Jupéro e a Restauração da Diocese

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TENTATIVAS DE “MORDAÇA”

Jupéro esteve detido na antiga cadeia de Sintra

A visibilidade social, o impacto das suas crónicas, a militância desassombrada e, por vezes, temerária no contexto político da época, fizeram de Jupéro uma voz a silenciar.

Primeiro foram os republicanos de Sintra através de algumas intimidações e de uma denúncia falsa que levaria o padre Júlio à prisão. Depois a própria Condessa de Penha Longa que, alegando estarem as crónicas do seu assalariado a colocar em perigo os negócios e património da Quinta, exigia discrição sugerindo veladamente o despedimento do seu capelão particular.

Nesta fase difícil da sua longa estadia de cerca de 8 anos em Sintra, o padre Júlio recebeu um apoio humanitário de peso, prova da amizade profunda que pode unir dois homens, muito para além das circunstâncias e da ideologia.

O gesto nobre partiu do conhecido republicano e ex-padre, João Soares — pai do antigo presidente da República, Mário Soares — que se dispôs a sair de Santarém onde exercia as funções de Governador Civil e deslocar-se à prisão de Sintra para exigir a libertação do seu amigo perante o Administrador do Conselho que bem conhecia.

Mesmo depois de João Soares ter atestado a idoneidade do padre Júlio e demonstrado a impossibilidade de ele ter cometido o crime de assassínio de que fora anonimamente acusado, o administrador não estava disposto a ceder. João Soares procurou então uma cadeira e, ainda de pé, tem esta persuasiva expressão: “Nesse caso afirmo-te categoricamente que não abalarei de Sintra sem que o padre Júlio seja posto na rua. Faz como entenderes.”

João Soares não necessitou de se sentar, segundo relato de Alfredo de Matos na sua monografia “Alqueidão da Serra – História e Lendas, Usos e Costumes”, Vol. I, p. 439.

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(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)
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Jupéro e a Restauração da Diocese

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UM ADEPTO DE PESO

O semanário “O Mensageiro” passa a ser a nova tribuna da causa da Restauração do Bispado.

A notoriedade e espírito combativo de Jupéro chegou aos ouvidos do reitor do Santuário dos Milagres, padre Ferreira de Lacerda. Este novo adepto da causa da restauração decidiu fundar um jornal a que chamaria “O Mensageiro” como nova tribuna de uma campanha que, entre avanços e recuos, já levava 10 anos de existência.

O diretor e proprietário do novo semanário escreve assim no primeiro número, publicado em 7 de Outubro de 1914, referindo-se ao padre Júlio:

 “Não o conhecemos pessoalmente, mas a opinião dos que o conhecem não lhe pode ser mais favorável. A sua bela alma, o seu temperamento de lutador, o seu entusiasmo pelas causas que advogamos patenteia-se-nos nas suas cartas que conservamos com religioso amor porque das mesmas ressalta tanto incentivo, como de outras que recebemos, despeito e contradição.

Queríamos vê-lo à frente de “O Mensageiro”, (…) Não o conseguimos; razões ponderosas e a maior de todas e a que mais sentimos, a sua falta de saúde, não o deixaram ver realizadas as nossas aspirações, mas lá de longe a sua colaboração será sempre bem-vinda, (…).

Iniciador e alma do movimento iniciado há anos, conseguiu o que poucos conseguiram. Em todos os habitantes da antiga diocese renasceu o antigo desejo de ver restaurado o seu bispado; promoveu representações, colheu ofertas de fundos, reuniu comissões. Trabalhou… e trabalhou a valer. Não viu o seu trabalho coroado de êxito porque… ele o diz no seu artigo que honra as colunas deste jornal, mas nem por isso se lhe pode negar que ninguém com mais ardor batalhou por causa tão justa, tão santa e tão necessária. (…)

Que Jupéro receba os preitos de nossa gratidão por não enfileirar em certa casta que a necessidade nos obrigará a fustigar, e pelo contrário nos vem auxiliar nesta santa Cruzada.”

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O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.

 

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Jupéro e a Restauração da Diocese

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“EXÍLIO DOURADO”

Jupéro aceitou capelania da Quinta da Penha Longa, em Sintra.

A venda do jornal “O Portomosense”, onde Jupéro publicava regularmente as suas crónicas, teve como consequência a alteração da linha editorial e ideológica do semanário que passou a ter uma orientação próxima do movimento republicano. Jupéro ficou, assim, sem espaço e sem tribuna para prosseguir a campanha pela restauração da Diocese, muitas vezes feita de palavras inflamadas pelo entusiasmo das convicções que professava.

Vencido pelas circunstâncias, mas não desistindo da sua causa, o padre Júlio decidiu aceitar o convite do Bispo Auxiliar de Lisboa e partiu para o “exílio dourado” na Quinta de Penha Longa em Sintra onde a infelicidade de um acidente de automóvel o deixou com sequelas permanentes na perna que fraturou.

Foi daquela quinta no sopé da serra de Sintra, que assistiu, atento e pouco sereno, à implantação da República e foi dali que retomou, com o vigor e a contundência de sempre, as suas crónicas de carácter político-religioso.

Falar da restauração do Bispado nos termos do moribundo regime monárquico era, neste novo cenário político, o mesmo que defender os tradicionais valores do catolicismo, criticar a Lei da Separação (entre o Estado e a Igreja) e lutar politicamente contra o ideário republicano em processo de implementação no país. Por algum tempo, defender a causa da restauração do Bispado de Leiria foi sinónimo de defesa da causa monárquica.

Com colaborações em jornais católicos como “Ecos do Lis”, de Leiria, “A Ordem”, publicado no Porto, “Correio Nacional” editado em Lisboa e ainda no periódico “A Época”, Jupéro era agora um influente cronista, temido e respeitado, cuja inegável notoriedade pessoal colocava generosamente ao serviço da sua missão de sempre.

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O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.
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Jupéro e a Restauração da Diocese

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Primeiras Dificuldades

Igreja de S. João, em Porto de Mós onde o P. Júlio exerceu funções de coadjutor

Aproveitando a tribuna que tinha disponível, as páginas do singelo semanário “O Portomosense”, Jupéro iniciou sozinho a campanha pela restauração da diocese tendo apenas diante de si uma folha de papel em branco onde escreveu o histórico artigo de opinião “Um Alvitre”, a sua proposta de restauração da diocese. A mensagem espalhou-se como o som de um trovão e eclodiu por toda a antiga diocese de Leiria chegando mesmo ao Patriarcado de Lisboa onde foi recebida com desconforto.

Cedo o padre Júlio percebeu que não poderia contar com o apoio e muito menos com a cumplicidade do ilustre leiriense sagrado bispo Auxiliar de Lisboa. Mas esse facto não o fez desistir, bem pelo contrário. Com as suas crónicas Jupéro foi beliscando desassombradamente os poderes instituídos em Lisboa e Coimbra embaraçando, sempre com elevação, as duas dioceses que repartiam entre si, por ordem papal, a soberania do antigo bispado de Leiria.

  1. José Alves de Matos, o bispo auxiliar de Lisboa, foi dando respostas indiretas às crónicas de Jupéro procurando demovê-lo da sua campanha com persuasivos e insistentes convites para que aceitasse exercer funções de capelania na quinta de sua amiga a Condessa de Penha Longa, em Sintra, onde seria bem remunerado e teria uma vida confortável.

 “V.ª Rev.ma ficaria assim em excelentes condições de se entregar às lides da imprensa católica”, escreve o arcebispo num dos convites com data de março de 1905 dirigido ao padre Júlio.

Mas as dificuldades para a causa da restauração da Diocese vinham também do ambiente político da época. A causa republicana, ganhando terreno no país, perturbava as possibilidades de sucesso da missão de Jupéro.

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(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)
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Jupéro e a Restauração da Diocese

“UM ALVITRE: O BISPADO DE LEIRIA”

Padre Júlio Pereira Roque

Foi com este título de capa, impresso no velhinho jornal “O Portomosense” de 21 de Novembro de 1903 que o padre Júlio Pereira Roque (Jupero) deu a conhecer, pela primeira vez, a sua visão: viver numa diocese de Leiria restaurada.

Recorde-se que o bispado de Leiria havia sido extinto há 22 anos por decreto papal de Leão XIII com data de 30 de setembro de 1881.

A visão do padre Júlio, inspirada na figura e nas memórias do velho pároco de Porto de Mós, Manuel do Espírito Santo, que coadjuvava, passou a guiar os seus dias, a encher de tinta a sua caneta de cronista fogoso na veste de um jovem padre, a atrair adeptos para a causa da restauração do bispado, mas também a criar muitas inimizades.

Na pacatez da sua vida de padre coadjutor em Porto de Mós, Jupéro soube ler algumas notícias vindas de Roma como a janela de oportunidade para concretizar a sua visão.

Com efeito, o papa Leão XIII morrera aos 93 anos de idade, nesse ano de 1903 e o seu sucessor, o papa Pio X, nomeou D. José Alves de Matos, natural do Souto da Carpalhosa, Leiria, para Arcebispo de Mitilene, título atribuído ao bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa.

Naquela época, a parte sul da diocese de Leiria pertencia precisamente ao Patriarcado de Lisboa e a nomeação daquele ilustre leiriense deu a Jupéro o pretexto para iniciar a campanha pela restauração do bispado.

O padre Júlio depositava em D. José Alves de Matos fundadas esperanças na concretização do seu sonho e em 21 de Novembro iniciou, com o seu artigo de opinião “Um Alvitre: o Bispado de Leiria”, uma difícil e longa campanha pela restauração da Diocese de Leiria.

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(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)
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