Afonso Vieira Dionísio

Nasceu pelas onze horas da manhã do dia 5 de Agosto  de 1883, em Alqueidão da Serra, na rua que hoje tem o nome de Comandante Afonso Vieira Dionísio, ou seja a 1ª do lado direito de quem desce a Rua Padre Júlio Pereira Roque.

Era filho de Cláudio Vieira Dionísio de de Thereza Affonsa. Neto paterno de Francisco Vieira Dionísio e de Maria Correa; e neto materno de João da Costa e de Anna Fructuoza Affonsa.

Foi baptizado na Igreja Paroquial de Alqueidão da Serra no dia 8 de Agosto de 1883, sendo  padrinho o Manoel Affonso e Silva, pároco desta freguesia.

Enquanto criança viveu em Alqueidão da Serra, e como os pais não tinham muitas posses, guardou cabras e ovelhas, para ajudar na vida da família.

Um dia os pais decidiram sair do Alqueidão, e fixaram-se em Famalicão da Nazaré. A preferência dada a esta localidade deve ter influenciado poderosamente a escolha da sua vida profissional, enveredando por uma carreira na Marinha Mercante.

O registo de inscrição na Marinha data de 13 de Setembro de 1900. Tinha então 17 anos.

Tendo saído do Alqueidão apenas com a preparação dada pelo Padre Affonso, ao chegar a Lisboa, tinha apenas a 4ª classe, que fez em Famalicão. Nada mais se sabe a respeito da preparação académica de Afonso Vieira Dionísio.

O primeiro facto na vida do marinheiro que foi Afonso Vieira Dionísio foi o salvamento histórico do Vapor “Machico”, que a seguir se relata, e que se pode ver com mais pormenor em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_05_Marinha.htm

Na Rota da Índia/África do Sul – Inglaterra: O Navio Mercante “Machico”

A 28 de Junho de 1916 o capitão Afonso Vieira Dionísio, comandante do navio “Machico”, teve ordens para transportar para a Baía de Palma (Moçambique), reforços de tropas e de material de guerra para a 3ª expedição a Moçambique, comandada pelo general Ferreira Gil. Chegou ao seu destino a 9 de Agosto.

Durante o mês de Setembro o navio efectuou transporte de tropas, munições, abastecimentos e de doentes entre os portos de Moçambique.

Em Outubro dirigiu-se de Lourenço Marques (Moçambique) para Madagáscar, porto de Manjuga, para cumprir uma missão de abastecimento para as tropas francesas na Europa. Seguiu de Madagáscar para Bordéus, com escalas na cidade do Cabo (África do Sul) e na cidade de Lisboa. A passagem do Índico para o Atlântico fez-se sem problemas e sem indicação da presença de submarinos. Junto à costa de Angola passou a navegar com o navio “Portugal” na sua esteira, com um distanciamento de aproximadamente 80 km.

No dia 14 de Novembro, quando o “Machico” deixou de ter à vista Gran Canária avistou um submarino alemão e de imediato navegou a todo o vapor para longe do inimigo. Sofreu dois disparos próximos que não o atingiram, assim como viram passar muito perto a esteira de um torpedo.

Toda a tripulação, excepto o pessoal da máquina e do fogo, se dirigiu para as baleeiras. A toda a velocidade, única manobra que lhe estava ao alcance, afastou-se do submarino em direcção à terra para impossibilitar a perseguição do submarino.

Testemunho de um passageiro

(Jornal “A Capital” de 20 de Novembro de 1916)

“Eram quase 10h da manhã quando se produziu o ataque. Posso precisar a hora: 9h40. O navio encontrava-se na latitude de 29º30’ e longitude 14ºW. Navegava a 9,5 milhas. Estando de quarto na ponte, o piloto Henrique Gomes descobriu o submarino por través, a cerca de 800 metros procurando prolongar-se com o Machico. Imediatamente mandou guinar, dando a pôpa ao pirata, e avisou o comandante Vieira Dionísio que, ao subir à ponte, ordenou a máxima velocidade.

Começou então a carreira perseguidora: de bordo do submarino foram disparados dois tiros de canhão, que passaram sobre a ponte e, após curto intervalo, mais 4 que felizmente, como sucedera com os primeiros, não atingiram o navio…

-E a perseguição durou muito tempo?

-Eu lhe digo: duas horas seguidas. O Machico, porém, conseguiu furtar-se-lhe e escapar em virtude do sangue frio e da perícia com que o seu comandante, coadjuvado pela tripulação, foi constantemente mudando de rumo para evitar assim que os tiros fossem regulados. A velocidade que o barco conseguiu adquirir também se deve mencionar. Basta dizer que nessas duas horas percorreu 28 milhas.

O comandante Vieira Dionísio, que procurava as águas territoriais espanholas, foi deste modo passar entre a ilha Alegranza e a de Lanzarotte que lhe fica a sul. Era de presumir que o submarino seguisse para o norte, no intuito de novamente o atacar na sua passagem para Lisboa, mas o comandante do Machico, em vez de demandar diretamente o nosso porto, fez rumo a Marrocos, indo fundear no Mogadouro e aguardar ali ordens. De lá partimos ontem.

– E a impressão a bordo?

– Ao ser conhecido o ataque, não se desenhou sequer o mais leve pânico. Na máquina achavam-se o quatro maquinista, sr. Joaquim Martins que, com o pessoal do quarto que lhe pertencia, cumpriu de forma digna de todo o elogio, as ordens que o comando lhe transmitia pelo telegrafo.

A gente do convés guarneceu em minutos, as baleeiras salva-vidas, fazendo embarcar nelas três senhoras que vinham a bordo e provendo-as de água, vinho, conservas, presuntos, galinhas etc, a fim de que prontamente pudessem ser arriadas.

Numa palavra: nem a boa graça portuguesa faltou, pois que, passados os primeiros minutos da perseguição, os marinheiros começaram trocando gracejos a propósito dos esforços que o submarino empregava para vencer a distância cada vez maior que o separava do Machico.

O Machico vem do Cabo da Boa Esperança com 23 dias de viagem regressando nele o sr. Capitão-Tenente Vieira da Rocha que, no mesmo barco havia seguido como comandante de bandeira. Este oficial conferenciou demoradamente esta tarde com o sr.Ministro da Marinha. O sr. Azevedo Coutinho assinou depois uma portaria mandando louvar a tripulação do Machico pela sua conduta serena e valorosa durante todo o tempo que esteve sob o ataque do submarino inimigo.

No Machico vieram como passageiros os srs. Joaquim Leite Costa, primeiro cabo da companhia de saúde de regresso de Palma; D. Elvira Pinto Coelho, de Lourenço Marque, D. Guilhermina A. Mendonça, Maria da Luz e um filho menor e o cabo de marinheiros José Viana, todos de volta do Cabo da Boa Esperança.

O sr Vieira Dionísio que reside na rua Ferandes Tomás, 43 rc onde o fomos encontrar rodeado de sua esposa e várias pessoas de família, disse-nos que todo o pessoal resistiu brilhantemente, merecendo particulares louvores Jaime Rodrigues Jardim que vinha ao leme, e os maquinistas António Pinto e Sousa, Carlos Silva, Fabiano Canoas e Joaquim Martins, bem como o azeitador Sardinha.

As comunicações radiotelegráfica do Machico foram recebidas pelo transatlântico Infanta Isabel, que radiotelegrafou para Las Palmas o pedido de auxílio, ao mesmo tempo que se dirigia para o local indicado.

O comandante da marinha de Las Palmas ordenou a saída do vapor Leon e Castillo da ilha de Lanzarote para socorrer o Machico, que também esteve em comunicação com o cruzador Principe de Astúrias.

O Infanta Isabel recebeu o último radiograma do barco português pelo meio dia de 16, não lhe tornando o Machico a responder depois dessa hora.

De Tenerife chegaram também a sair o vapor Fuerteventura e a canhoeira Laya para receberem náufragos se os houvesse.

O Machico escapou porque se meteu direito à vaga e o submarino não lhe pode dar caça. Mas se o paquete dispusesse de uma peça (de artilharia), estando assim em condições de lhe fazer um tiro, mais cedo os seus tripulantes e passageiros se teriam libertado de tão incómoda companhia.” (Leotte do Rego, cmdt da divisão naval, In A Capital 20-nov-1916).

O capitão Afonso Vieira Dionísio defendeu o “Machico” como quando, anteriormente junto a Bordéus, ao comando do navio “Gaza”, também tinha mostrado que não se deixava apreender ou afundar facilmente, navegando directamente sobre o submarino alemão obrigando-o a mergulhar de emergência, tendo ficado inclusivamente suspeitas que o teriam danificado, dado o aparecimento de óleo à superfície.

Com o aumento do número de disparos do submarino alemão, o comandante lançou um SOS, com as coordenadas da posição, mas não deu ordem de lançar as baleeiras, executando manobras defensivas, em ziguezague, como tinha treinado nos comboios navais. O navio conseguiu alcançar 15 nós, velocidade que lhe permitia afastar-se do submarino, mas que o ainda mantinha ao alcance dos canhões inimigos. Entretanto, o navio “Portugal”, ao ser avisado pelo “Machico” afastou-se do local e um navio de guerra inglês indicou ao “Machico” que o ia socorrer. O submarino alemão era o UC20 comandado por Franz Becker.

O “Machico” acabou por se libertar da perseguição inimiga, não chegando a ver o navio de guerra inglês. Tentou fundear no porto de Mogador (Marrocos), mas não lhe foi autorizado. Encontrou um rebocador francês que o orientou na travessia nocturna do Cabo de S.Vicente. Chegou a Lisboa a 20 de Novembro, assim como o “Portugal”. Conseguiu finalmente chegar a Bordéus no final do mês, cumprindo a sua missão.

Pelo acto heróico o capitão Afonso Vieira Dionísio recebeu, por Decreto do Diário do Governo de 24 de Setembro de 1919, a condecoração de “Torre Espada de Valor, Lealdade e Mérito”.

Antes de seguir viagem, depois de alguns dias de descanso em Lisboa, oficiais e marinheiros do “Machico” foram recebidos pelo Presidente da Republica que era Bernardino Machado, que os felicitou pela perícia e coragem que demonstraram quando o “Machico” foi perseguido pelo submarino alemão.

O “Século” e os restantes jornais enchem suas colunas de elogios ao comandante do “Machico”, chamando-lhe “O bravo Capitão do vapor”, “o Oficial jovem e inteligente cuja figura se impõe” etc.

Ilustração Portugueza, No. 563, December 4 1916 - 20 Via T of Dias que Voam blog. Ilustração Portuguesa

Ilustração Portugueza, No. 563, December 4 1916 – 20 – Via T of Dias que Voam blog. Ilustração Portuguesa

Este facto histórico subiu às colunas do Diário do Governo, para ser comunicado ao País, em sinal do mais puro reconhecimento da Nação, homenagem que se deve aos heróis.

Vapor Porto

A viagem ao Brasil do Presidente da República Dr António José de Almeida para as comemorações do centenário da independência não correu nada bem. A bordo do vapor Porto comandado pelo alqueidanense Afonso Vieira Dionísio, a comitiva presidencial chegou a terras de Vera Cruz com quinze dias de atraso e muitas avarias no vapor. Era necessário encontrar o responsável por tanto contratempo e houve mesmo um processo judicial que ficou conhecido como “O caso político do vapor Porto”.

Dos sete arguidos, não consta o nome do Capitão Afonso Vieira Dionísio, mas o seu chefe de maquinistas, Jacinto Vieira de Sousa, não se viu livre deste processo.

Depois de uma aguerrida batalha judicial, a 3 de Julho de 1923, o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça iliba definitivamente todos os arguidos nestes termos: “considerando que, não se verificando o corpo de delito, e a existência dos crimes, a consequência legal é mandar-se arquivar o acórdão recorrido (art.º 2.º da lei de 4 de Maio de 1896).”

O Marão

Por meados de 1925 o comandante Afonso Vieira Dionísio prestava serviço a bordo do Vapor Marão. Este foi o último navio onde prestou serviço, desde 1904, altura em que lhe foi passada a carta de Capitão de longo curso.

Afonso Vieira Dionísio foi casado com Beatriz de Couto Vieira e não teve descendência.

Faleceu súbita e inesperadamente a 1 de Dezembro de 1945, na Portela – Bombarral – para onde tinha sido convidado por Adolfo Vieira da Rosa, para participar num banquete festivo na sua propriedade “Solar das Andorinhas”.

Solar das Andorinhas

Imediatamente se procedeu à sua transferência para Lisboa, onde se cumpriram as formalidades legais. Daí seguiu para o cemitério de São Martinho do Porto. Aí jazem os restos mortais deste heróico alqueidanense, em jazigo de família.

Em homenagem a Afonso Vieira Dionísio, foi dado o seu nome à rua onde ficava a casa onde ele nasceu, e que é hoje a casa da Maria (Trinta).

Fontes:

http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_05_Marinha.htm

http://revistaantigaportuguesa.blogspot.pt/2010_08_08_archive.html

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2 respostas a Afonso Vieira Dionísio

  1. ilda januario diz:

    Foi muito emocionante encontrar este site sobre o Comandante, meu tio-avô paterno, por ser irmão de minha avó Aurora e tio e padrinho de meu falecido pai, Acácio Vieira Januário. Tio e sobrinho tinham uma relação especial e o meu pai era-lhe totalmente dedicado. Foi graças ao Tio Afonso que meu pai recebeu uma educação no seminário. Acabou por desistir, não tinha vocação mas a sua gratidão nunca esmoreceu ao longo da vida, deu o nome de Afonso ao seu filho, meu irmão, e ao comandante dedicou o seu livro de poemas Samouco (1996).

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  2. Muito obrigado por ter feito uma referência ao meu site e à historia do “Machico”
    Cumprimentos
    Carlos Alves Lopes (www.momentosdehistoria.com)

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