Os Ranchos da Azeitona

Existem apenas na nossa memória os Ranchos da Azeitona que outrora fizeram parte da vida das gentes desta terra.

Em cada ano, nos meses de Outubro e Novembro, em dia e sítio combinado, juntavam-se os componentes dos “ranchos” falados com antecedência pelos encarregados da organização dos mesmos. Dali partiam, serra fora para os seus destinos: Bairro, Gouxaria, Covão do Feto e Serra de Santo António, principalmente.

Apesar das combinações quanto ao local e hora de partida, havia sempre a convocação pública. Esta era feita pelo toque daqueles búzios que o mar deita para a praia. Na falta destes, um canudo de cana também servia. O som provocado pelo sopro vigoroso de fortes e arejados pulmões espalhava-se pela aldeia toda.

Na parte da manhã do dia combinado para a saída, sempre ao domingo, o ritmo dos toques era calmo e lento. Depois do jantar voltava à carga, mas um pouco mais esperto. Quando se aproximava a hora da partida, aumentava a cadência e diminuía o espaço entre os toques.

O “tuu-tuu-tu-tu” inicial, fundia-se num só “tuuuuuuuuuuuuu” a que ninguém se atrevia a desobedecer. De todos os cantos iam saindo homens ou rapazes, de longa vara às costas e de mulheres ou raparigas com a cesta de vime enfiada no braço. Iam estar fora umas semanitas.

Finalmente juntos lá partiam à ordem do responsável pelo “rancho”. À frente seguiam  os burros carregados com roupa de cama e de vestuário, e também comida: pão, batata, carne, etc.

Atrás iam todos os elementos do “rancho” (incluindo a pessoa responsável pela volta dos animais) tropeçando nas pedras do caminho que, apesar das milhentas promessas de políticos, só muitos anos depois veio a ser estrada, aberta por iniciativa do Major e pelo trabalho de muitos, e o sacrifício de todos.

O silêncio era norma imposta pelas várias circunstâncias da partida. No meio dele imperava o som do búzio que, tendo-se calado para que o responsável do rancho dissesse o habitual “vamos lá com Deus”, voltara ao ritmo da toada inicial. O som era cada vez mais abafado à medida que se afastava da aldeia.

Cá em baixo, ficava-se a ver o “rancho” enquanto fosse possível acompanhá-lo com a vista e com o ouvido. Era no Penedo Grande, quando ele estropia, que o búzio deixava de se ouvir.

Todos seguiam com trabalho garantido e patrão certo. Acompanhava-os o palpite do tempo em que regressariam.

Uma regalia que nenhum rancho dispensava era o fornecimento de casa para dormir e condições para a confecção da comida. Pomposamente chamavam-lhe “Quartel”. Constava de quatro paredes mal rebocadas às vezes, cobertas sempre com telha vã. Havia sempre uma camada de palha ou de feno espalhada sobre as tábuas do soalho, onde cada um podia estender suas mantas.

Para efeitos de pagamento, havia duas modalidades de jorna: a seco ou com a comida incluída. Em qualquer dos casos havia sempre fornecimento do “Quartel”.

Todos iam pela última (com a comida incluída). Dentro desta modalidade, cada homem tinha direito a uma quarta de feijão e a certa porção de azeite, por semana. A ração das mulheres ou raparigas era metade. Havia patrões que manifestavam o seu apreço pelo pessoal oferecendo, de vez em quando, hortaliças.

A lenha necessária ao funcionamento da cozinha, tanto na parte de cozedura da comida como na do aquecimento ao borralho, também era um encargo da entidade patronal.

A vida no “Quartel” regia-se por normas que todos respeitavam. A cozinheira era escolhida entre as mulheres do “rancho”. Não precisava ela de ter grandes conhecimentos da matéria uma vez que a ementa era pouquíssimo variada.

A primeira refeição, o almoço, constava, salvo muito poucas excepções, de feijão guisado sabendo a loiro, com umas óptimas sopas de pão caseiro.

A segunda refeição, o jantar, era por volta do meio-dia. Entrava nela aquilo que por comum acordo se escolhesse. Embora fossem diversos os participantes, a comida era igual para todos em qualidade e quantidade.

Preparando esta refeição, a cozinheira tinha de fazer as coisas de forma a que sobrasse para a ceia. Antes de se deitar deixava preparado o almoço no dia seguinte. Este era ajeitado oportunamente pelas outras companheiras, uma das quais se levantava mais cedo, por escala, a fim de o aquecer e distribuir a tempo.

Na parte da tarde, a cozinheira, depois de lavada a loiça e arrumado o pequeno trem da cozinha, era obrigada a ir ter com o “rancho”, para colaborar no serviço da apanha.

A distribuição da comida tinha seus preceitos. Como os homens, por regra, são de mais alimento que as mulheres, juntava-se um homem e uma mulher quando se tratava de dividir os alimentos. Deste modo, cada homem tinha sua “mulher” na sociedade do prato, que era comum aos dois membros do improvisado “casal”.

Era da competência da cozinheira a distribuição das refeições e do conduto ou tempero, quando havia caso disso. Para lhe evitar complicações, se o tempero se fazia com azeite, sabiam todos o que lhes competia, visto que desde o princípio, ficava assente o número de voltas azeitadoras que a almotolia tinha que dar ao prato, deitando o fio de azeite sobre os alimentos do dia.

Se havia lugar para reclamação, só o responsável pelo “rancho” podia tomar conhecimento dela em ordem à sua resolução.

À noite, depois da ceia, uns faziam serão no “Quartel”, conversando sobre o trabalho feito e a programar o de amanhã ou lembrando cenas e gente do passado. Assim passavam as horas à luz mortiça da candeia de azeite, que era preciso espevitar de vez em quando puxando-lhe a torcida com um graveto ou com um gancho da trança de uma rapariga.

Outros jogavam à bisca utilizando cartas velhas que mantinham certa capacidade de uso graças ao poder da sujidade acumulada em anos sucessivos.

As raparigas aproveitavam o tempo ajeitando alguma peça de enxoval, quando não era a coser a rasgadela da saia ou da blusa feita pelo graveto de oliveira ou pelo bico de alguma silva..

Uma vez por outra, armava-se bailarico. E toda a minha gente dançava. Se não houvesse “harmónico” nem  realejo, remediava o assobio. Acontecia às vezes, com licença do organizador e responsável pelo “rancho”, irem até ao “quartel” mais vizinho ou mais amigo, e lá ficavam a dançar até às tantas.

Depois é que era o diabo. Quando regressavam à Freguesia, rapazes e raparigas tinham que ouvir o Senhor Prior, uma data de domingos a fio, a moer-lhes os ouvidos, na homilia da missa dominical, falando contra os bailes, e recomendando a ida à confissão. Mas, quem se lembrava destes amargos de boca, quando era na altura de dar ao chinelo?!…

Os “ranchos” da azeitona acabaram em consequência da profunda modificação das condições sociais.

Atualmente a apanha da azeitona faz-se da mesma maneira, ou seja, estendem-se os panos por debaixo das oliveiras e depois com uma vara, que pode ser de eucalipto seco, vai-se batendo a ramagem de modo a fazer cair a azeitona. Ou sobe-se à árvore e ripam-se os bagos em redor. Atualmente já existem máquinas que facilitam esta tarefa.

Depois da colheita a azeitona tem que ser limpa, separada das folhas e dos pedaços de rama. Antigamente este trabalho fazia-se manualmente, colocando a azeitona num monte e com uma pá, em pequenas quantidades, mandava-se pelo ar, contra o vento, para cima de uma outra manta, colocada a alguma distancia, cujos bordos eram levantados cerca de 50 cm, para que azeitona não saltasse para fora.

Agora também já existem máquinas para facilitar este trabalho, é só escolher os ramos maiores e o resto é feito pela máquina de limpar. E assim fica tudo pronto para levar para o lagar.

No lagar a azeitona começa por ser pesada e depois entra no processo de transformação.

O fabrico do azeite consiste no esmagamento das azeitonas para obtenção do seu sumo, e depois separa-se o liquido da parte sólida. Nos lagares tradicionais este trabalho é feito por prensagem.

Em 2017, ano estremamente quente e seco, a azeitona amadureceu mais cedo em algumas zonas. Corria ainda o mês de Setembro quando iniciaram os trabalhos da apanha da azeitona. Tudo muda com as alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa.

 

 

 

 

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