Pia Furada

Em tempos muito longínquos existia uma povoação no Cimo da Cabeça do Sol, mais ou menos a meio do caminho entre o Covão de Oles e um lugar a que chamamos “o Canivete”.

Era a Pia Furada. A deslocação dos habitantes desta localidade para o outro lado da serra deu origem ao Covão de Oles.

Tempos houve em que os dois lugares eram habitados mas com o passar dos tempo as casas da Pia Furada foram ficando desabitadas, até que ficar apenas as ruínas que acabaram por ficar cobertas com silvas e mato.

A Lenda da Pia Furada

Na área da Pia Furada, pertencente ao lugar do Covão de Oles, houve em tempos um homem que há muito sonhava com tesouros. Certa noite voltou neles a sonhar, aparecendo-lhe uma moira que por três vezes lhe disse:

Se queres o teu bem
Vai a Santarém

A partir dessa altura o homem convenceu-se que o tesouro se encontrava em Santarém, mas que a confirmação só a teria se a moira lhe aparecesse em sonhos tantas vezes quantas as que ela o incitara a ir a Santarém. Efetivamente e moira voltou a aparecer-lhe, em sonhos, por mais duas vezes e de cada uma delas insistindo por três vezes:

Se queres o teu bem
Vai a Santarém

Então o homem dirigiu-se, certo dia a Santarém para procurar o tesouro numa terra que lhe parecia semelhante com a que sonhara.

Andando de um lado para o outro à procura de indícios do local exato, apareceu-lhe a determinada altura o proprietário do terreno que lhe perguntou, o que andava ele ali a fazer.

Então o nosso homem explicou-lhe o que sonhara e o que pretendia com a busca que agora efetuava. O dono do terreno fez troça dele e disse-lhe que se quisesse encontrar tesouros, lhe diria onde os encontrar.

Contou-lhe então que na Pia Furada (que ele não sabia onde ficava), havia um tesouro num curral, sob um penedo onde costumava repousar o bode do rebanho. O penedo estava dentro do curral das cabras.

Ora o nosso homem, espantado, pode verificar que se tratava precisamente do seu curral e do seu bode, agradeceu apenas, e interrompeu a pesquisa, sem lhe dizer de onde era, e muito menos que se tratava de um curral seu.

Voltando para casa e procurando o tesouro sob o penedo do curral onde dormia o chibo, encontrou efectivamente uma panela de barro com peças de ouro.

(da tradição oral)

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Mãos com Vida

Apesar das muitas limitações da idade, há pessoas que se recusam a ficar paradas sem fazer nada, porque, como diz a tia Adélia, “o tempo passa na mesma, portanto, temos que o passar com qualidade”.

Tendo ainda condições para ficar nas suas próprias casas, dedicam-se ao artesanato, e quando terminam o trabalho, elas próprias se espantam por serem capazes de fazer coisas tão bonitas…

Seguem alguns exemplos, sendo certo que existirão ainda outros espalhados pelo Alqueidão da Serra.

Benvinda, 85 anos

Lhuca 86 anos

Adélia Locádia 92 anos

(fotos de Janeiro de 2019)

Alice Rato –  84 anos

Inocêncio Gomes – 85 anos

Faz poesias, moinhos com materiais usados e moinhos de papel para as crianças da escola brincarem.

E há ainda os que se dedicam à agricultura e cuidam das suas hortas e jardins.

Porque não é só acrescentar anos à vida, é preciso também acrescentar vida aos anos, para além destas atividades, os que podem, ainda fazem umas caminhadas, quanto mais não seja chegar ao fundo da rua e voltar para trás 10 vezes.

Aos que não têm esta vontade devíamos acender neles este desejo e ajudá-los a praticar algum tipo de exercício físico para que pudessem ter uma vida mais equilibrada e saudável.

 

 

 

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Andrés Stagnaro dá concerto no Alqueidão


Andrés Stagnaro é um poeta, cantor e autor uruguaio de reconhecido mérito, com forte ligação a Portugal onde vem com alguma regularidade. Canta e musica os seus próprios poemas, bem como poesia que apropria de modo original, dando-lhe vida nova, respeitando os textos e promovendo a sua divulgação.

O repertório inclui escritos de José Saramago e David Mourão Ferreira, havendo espaço para a música de intervenção portuguesa, nomeadamente a de José Afonso, e para a música revolucionária da América Latina.

No seu mais recente disco “No te acostumbrarás” (Não te habituarás) aliou-se ao multi-intrumentista Frederico Graña (líder e principal compositor da banda rock Los Prolijos) que contribui com sua intensidade e conhecimento do som folk-eletroacústico na produção e, como intérprete, encarregado de guitarras, baixo, bateria, teclados, percussão, bandolim e coros.

“Los muros de la verguenza” (leitmotiv da colaboração de Ana Tejera) e “Mujeres del Kurdsitán”, dois temas próprios que abrem o CD, marcam o forte perfil político do disco, que também pode ser apreciado em “Acufeno de los desaparecidos”, sobre um poema de Andrés Echevarría. O título deste trabalho espelha a atitude do artista presente, de resto, em toda a obra de Stagnaro.

Andrés Stagnaro vem ao Auditório José Catarino a convite de David Teles Ferreira, seu amigo pessoal. Nesta sua vinda a Portugal, o cantoutor refugia-se por uns dias em casa do seu amigo no Alqueidão da Serra e, a convite do anfitrião, brinda-nos a todos com o concerto agora anunciado.

Uma preciosidade para a nossa terra.

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Carlos Alberto Amado da Silva

Carlos Alberto nasceu em 1947, em Leiria, mas as sua raízes estão no Alquedão da Serra. É filho da D. Ema (irmã da D. Conceição Amado) e de Joaquim Pereira da Silva natural de Guimarães.

Maria Ema Amado e Joaquim Pereira da Silva

Conheceram-se em Leiria, casaram na igreja paroquial do Alqueidão da Serra e foi nesta mesma igreja que batizaram o primeiro filho. Tomaram depois a decisão de ir viver para Leiria, mas visitavam com frequência a família que tinham deixado no Alqueidão da Serra.

O Cabé nasceu em Leiria e foi nesta cidade que iniciou o ser percurso de vida. Frequentou o Ensino Primário na Escola de Stº Estevão, e o Ensino Secundário no Liceu Nacional de Leiria. Ingressou no  Instituto Superior de Agronomia, de onde saiu (licenciado) em 1975.

Habilitações académicas

  • Licenciatura em Engenharia Agronómica (I.S.A)
  • Pós-Graduação em Estatística e Aplicações
  • Pós-Graduação em Métodos de Gestão e Programação
  • Curso de formação sobre Política Agrícola Comum

Actividade Profissional

1979/1987

Foi Director da Rede de Informação de Contabilidades Agrícolas (RICA)

A Rede de Informação de Contabilidade Agrícola (RICA) permite à Comissão Europeia acompanhar a situação das explorações agrícolas na União Europeia (UE), disponibilizando, dados sobre os rendimentos e as atividades económicas das explorações agrícolas. Estes dados são utilizados para efeitos de análise no desenvolvimento e avaliação da Política Agrícola Comum.

1987/1989

Sub- Director Geral do Planeamento e Agricultura, em acumulação.

1989/1993

Director Geral de Hidráulica e Engenharia Agrícola.

1993/1997

Administrador do Instituto de Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e das Pescas (IFADAP)

1997/2005

Presidente da Agência de Controlo das Ajudas Comunitárias ao Sector do Azeite (ACACSA)

2005/2007

Administrador do Instituto de Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e das Pescas (IFADAP) e do Instituto Nacional de Garantia Agrícola (INGA).

2007/2010

Administrador do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas, I.P (IFAP).

2009

Actividade Desportiva

Carlos Alberto Amado da Silva

Jogador de Agronomia, 1ª Divisão , 1966-1972, com a conquista de vários campeonatos nacionais universitários, dois Torneios de Aberturae um 3ª Lugar no CN.

Seccionista da Associação de Estudantes de Agronomia.

Treinador de todos os Escalões, tendo sido Campeão Nacional da 2ª Divisão, de Iniciados e Juvenis.

Jogador, treinador e dirigente das equipas de Rugby do Instituto Superior de Agronomia.

Fundador e Presidente da Associação dos Antigos Alunos de Agronomia (1989)

Presidente do Clube de Rugby de Agronomia (1980/2010)

Presidente da Federação Portuguesa de Rugby (2010/2015)

Vice-Presidente da Rugby Europe (2012/2015)

Representou, em todos os escalões etários, como jogador federado, o Futebol Clube de Marrazes e, posteriormente, o Sport Clube Leiria e Marrazes.

Actividade Musical

Membro do Coro da Universidade de Lisboa (1968/1971)

Coro da Universidade de Lisboa

Serviço Militar

Oficial da Reserva Naval

Curso de Oficiais da Reserva Naval, com especialização em Fuzileiro Especial.

Segundo Tenente Fuzileiro Especial com participação na Guerra do Ultramar, integrando o Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 9, em Moçambique (1971/1974)

Vida Associativa

  • Fundador da Associação dos Antigos Alunos de Agronomia
  • Sócio da Associação dos Oficiais da Reserva Naval
  • Sócio da Associação Portuguesa de Economia Agrícola
  • Sócio da Associação Europeia de Economistas Agrícolas

Atualmente aposentado dedica o tempo a fazer aquilo que mais gosta, apreciando a companhia da família e dos amigos.

30 de Dezembro de 2018 Foto de José Vergueiro

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Pulguico

Inocêncio é filho do Chico da Pulga, por isso chamam-lhe Pulguico. Nasceu no Beco do Canto, uma ruela sem saída que fica à esquerda de quem desce a Rua Padre Júlio Pereira Roque em direção à estrada principal.

Depois de uma vida inteira de trabalho, ele é atualmente um dos utentes do Centro de Dia do Alqueidão da Serra. Aproveita o tempo para fazer artesanato e vai escrevendo poesias num cadernito que traz sempre debaixo do braço. Escreve sobre as situações que vive, sobre os lugares que visita, sobre as pessoas que encontra e sobre a sua própria vida.

História de Vida

Desenho de Francisco Furriel Escolhedoras de Carvão Trabalhadoras da Empresa Mineira do Lena

A minha mãe trabalhava
Nas Alcanadas na mina de carvão
Uma hora distante, eu ia-lhe levar a sopa
Nos dias que não havia pão.

Os caminhos eram ruins
Mal se podia andar
Eram tão maus
Que me faziam tombar.

Um dia fui-lhe levar
O almoço, com a cesta à cabeça
Escorreguei numa laje
E parti a cabeça.

Quando me levantei
Vi tudo espalhado
Apanhei do chão o resto
Ia todo desanimado.

Nesse dia ia a chorar
Ia todo desanimado
O resto que eu havia de comer
Ficou todo espalhado.

***

No regaço da minha avó
Tantas horas passei
Que Deus lhe pague um dia (no Céu)
Que eu não me esquecerei.

Foi com ela que me vi na vida
Com ela a trabalhar
Cantava canções bonitas
Que eu não deixei escapar.

As canções que ela cantava
Era só para me amimar
Eu sempre gostei de andar
Com ela a trabalhar.

Ela para me contentar, dizia-me:
“O trabalho do menino é pouco,
Mas quem o desperdiça é louco”.

Estas cenas passadas,
Mas  não esquecidas
Ficam gravadas
No resto da vida.

Rua da Tojeira

Eu nasci no Alqueidão
Ao pé de uma nogueira
Nunca vi coisa melhor
Que a rua da Tojeira.

Eu era do Alqueidão
E fui parar à Tojeira
Algo me aconteceu na vida
Foi uma grande doideira.

Passei grandes dificuldades
Como eu não houve igual
Muito sofri neste mundo
Sem nunca fazer mal.

Sentado a  esgravelhar milho
Alguém se apercebeu
Que eu estava a choramingar
E que nada me aconteceu.

Fui convidado a passear
Coisa que eu nunca fiz
Fui parar a terras longínquas
Fora do meu país.

5 dos seus 7 filhos

Plantei três roseiras
Em redor do meu poço
Reguei-as enquanto pude
Mas agora é que eu não posso.

As três roseiras delicadas
Tenho-as de estimação
Trago-as sempre fechadas
Dentro do meu coração

As três roseiras que pus
Todas bem cheirosas
Muito bonitas
E muito maravilhosas.

Essas flores de jardim
Nem todos as podem desfolhar
Vão caindo pouco a pouco
Até um dia acabar.

A roseira que eu escolhi
Foi para a estimar
Sempre a estimei bem
E a tenho que respeitar.

Três roseiras que plantei
Num dia de vento
Pois essas roseiras andam
Sempre no meu pensamento.

Na minha roseira enxertei
Sete garfos diferentes
Quatro cravos e três rosas
Todos com cheiro atraente.

Pus quatro craveiros no jardim
Não todos ao mesmo tempo
Dois pegaram bem e o outro menos mal
E o outro levou-o o vento.

Dos quatro craveiros que pus
Com muita estimação
Três deram flor
Só um é que não.

A flor que eles deram
Guardo-a com sentimento
Peço que não me saia
Fora do meu pensamento.

Dos quatro craveiros que pus
Todos deram botão
Três resistiram na árvore
E o outro caiu no chão

Essa flor que caiu
Nem me quero relembrar…
Tanto fiz na vida
Para a poder guardar.

*****

A minha casa velhinha
Pega mesmo com a estrada
Ao sair de dentro dela
Vejo a vida atrapalhada.

Saio e piso a estrada
Eu não sei para onde ir
Vejo tudo ao contrário
É a minha vida a desistir.

Olho para trás e vejo
O caminho a desaparecer
Sinto nas minhas pernas a doer
Sinal de enfraquecer

Vejo a falta de visão
E as pernas a tremer
A memória a falhar
É sinal de desaparecer.

Ao entrar na minha rua
Vejo o sol a brilhar
Vejo tudo a correr
Só eu a descansar.

Agora a minha vida
Já não tem remissão
Umas pancadas no sino
E avisar o sacristão.

Centro de Dia de Alqueidão da Serra

Abalei de minha casa
Um dia chateado
Vim pedir a esta casa
Para ser auxiliado.

Pedi a uma Senhora Doutora
O conforto para me dar
O conforto que tive dela
Foi que podia ficar.

Vim para esta casa
Mas mais por andar aborrecido
Se não fosse por isso
Ainda não tinha vindo.

Uma casa onde se está bem
Mas não é para brincar
É para andar com jeito
E ao respeito não faltar

Sempre fui educado
Por aquilo que me ensinaram
Mas sinto-me desanimado
Por qualquer coisa que me faltaram.

*******

No Centro de Dia o ti Inocêncio dedica-se ao artesanato. Faz moinhos de vento com latas velhas e garrafões de água vazios, entre outras coisas, e ajuda sempre nas atividades que lhe são propostas.

O Caderno azul do ti Inocêncio espelha os seus sentimentos, emoções, alegrias e tristezas, o seu modo de estar na vida.

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O Centro de Dia desempenha um papel fundamental, também com o apoio domiciliário, na medida em que permite aos idosos ficarem nas suas casas sem que lhes faltem os cuidados básicos, alimentação e higiene. É uma luta diária contra a solidão e o isolamento a que estão votados muitos dos nossos idosos.

 

 

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