Aventuras de um Dissidente do PRP – Parte 3

Artigo publicado no Jornal “O Comércio do Porto” em 1982

“Após o falhanço da tentativa de incêndio da sede do CDS em Leiria e da sua não participação no assalto ao banco de Albufeira, o Franklin esteve afastado do PRP até ao verão de 77, por causa da sua participação num curso de formação profissional na Cruz de Pau.

No principio de Setembro de 76 comecei a ser pressionado para me tornar funcionário do partido, mas escolheram mal a altura já que queria frequentar um curso de formação profissional de electricista. Para mim, com a quarta classe e sem profissão, esta era de facto uma oportunidade a levar em conta que não estava disposto a perder”.

Na Cruz de Pau, durante o curso, o Franklin foi abordado por Amilcar Romano, que o informou que o Carlos Antunes queria falar com ele na casa do PRP da Rua Borges Carneiro em Lisboa.

“Foi uma jogada psicológica para me convencer a abandonar o curso e tornar-me funcionário. O grande argumento do Carlos Antunes era que o curso acabava em Abril de 77 e antes dessa data já teria inevitavelmente sucedido o golpe fascista. Era esta a politica do partido: A iminência do golpe fascista. Discordei abertamente dizendo-lhe que desde a minha entrada no partido, tinha ouvido sempre a análise de que o golpe era “amanhã”, e desde então já tinham passado muitos “amanhãs” e a situação nacional estava a acalmar”.

Do roubo de explosivos ao orgulho próprio ferido

Acabado o curso de formação profissional o Franklin regressou ao Alqueidão onde viria novamente a ser contactado pelo PRP, para a sua participação em novas acções ilegais.

“Um dia à tarde apareceram-me na pedreira a dizerem que vinham da parte da direcção do partido, e que era necessário arranjar 40 kg de explosivos. Segundo eles, o Alentejo estava em pé de guerra, com a GNR a fazer desocupações nas UCP’s e a distribuir cacetadas a torto e a direito”.

Franklin concordou e descobriu 130 kg de explosivos numa pedreira na zona de Fátima, que foram roubados nesse mesmo dia à noite. Uma semana depois foi contactado para fazer parte de uma equipa que ia pôr uma bomba na sede da CAP em Rio Maior.

“Mais uma vez a acção falhou e só no dia seguinte, pela rádio, soube que estava integrada num plano mais vasto de rebentamentos. Foi naquela altura em que explodiram vários Centros Regionais de Reforma Agrária.”

Falhadas também foram as primeiras tentativas, em que o Franklin estava envolvido, de assalto às Finanças e CGD de Águeda e ao Banco Totta & Açores de Vila da Feira.

“Decididamente eu começava a sentir-me complexado, pois todas as operações deste tipo em que havia estado para entrar falharam à ultima hora. Nunca tal aconteceu por minha culpa, no entanto já começava a ferir o meu orgulho próprio”

“Vamos assaltar a caixa, Giroflé, Giroflá”

Finalmente e num curto espaço de um mês, o Franklin participou em três assaltos conseguidos – Finanças de Águeda (22 de Dezembro de 77), Banco Totta & Açores de Vila da Feira (Janeiro de 78) e CGD de Águeda (26 de Janeiro de 78) – todos eles entre-cortados por pequenos “fait divers”.

“No assalto às Finanças de Águeda por pouco íamos ficando sem carro para a fuga. O Ataíde – que ainda na véspera da acção tinha estado a vangloriar-se das suas proezas como fuzileiro na Guiné – saiu da repartição logo no início do assalto, por ter visto um GNR fardado lá dentro. Não contente por ter fugido, convenceu o condutor que nós tínhamos sido todos presos, e que o melhor era fugirem os dois senão também iam “a gancho”. Tivemos sorte porque o assalto foi muito rápido, mas mesmo assim quando chegamos cá fora o carro já ia a andar e estava a cerca de 100 metros de distância. Tivemos que ir a correr atrás dele, e só por meio de ameaças conseguimos que eles parassem, com os sacos do dinheiro e as armas na mão. Para entrar foi o cabo dos trabalhos porque o carro só tinha duas portas, e o Ataíde não se conseguia mexer pois estava paralisado pelo medo. Tivemos de ser nós a arrancá-lo à força do assento para fora”.

O humor não estava, no entanto ausente da preparação dos assaltos.

“Quando da reunião para ultimar os pormenores sobre a entrada na CGD de Águeda, o Chinês, calmamente foi para um canto da sala, meteu a meia na cabeça, empunhou a pistola e veio na nossa direcção exemplificando a sua proposta, enquanto se bamboleava: “Vamos assaltar a Caixa, giroflé, giroflá, vamos assaltar a caixa, giriflé, flé flá”.

Durante o assalto ao Banco Totta & Açores de Vila da Feira o Franklin também se defrontou com um problema quando estava à porta da agência, embuçado e com uma meia na cabeça.

“Um dos clientes que ia a entrar durante o assalto viu-me naquela figura e perguntou-me o que estava a acontecer. Achei piada e respondi-lhe, a rir-me, que estávamos a assaltar o banco. Ele não acreditou, e foi o cabo dos trabalhos para o convencer que era um assalto a sério e não uma brincadeira de Carnaval.”

Queriam roubar a SEPSA mas não sabiam do cofre

Um dos incidentes mais curiosos da actividade militante do Franklin foi a tentativa de assalto ao cofre da Sepsa, onde estavam albergados 20.000 contos em numerário, para o pagamento dos ordenados do pessoal.

“Só sabíamos o dia dos pagamentos, o edifício onde estava o cofre, e que o tesoureiro andava sempre armado com uma pistola 7.65 mm. Para além destas escassas e desanimadoras informações, havia ainda que ter em conta a grande distancia entre a Portaria e o edifício da Tesouraria. É claro que a operação poderia ser posta em causa, se fossemos interceptados pelo porteiro.

No dia da operação a coisa começou a correr muito bem pois passámos a Portaria em dois grupos sem que nos perguntassem nada. Mas, quando estávamos a meio caminho do edifício da tesouraria, o porteiro deu por nós e chamou-nos, pedindo-nos para explicarmos o que andávamos ali a fazer.

Enquanto eu e o outro rapaz do meu grupo dissemos que andávamos à procura de trabalho, os do outro grupo arranjaram uma desculpa mais complicada: disseram que eram representantes de uma cooperativa agrícola e andavam à procura da concessionária da cantina para fazerem um contrato com ela. O porteiro encaminhou-os para a concessionária e eles foram obrigados a manterem-se no papel inventado, falaram com a senhora, que se mostrou interessadíssima no fornecimento de hortaliças e o negócio ficou logo ali aprazado.

Por vias disto a assalto falhou, o que até foi bom porque senão ainda havia problemas pois ainda tínhamos que andar pelo edifício da tesouraria à procura do cofre e o tesoureiro podia apanhar-nos de surpresa.” – contou-nos o Franklin“.

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Artigo publicado no Jornal “O Comércio do Porto” em 1982
Esta entrada foi publicada em Pós 25 de Abril. ligação permanente.

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