueidão da Serra só o Jesus perdeu a vida neste desastre que vitimou 44 pessoas.

O Jesus era um dos filhos de Manuel Laranjeiro, que tinha a alcunha de Plante e Maria de Jesus, a quem chamavam Perquita.

A família vivia numa casa baixinha na Rua Adeferreiro.

Maria de Jesus

A mãe, Maria de Jesus, tratava das crianças e da casa. Ela educou as suas filhas para serem boas donas de casa e ensinou-as a fazer as lides domésticas.

Ensinou-as a lavar a roupa, a passar a ferro e a cozer o pão de forma a que, elas é que faziam esses trabalhos em casa e assim ela estava mais disponível para ajudar o marido nos trabalhos no campo.

 

Manuel Laranjeiro

O pai, Manuel Laranjeiro, trabalhava no campo. E muito que lavrar ele tinha! Era um homem de fé. Pertencia a todos os organismos da Igreja Católica.

No caminho para as fazendas benzia-se sempre quando avistava ao longe a torre da Igreja, e quando o sino tocava as avés-marias ele parava o que estava a fazer, tirava o chapéu e rezava o Angelus.

Na sua casa rezava-se o terço em família todos os dias, porque “Familia que reza unida permanece unida”, é o que diz o ditado, e na realidade a família continuou sempre unida até aos dias de hoje, apesar de atualmente não se rezar tanto.

Os irmãos do Jesus eram: O Tiago Plante, o Zé Plante, a Céu, a Maria da Encarnação (São Perquita), a Adélia e a Maria da Conceição.

As meninas estudaram até à terceira classe, porque naquele tempo as meninas não podiam estudar mais.

Maria da Conceição e Adélia

Maria da Conceição

A Maria da Conceição decidiu seguir a vida religiosa. Estávamos no final da década de 40 quando ela foi estudar para a Casa de São Vicente de Paulo em Lisboa

Estudou enfermagem, e depois empregou os conhecimentos adquiridos cuidando da saúde dos pobres e desfavorecidos.

Enfermeira Vicentina

Primeiro ela foi tratar de leprosos para a Tocha. Depois na sua qualidade de enfermeira foi para o hospital de Alijó. Em 1971 chegou a  Cucujães, e mudou a vida daquela comunidade, trabalhando incansavelmente com os jovens. É que não bastava que ela amasse a Deus, era preciso que os outros o amassem também.

Começou por chamar as jovens para um “curso de economia doméstica, e a partir daí desenvolveu muitas atividades com os jovens. Soube acompanhar todas as transformações, percebendo a evolução da sociedade e da juventude e adaptando a sua ação às novas realidades.

A irmã Conceição aprendeu a andar de motorizada e então aí é que nunca mais ninguém teve descanso.

Não podia por existir em Cucujães nenhum jovem adormecido ou apático porque a irmã Conceição na sua motorizada ia bater-lhes à porta e incentivava-os a pedir autorização dos pais para frequentar os grupos de jovens.

A irmã Conceição era sempre a primeira a pôr os projetos em andamento e a motivar todo o mundo à sua volta.

Ouvia os jovens com um amor maternal, e falava-lhes com carinho, mas com firmeza. Com eles rezava, cantava, fazia a animação da eucaristia, retiros, reflexões, teatros, discutiam temas da atualidade, etc.

Nunca se esquecia de quem precisava dela, conhecia pelo nome cada doente, cada pobre, cada jovem.

Foi co-responsável pela fundação da Associação Juventude Mariana Vicentina a nível nacional (1984), e esteve sempre presente como animadora, assessora, delegada, impulsionadora.

A todos ela apontava o caminho para Jesus com o seu exemplo.

Na Igreja do Alqueidão

O seu exemplo de vida e trabalho foram reconhecidos pelo Presidente da Republica, que elogiou a sua visão estratégica, a sua capacidade empreendedora e o seu testemunho de amor ao próximo.

Existe em Cucujães uma rua com o nome da irmã Conceição

  • Artéria: Rua Irmã Conceição

  • Localidade: Cucujães

  • Freguesia: Vila de Cucujães

  • Concelho: Oliveira de Azeméis

  • Distrito: Aveiro

Comemoração de 79 anos de vida

Em 2019 a irmã Conceição celebra os seus 89 anos de vida.

 Adélia

Irmã Adélia

Era tradutora de português-francês dentro da congregação dela, são Vicente de Paulo, chamadas filhas da caridade.

Traduziu alguns livros religiosos de francês para português.

Viveu muitos anos em Paris, representava a comunidade portuguesa na casa mãe em França.

Esteve algum tempo em Felgueiras e também em Peniche e em Lisboa.

 

A congregação tinha uma casa em Fátima, e todos os anos se juntava lá a família toda, mãe, irmãos, sobrinhos… Era uma alegria.

 Maria da Encarnação

Maria da Encarnação casou e foi viver para Porto de Mós.

Ela herdou a alcunha da sua mãe, e era também conhecida por Perquita.

Tinha um talho no Alqueidão, nas traseiras da Igreja, e vinha cá vender carne. Toda a gente conhecia o Talho da Perquita.

 Tiago

O Tiago trabalhava na agricultura. Quando casou construiu a sua casa ao lado da casa do pai e teve 8 filhos. Transmitiu a todos eles os valores que recebeu de seus pais.

Tiago com a esposa a mãe e as irmãs

Réplica da fachada da casa do Tiago, em casa de uma filha.

Zé Plante

Emigrou durante algum tempo, mas quase toda a sua vida foi dedicada à agricultura e criação de gado. Casou com a Susana e teve 6 filhos. A sua casa ficava na Rua Adeferreiro,  junto à casa do pai, perto do irmão Tiago.

Zé Plante com as esposa e filhos

 Céu

A Céu com os pais

Estudou enfermagem e obstetrícia na universidade de Coimbra.

Trabalhou na maternidade Alfredo da Costa.

Também trabalhou algum tempo no dispensário em Porto de Mós que era onde as mães iam com os seus bebés, quando havia algum problema de saúde.

Depois foi com o marido para o Canadá, onde exerceu a sua profissão com zelo e dedicação.

A família do Jesus

Moral da história: A vida passa num instante e só tem sentido quando fazemos a diferença na vida dos outros.

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120 Anos depois

Em 10 de Novembro de 1899, em Alqueidão da Serra, nasceu Manuel de Matos.  Era um dos filhos de Adriano de Matos e Doroteia Joana, neto paterno de António de Matos e Luciana de Oliveira.

Tinha 2 irmãos, mais novos:

O Joaquim de Matos que nasceu em 19 de Agosto de 1901, casou a 25 de Dezembro de 1927 com uma filha de Francisco Marto e Cecilia de Jesus Correia que se chamava Laura, e teve 7 meninas (Maria Manuela, Brigida, Virginia, Águeda, Maria José, Cecília e Mónica). Faleceu a 8 de Setembro de 1940 com 39 anos de idade.

O José de Matos que nasceu a 20 de Junho de 1903, casou em 28 de Julho de 1928 com  uma filha da tia Amélia que também se chamava Amélia, e teve 8 filhos, sete meninos e uma menina, eram eles: José Acácio de Matos, Américo de Matos, Armando de Matos, Francisco Carlos da Encarnação Matos, Manuel da Encarnação Matos, Artur e Helena. Faleceu a 17 de Agosto de 1969 com 66 anos de idade.

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Adriano de Matos nasceu a 4 de Fevereiro de 1869 e foi batizado a 15 do mesmo mês e ano na Igreja Paroquial do Alqueidão da Serra. Quando era solteiro o Adriano gostava de correr atrás das raparigas, e um dia ao saltar uma parede a correr, caiu e ficou com um enorme galo na testa, logo toda a rapaziada troçando dele, lhe colocou a alcunha de “Galo”.

O Galo era agricultor, e casou em 08 de Janeiro de 1899 com Doroteia Joana, uma das 5 filhas de Manuel da Costa Rei e Felicidade Joana, neta paterna de Manuel da Costa Rei e Constãncia de Jesus. Todos os seus 3 filhos ficaram com a alcunha do pai, ou seja, Manuel de Matos Galo, Joaquim Galo e José Galo.

Sua esposa Doroteia nasceu a 7 de Abril de 1866 e foi batizada no dia 17 do mesmo mês e ano, na Igreja Paroquial do Alqueidão da Serra. Faleceu em 30 de Março de 1949 com 82 anos de idade.

Em 1917, quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, Adriano Galo tinha 48 anos de idade. Ele foi testemunha ocular dos factos ocorridos em Fátima no dia 13 de outubro  e disse que olhou perfeitamente para o sol sem este o incomodar e representou-se-lhe ver Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço esquerdo e viu em roda do dito astro cores diferentes.

Quando faleceu em 18 Dezembro 1949, Adriano de Matos tinha 80 anos de idade.

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Manuel de Matos Galo, (o primeiro filho de Adriano Matos) nasceu a 10 de Novembro de 1899 e foi batizado no dia 19 do mesmo mês e ano na igreja paroquial do Alqueidão da Serra, casou em 19 de Setembro de 1928, (aos 29 anos de idade) com uma filha de Manuel Vieira Amado e Águeda de Jesus Roque, que se chamava Laura e tiveram 8 filhos, eram eles: João Bispo, Zica, Chico, Lhuca, Zé das Mantas, Helena, Sôr e Carmita.

Para sustentar a sua grande família, 0 Manuel Galo trabalhava na agricultura e na construção civil.

No tempo da guerra, as crianças passaram muita fome, tal como toda a gente da aldeia. Salazar dizia “livro-vos da guerra mas não da fome”, e assim foi… grande parte dos produtos alimentares produzidos em Portugal eram exportados para os países envolvidos no conflito, e por isso por cá havia grande escassez de produtos e fome. Os miúdos iam de madrugada para as filas com as senhas de racionamento, mas por vezes os produtos não chegavam para todos e eles voltavam para casa de mãos vazias.

Nesse tempo (anos 30 e 40) em casa do Manuel Galo comiam todos da mesma saladeira que se colocava no chão, e havia só uma colher. A mais esfomeada, logo de manhã cedo corria a esconder a colher para ser a primeira a comer. Um dia, a ti Celeste de Torres Novas, (irmã da mãe), trouxe colheres para toda a gente. Foi uma alegria.

Era uma sardinha para três, mas aquilo é que era uma sardinha boa! Nada que se compare como estas de agora…

Manuel Galo estava meses inteiros sem trabalhar por causa das crises do reumatismo e a esposa Laura é que tinha que colocar comida na mesa todos os dias, por isso ela ia pedindo broa aos vizinhos e quando finalmente podia cozer já devia a fornada quase toda. Tempos houve em que ela esperava que a galinha pusesse um ovo para poder comprar uma caixa de fósforos.

O Fiscal Costa quando passava na rua tinha o hábito de mandar umas moedas pelos buracos da porta do corredor, e de vez em quando por lá se achavam umas moedinhas que davam para pagar algumas coisas.

Lá em casa rezava-se o terço em família todos os dias, e havia uma grande devoção a Nossa Senhora. Era uma família muito alegre apesar das agruras da vida. O Manuel Galo contava histórias da Bíblia às crianças, nos serões de inverno à lareira, e sabia muitas lengalengas e cantigas.

O tempo foi passando e os filhos já podiam trabalhar para ajudar o pai, e para as despesas da casa. Fundaram a fabrica das mantas, tinham empregados e produziam mantas de lã nos teares. O Zé saía para vendar as mantas nos mercados e por isso era conhecido em todo o lado como “o Zé das Mantas”.

Depois os filhos casaram e alguns deles emigraram para fugir à miséria que se vivia em Portugal. Dois foram para França e três para o Canadá. Os que estavam na França vinham cá passar o verão e era uma alegria enorme estarem todos juntos de novo em casa dos pais.

O pai Manuel Galo faleceu em 13 de Setembro de 1972, com 73 anos de idade.

A mãe Laura de Jesus Amado, que era mais conhecida por ti Laura Sarrana, filha de Manuel Vieira Amado e Águeda de Jesus Roque (Serrana), sempre dizia que queria morrer a um sábado dia 13 (dia de Nossa Senhora) porque acreditava que Nossa Senhora a levaria para o Céu nesse mesmo dia, e efetivamente ela veio a falecer em 13 de Setembro de 1986, que era sábado, com 84 anos de idade.

 

A Zica deixou-nos em 09-04-1972, o Sôr em 17 de Junho de 1996 e 0 João em 19 de Agosto de 2008.

Os filhos, noras e genros em 2 de Agosto de 2011

Chegando a 2019

O Chico partiu em 17 de Janeiro e a Lhuca a 18 de Outubro do mesmo ano (2019).

120 anos depois, a 10 de Novembro de 2019, Manuel Galo tem 25 netos, 35 bisnetos, 10 trinetos, e por aí vai…

 “Uma pessoa está em paz quando todas as pessoas que pertencem à sua família tem lugar no seu coração” (Bert Hellinger)

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Século XX

As nossas avós viveram num tempo em que as famílias eram muito numerosas, e todos viviam daquilo que a terra produzia. Os pais valorizavam muito mais o trabalho do que os estudos, mesmo assim alguns meninos puderam frequentar o ensino primário.

As meninas não, elas não precisavam de estudar. Faziam falta em casa para cuidar dos irmãos mais novos, para ajudar no trabalho no campo e para guardar o gado.

Eram educadas para serem boas donas de casa, esposas e mães. Tinham que aprender a cozinhar, lavar, passar, costurar, bordar, e tudo o que fosse preciso para tratar bem do marido e dos filhos.

joãorosinhacomospais

Habitações

As casas de habitação tinham por regra dois quartos, a casa de fora, a cozinha, uma pequena dispensa e um sótão. Logo em frente à porta  da cozinha estava o pátio e os palheiros dos animais.  Não existia casa de banho, nem água, nem luz.

Casa Pão por Deus 1930

Mobiliário

Quartos: Cama de ferro e colchão de camisas, uma pequena cómoda e um lavatório.

 

Casa de Fora: Uma mesa ao centro com algumas cadeiras e um guarda-louça e arca. Aqui se recebia o Sr. Prior pela Páscoa, durante o ano esta era uma divisão muito pouco utilizada.

A sala. Chamava-se Casa de Fora e era onde se recebia o Sr.Prior pela Páscoa

A sala. Chamava-se Casa de Fora e era onde se recebia o Sr.Prior pela Páscoa

Cozinha: Lareira, um armário com espaço próprio para os cântaros da água, e uma mesa com algumas cadeiras.

Aspecto da coizinha. Tinha uma porta para a dispensa onde se colocavam as talhas do azeite e as salgadeiras entre outras coisas

Aspecto da cozinha. Tinha uma porta para a dispensa onde se colocavam as talhas do azeite e as salgadeiras entre outras coisas

As Tarefas do dia a dia

Cozinhar

Tudo se cozinhava ao lume, em cima da trempe numa panela de ferro. A púcara de cozer feijões estava sempre encostada ao lume. Para fazer as torradas encostava-se o pão caseiro ao ar do lume.

 

“Haja saúde e coza o forno” era uma expressão muito utilizada quando se falava das agruras desta vida.

Ao sábado cozia-se o pão para toda a semana. Para isso era preciso ir à serra com o burro buscar carrascos, e por vezes não havia lá muitos porque toda a gente precisava deles!

A farinha era produzida no moinho da Cabeça, no moinho do Covão de Oles, ou nos moinhos da Chã, com os cereais que os agricultores produziam.

MOINHO DA CHA

Para fazer o pão a farinha era amassada num alguidar de barro, deixava-se levedar, tendia-se e levava-se a cozer no forno a lenha.

Alguidar para amassar o pão

Alguidar para amassar o pão

A Lavagem da Roupa

Lavar a roupa tinha que ser na Fonte. A não ser que perto de casa existisse um poço ou uma cisterna onde se guardava a água da chuva. Neste caso lavava-se a roupa em cima de uma pedra grande que existisse no quintal.

Lavadouro, Lavar Roupa

Quanto a detergentes, havia sabão azul e mais nada. Para a roupa ficar branquinha, lavava-se com sabão azul e depois colocava-se numa bacia com água e cinza. Deixava-se estar por umas horas e depois passava-se por água limpa. Ficava branquinha que dava gosto.

Passar a Roupa a Ferro

Era preciso colocar as brasas do lume dentro do ferro, e ir colocando mais brasas para manter o ferro quente. As famílias mais abastadas tinham um ferro com uma peça que se desencaixava, e era só essa peça que se aquecia no lume.

Ferro para passar a roupa - Colocavam-se as brasas lá dentro (de Felix Reis)

Ferro para passar a roupa – Colocavam-se as brasas lá dentro (de Felix Reis)

Limpeza da Casa

O soalho da casa toda, era de madeira. Tinha que ser esfregado com água e sabão, era encerado, e depois passava-se lustro com um pano seco.

Para tirar os maus odores de dentro de casa, queimava-se alecrim com um pouco de açúcar escuro em cima de uma telha.

Tratar dos filhos

As fraldas dos bebés eram de pano, depois de sujas eram lavadas, enxugavam ao sol e usavam-se de novo.

Um filho que nascia, era uma alegria. Mesmo que ele fosse o numero 14. Não era preciso fazer ecografias. Os sintomas de gravidez era conhecidos de todos, e para saber se estava mesmo grávida esperava-se, como o passar do tempo logo se via.  O sexo do bebé via-se quando ele nascesse, o que ia acontecer no tempo próprio e com a ajuda da parteira, ou da mãe, ou das tias, ou vizinhas que na altura estivessem mais perto.

Como normalmente as casas só tinham 2 quartos, um quarto era dos pais e o outro era o quarto das raparigas. Os rapazes enquanto bebés dormiam com os pais, depois passavam a dormir em cima das arcas onde se guardavam os cereais, quando já fossem um pouco mais crescidinhos passavam então a dormir no palheiro.

As crianças ajudavam os pais no trabalho do campo. Um ditado popular dizia que “o trabalho do menino é pouco, mas quem o desperdiça é louco”. O resto do tempo brincavam na rua, mas quando ouvissem o sino tocar as ave-marias, às 20 horas, iam todos a correr para casa.

Aos domingos as avós preparavam um lanchinho e iam com as crianças para os “eucaliptos”, onde passavam a tarde a brincar. O ar dos eucaliptos fazia bem quando o pessoal estava constipado. Com as folhas do eucalipto fazia-se um chá bom para tratar febres e náuseas.

 

O Sustento da Família

 O pai trabalhava todo o dia, ou na agricultura, ou nas minas, ou na construção, e por vezes tinha que sair de casa durante longos períodos, de acordo com o local onde arranjasse trabalho.

A mãe trabalhava em casa. Tinha que se preocupar em colocar comida em cima da mesa todos os dias, mesmo naquelas alturas do ano em que não existia dinheiro nenhum. Para isso criava galinhas, coelhos, porco e vacas, e cultivava os quintais mais perto de casa.

As coisas que não podia produzir, como arroz, açucar, velas, petróleo para os candeeiros, etc., tinha que comprar na mercearia.

As mercearias da aldeia, conhecidas por lojas, vendiam todo o tipo de coisas, mas não havia nada embalado. O arroz, açúcar, grão e outros cereais, chegavam à mercearia em sacos de serapilheira de 25 kg, que depois eram entornados para dentro das tulhas, (grandes caixotes de madeira com uma tampa) para serem vendidos a peso.

Era possível comprar por exemplo 250 gramas de açúcar, que era embrulhado num cartucho de papel manteiga.

O jornal União Nacional dedicado ao concelho de Porto de Mós, menciona os comerciantes do Alqueidão da Serra, todos eles donos de mercearias.

JornalUniãoNacional

Estatísticas

 Início do Século XX

Segundo o Censo de 1900 a população total do Continente e Ilhas era de 5.428.659 habitantes. Nesta altura Portugal tinha 17 distritos. A grande maioria vivia no campo. Menos de 20% desta gente toda era de condição urbana, e destes 20% mais de metade vivia nas cidades de Lisboa e Porto.

A Economia Agrícola

Nas primeiras décadas do século XX, Portugal tinha um elevado índice de pessoas que trabalhavam no campo. Em 1910, cerca de 85% da população vivia da agricultura. Esta atividade era praticamente o único meio de subsistência dos habitantes da freguesia de Alqueidão da Serra.

Aqui as culturas mais importantes eram as da oliveira, da vinha, da batata, do trigo e do milho, logo seguidas de outras como a fava, grão-de-bico, chicharo, aveia e cevada.

O milho e o trigo eram utilizados para consumo dos agricultores e suas famílias, a aveia e a cevada era mais para alimento dos animais.

Nos quintais e hortas mais perto de casa, cultivavam-se alfaces, nabos, cenouras, feijão verde, couves, alhos, cebolas, etc.

A População 

Na Freguesia de Alqueidão da Serra (segundo o censo de 1900), viviam 561 pessoas do sexo masculino e 619 do sexo feminino, distribuídas por 285 habitações.

O Serviço Militar 

Aos 18/19 anos os jovens eram chamados para a inspecção militar (provas físicas e médicas) e habitualmente eram incorporados no ano em que cumpriam o 20.º aniversário.

O serviço militar era obrigatório, mas a lei permitia a dispensa do mesmo em troca de 150 mil reis, que podiam ser pagos em três prestações. Além disso estavam dispensados os indivíduos deficientes, inválidos, ou que fossem o amparo único de mãe ou irmão.

O tempo de recruta, de instrução militar básica, durava cerca de três meses e o restante tempo de serviço era cumprido na unidade para onde o militar era enviado. O principal objectivo, de acordo com a legislação, era a defesa da pátria.

tropa26

O serviço militar obrigatório terminou em Setembro de 2004.

A  fé que nos salva

Povo de grandes tradições religiosas, rezava-se o terço em família, quase todas as raparigas pertenciam à Pia União das Filhas de Maria, ou à Ação Católica, ou ao Apostolado da Oração, e existia uma enorme devoção a Nossa Senhora.

Com o passar o tempo as pessoas foram-se afastando da Igreja. Ainda levam as crianças à catequese,  mas já não têm tempo de ir à missa logo a seguir. Os jovens fazem o Crisma e nunca mais ninguém os vê nas actividades da Igreja. Cada qual tem a sua própria fé.

Somos batizados e no entanto afastamo-nos, desviamo-nos…

É tempo de voltar para casa.

 

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Pia Furada

Em tempos muito longínquos existia uma povoação no Cimo da Cabeça do Sol, mais ou menos a meio do caminho entre o Covão de Oles e um lugar a que chamamos “o Canivete”.

Era a Pia Furada. A deslocação dos habitantes desta localidade para o outro lado da serra deu origem ao Covão de Oles.

Tempos houve em que os dois lugares eram habitados mas com o passar dos tempo as casas da Pia Furada foram ficando desabitadas, até que ficar apenas as ruínas que acabaram por ficar cobertas com silvas e mato.

A Lenda da Pia Furada

Na área da Pia Furada, pertencente ao lugar do Covão de Oles, houve em tempos um homem que há muito sonhava com tesouros. Certa noite voltou neles a sonhar, aparecendo-lhe uma moira que por três vezes lhe disse:

Se queres o teu bem
Vai a Santarém

A partir dessa altura o homem convenceu-se que o tesouro se encontrava em Santarém, mas que a confirmação só a teria se a moira lhe aparecesse em sonhos tantas vezes quantas as que ela o incitara a ir a Santarém. Efetivamente e moira voltou a aparecer-lhe, em sonhos, por mais duas vezes e de cada uma delas insistindo por três vezes:

Se queres o teu bem
Vai a Santarém

Então o homem dirigiu-se, certo dia a Santarém para procurar o tesouro numa terra que lhe parecia semelhante com a que sonhara.

Andando de um lado para o outro à procura de indícios do local exato, apareceu-lhe a determinada altura o proprietário do terreno que lhe perguntou, o que andava ele ali a fazer.

Então o nosso homem explicou-lhe o que sonhara e o que pretendia com a busca que agora efetuava. O dono do terreno fez troça dele e disse-lhe que se quisesse encontrar tesouros, lhe diria onde os encontrar.

Contou-lhe então que na Pia Furada (que ele não sabia onde ficava), havia um tesouro num curral, sob um penedo onde costumava repousar o bode do rebanho. O penedo estava dentro do curral das cabras.

Ora o nosso homem, espantado, pode verificar que se tratava precisamente do seu curral e do seu bode, agradeceu apenas, e interrompeu a pesquisa, sem lhe dizer de onde era, e muito menos que se tratava de um curral seu.

Voltando para casa e procurando o tesouro sob o penedo do curral onde dormia o chibo, encontrou efectivamente uma panela de barro com peças de ouro.

(da tradição oral)

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Mãos com Vida

Apesar das muitas limitações da idade, há pessoas que se recusam a ficar paradas sem fazer nada, porque, como diz a tia Adélia, “o tempo passa na mesma, portanto, temos que o passar com qualidade”.

Tendo ainda condições para ficar nas suas próprias casas, dedicam-se ao artesanato, e quando terminam o trabalho, elas próprias se espantam por serem capazes de fazer coisas tão bonitas…

Seguem alguns exemplos, sendo certo que existirão ainda outros espalhados pelo Alqueidão da Serra.

Benvinda, 85 anos

Lhuca 86 anos

Adélia Locádia 92 anos

(fotos de Janeiro de 2019)

Alice Rato –  84 anos

Inocêncio Gomes – 85 anos

Faz poesias, moinhos com materiais usados e moinhos de papel para as crianças da escola brincarem.

E há ainda os que se dedicam à agricultura e cuidam das suas hortas e jardins.

Porque não é só acrescentar anos à vida, é preciso também acrescentar vida aos anos, para além destas atividades, os que podem, ainda fazem umas caminhadas, quanto mais não seja chegar ao fundo da rua e voltar para trás 10 vezes.

Aos que não têm esta vontade devíamos acender neles este desejo e ajudá-los a praticar algum tipo de exercício físico para que pudessem ter uma vida mais equilibrada e saudável.

 

 

 

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