Trabalho no Campo

Nos anos 60 a emigração em Portugal cresceu de uma forma extraordinaria. No ano de 1966 saíram de Portugal 120.239 pessoas. Os principais destinos eram a França, Canadá, Alemanha, Venezuela.

Os fatores que determinaram esta emigração massiva foram: a crise do setor agrícola, a total incapacidade dos outros setores económicos absorverem a população rural que abandonava os campos, a Guerra Colonial e a repressão política. Muitos dos habitantes do Alqueidão da Serra emigraram nesta altura.

alqueidao

Os poucos terrenos bons para cultivar que existiam no Alqueidão e a falta de indústrias locais e nos arredores, provocavam na Freguesia crises periódicas de falta de trabalho para as quais as pessoas procuravam soluções, não hesitando perante as dificuldades e os sacrifícios que isto lhes exigisse, ao longo de todo o ano.

Feitas as sementeiras dos seus próprios “bocaditos”o trabalhador rural ocupava-se a servir os outros enquanto eles tinham que lhes dar a fazer.

Durante os primeiros três ou quatro meses do ano, a mão-de-obra local ia-se remediando sem precisar de sair da terra.

Fazia-se a sementeira do trigo e de outros cereais de pragana, a  fava e o milho. A seguir era a altura de fazer a poda e a empa das vinhas, a plantação da batata, etc.

Nisto, chegava-se a cava das vinhas, e como isto era serviço que não se podia adiar, especialmente se o tempo se apresentava com o sol primaveril, os vinhateiros da Ribeira, da Batalha, da Azóia etc, viam-se na estrema necessidade urgente de contratar braços de fora. O pessoal do Alqueidão era sempre contratado para estas cavas.

Depois desta quadra, aproximava-se a altura de cada um pensar em sair. Sair, neste caso, significava procurar trabalho fora da terra.

Em geral, esta saltada obrigatória fazia-se para o velho e conhecido termo de Lisboa. Gente honesta, trabalhadora, ordeira e que facilmente se adaptava às mais desencontradas tarefas, respeitadora e dedicada aos patrões, facilmente encontravam trabalho.

Ceifa

Ceifavam rijamente para donos de fazendas onde já seus avós e pais tinham trabalhado. Feno ou cereal de pragana, tanto fazia.

Depois da ceifa faziam a debulha. Depois desta, servia qualquer ocupação que aparecesse, tanto podia ser a rebentar pedra numa pedreira, como a colocá-la na berma de uma estrada ou a carregá-la no transporte, a regar ou a compor os canteiros dum jardim. Eram meses de trabalho doido e constante para ganhar alguns tostões.

procissão7A aproximação do mês de Setembro era um chamariz de voz irresistível. Chegava a festa de Nossa Senhora (que se fazia nesta altura sempre no primeiro domingo do mês de Setembro) e não havia quem se segurasse lá por terras longínquas. O alqueidanense que se visse amarrado por força de um contrato, arranjava sempre maneira de ter dois ou três dias de folga para estar presente nas festividades em honra de Nossa Senhora.

Logo a seguir chegava o tempo das vindimas, e pelos arredores, Bombarral, Torres Vedras, Matacães, etc. espalhavam-se homens e mulheres, rapazes e raparigas disponíveis para o serviço. E muitos chegavam cá ainda a tempo de cortarem as suas próprias uvas de fazer o vinho e a água-pé.

Verdadeiramente característica era a ida para a apanha da azeitona.

Aí pelos “Santos”, em dia e sítio combinado, juntavam-se os componentes dos “ranchos” falados com antecedência pelos encarregados da organização dos mesmos. Dali partiam, serra fora para os seus destinos: Bairro, Gouxaria, Covão do Feto e Serra de Santo António, principalmente.

Apesar das combinações quanto ao local e hora de partida, havia sempre a convocação pública. Esta era feita pelo toque daqueles búzios que o mar deita para a praia. Na falta destes, um canudo de cana também servia. O som provocado pelo sopro vigoroso de fortes e arejados pulmões espalhava-se pela aldeia toda.

Na parte da manhã do dia combinado para a saída, sempre ao domingo, o ritmo dos toques era calmo e lento. Depois do jantar voltava à carga, mas um pouco mais esperto. Quando se aproximava a hora da partida, aumentava a cadência e diminuía o espaço entre os toques.

O “tuu-tuu-tu-tu” inicial, fundia-se num só “tuuuuuuuuuuuuu” a que ninguém se atrevia a desobedecer. De todos os cantos iam saindo homens ou rapazes, de longa vara às costas e de mulheres ou raparigas com a cesta de vime enfiada no braço. Iam estar fora umas semanitas.

Finalmente juntos lá partiam à ordem do responsável pelo “rancho”. À frente seguiam  os burros carregados com roupa de cama e de vestuário, e também comida: pão, batata, carne, etc.

Atrás iam todos os elementos do “rancho” (incluindo a pessoa responsável pela volta dos animais) tropeçando nas pedras do caminho que, apesar das milhentas promessas de políticos, só muitos anos depois veio a ser estrada, aberta por iniciativa do Major e pelo trabalho de muitos, e o sacrifício de todos.

O silêncio era norma imposta pelas várias circunstâncias da partida. No meio dele imperava o som do búzio que, tendo-se calado para que o responsável do rancho dissesse o habitual “vamos lá com Deus”, voltara ao ritmo da toada inicial. O som era cada vez mais abafado à medida que se afastava da aldeia.

Cá em baixo, ficava-se a ver o “rancho” enquanto fosse possível acompanhá-lo com a vista e com o ouvido. Era no Penedo Grande, quando ele estropia, que o búzio deixava de se ouvir.

Todos seguiam com trabalho garantido e patrão certo. Acompanhava-os o palpite do tempo em que regressariam.

Uma regalia que nenhum rancho dispensava era o fornecimento de casa para dormir e condições para a confecção da comida. Pomposamente chamavam-lhe “Quartel”. Constava de quatro paredes mal rebocadas às vezes, cobertas sempre com telha vã. Havia sempre uma camada de palha ou de feno espalhada sobre as tábuas do soalho, onde cada um podia estender suas mantas.

Para efeitos de pagamento, havia duas modalidades de jorna: a seco ou com a comida incluída. Em qualquer dos casos havia sempre fornecimento do “Quartel”.

Todos iam pela última (com a comida incluída). Dentro desta modalidade, cada homem tinha direito a uma quarta de feijão e a certa porção de azeite, por semana. A ração das mulheres ou raparigas era metade. Havia patrões que manifestavam o seu apreço pelo pessoal oferecendo, de vez em quando, hortaliças.

A lenha necessária ao funcionamento da cozinha, tanto na parte de cozedura da comida como na do aquecimento ao borralho, também era um encargo da entidade patronal.

A vida no “Quartel” regia-se por normas que todos respeitavam. A cozinheira era escolhida entre as mulheres do “rancho”. Não precisava ela de ter grandes conhecimentos da matéria uma vez que a ementa era pouquíssimo variada.

A primeira refeição, o almoço, constava, salvo muito poucas excepções, de feijão guisado sabendo a loiro, com umas óptimas sopas de pão caseiro.

A segunda refeição, o jantar, era por volta do meio-dia. Entrava nela aquilo que por comum acordo se escolhesse. Embora fossem diversos os participantes, a comida era igual para todos em qualidade e quantidade.

Preparando esta refeição, a cozinheira tinha de fazer as coisas de forma a que sobrasse para a ceia. Antes de se deitar deixava preparado o almoço no dia seguinte. Este era ajeitado oportunamente pelas outras companheiras, uma das quais se levantava mais cedo, por escala, a fim de o aquecer e distribuir a tempo.

Na parte da tarde, a cozinheira, depois de lavada a loiça e arrumado o pequeno trem da cozinha, era obrigada a ir ter com o “rancho”, para colaborar no serviço da apanha.

A distribuição da comida tinha seus preceitos. Como os homens, por regra, são de mais alimento que as mulheres, juntava-se um homem e uma mulher quando se tratava de dividir os alimentos. Deste modo, cada homem tinha sua “mulher” na sociedade do prato, que era comum aos dois membros do improvisado “casal”.

Era da competência da cozinheira a distribuição das refeições e do conduto ou tempero, quando havia caso disso. Para lhe evitar complicações, se o tempero se fazia com azeite, sabiam todos o que lhes competia, visto que desde o princípio, ficava assente o número de voltas azeitadoras que a almotolia tinha que dar ao prato, deitando o fio de azeite sobre os alimentos do dia.

Se havia lugar para reclamação, só o responsável pelo “rancho” podia tomar conhecimento dela em ordem à sua resolução.

À noite, depois da ceia, uns faziam serão no “Quartel”, conversando sobre o trabalho feito e a programar o de amanhã ou lembrando cenas e gente do passado. Assim passavam as horas à luz mortiça da candeia de azeite, que era preciso espevitar de vez em quando puxando-lhe a torcida com um graveto ou com um gancho da trança de uma rapariga.

Outros jogavam à bisca utilizando cartas velhas que mantinham certa capacidade de uso graças ao poder da sujidade acumulada em anos sucessivos.

As raparigas aproveitavam o tempo ajeitando alguma peça de enxoval, quando não era a coser a rasgadela da saia ou da blusa feita pelo graveto de oliveira ou pelo bico de alguma silva..

Uma vez por outra, armava-se bailarico. E toda a minha gente dançava. Se não houvesse “harmónico” nem  realejo, remediava o assobio. Acontecia às vezes, com licença do organizador e responsável pelo “rancho”, irem até ao “quartel” mais vizinho ou mais amigo, e lá ficavam a dançar até às tantas.

Depois é que era o diabo. Quando regressavam à Freguesia, rapazes e raparigas tinham que ouvir o Senhor Prior, uma data de domingos a fio, a moer-lhes os ouvidos, na homilia da missa dominical, falando contra os bailes, e recomendando a ida à confissão. Mas, quem se lembrava destes amargos de boca, quando era na altura de dar ao chinelo?!…

Os “ranchos” da azeitona acabaram em consequência da profunda e vasta modificação das condições sociais. Os incontáveis estragos causados pela Grande Guerra e os avanços do progresso converteram-se num chamariz de emigrantes.

Os braços que rompiam os poisios e que lavravam as terras de semeadura, passaram-se, legalmente ou “a salto”para França, Alemanha, Canadá e muitos outros países, tendo em vista a melhoria das suas condições financeiras. E há que reconhecer que os novos horizontes foram notavelmente propícios à grande maioria dos que se candidataram a padecer todos os sacrifícios.

No Alqueidão as raparigas passaram a ter ocupação certa nas muitas e progressivas fábricas de Mira de Aire e de Minde, onde conseguiram o salário com que jamais tinham sonhado. Os homens passaram a dedicar-se à exploração de pedreiras produzindo pedra para o mercado nacional e também  para o mercado externo.

Caixas de Pedra Pedra

Nos tempos que vão correndo, a pedra deixou de ter tanta procura e começou a ficar amontoada nas pedreiras. A maior parte dos exploradores tiveram que encerrar a sua actividade devido ao aumento dos custos de exploração aliada à falta de clientes. E de novo o pessoal teve que emigrar.

Actualmente regista-se em Portugal um surto migratório superior ao que ocorreu nos anos 60. De acordo com os dados das Estatísticas Demográficas do INE, em 2012 abandonaram Portugal 121.418 pessoas. Os destinos principais de quem sai continua a ser a Europa, com destaque para França, Luxemburgo, Suíça e Reino Unido. A seguir a estes 4 países, Angola é o destino mais procurado.

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Uma resposta a Trabalho no Campo

  1. cláudio silva diz:

    Adorei muito bom foi um prazer obrigada você tudo de bom…

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Obrigado pela visita. Volte sempre!

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