Aventuras de um Dissidente do PRP – Parte 4

Artigo publicado no jornal “O Comércio do Porto” em 1982

“Sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, ou passávamos à clandestinidade, ou éramos presos, ou levávamos um tiro” afirmou-nos Franklin, ex-militante do PRP e o último dos presos daquela organização de extrema-esquerda.

Fracassadas algumas tentativas de assalto, conseguidas outras, a actividade do Franklin manteve-se até ao próprio dia da prisão, no Lavradio, a 20 de Julho de 1978, no próprio dia em que ia participar no programado assalto a uma agência bancária em Sintra.

Após o fracasso da tentativa de roubo dos ordenados da SEPSA, relatado na última edição de “O Comércio do Porto”, o Franklin foi contratado para uma acção que, a ter-se efectivado, seria sem dúvida uma das mais espectaculares de sempre na história do nosso país: o desvio de 3.000 espingardas automáticas G-3.

Tínhamos a informação que, entre dois quartéis se iria fazer a transferência de um carregamento de 3.000 G-3, que seria protegida por uma escolta fraca constituída por um sargento, um cabo e dois soldados.

Estava tudo planeado para que, no dia D, numa zona do Ribatejo, uma equipa nossa constituída por 4 militantes uniformizados de camuflado e transportados num Mercedes preto, interceptasse a Berliet com as G-3 e as desviasse. Estava tudo planeado, mas a acção foi anulada porque entretanto tiveram lugar os acontecimentos de Massarelos, em que morreu um agente da PJ do Porto, e nós começamos a ser apertados pela polícia”.

A equipa que viajava no Mercedes seria constituída por um suposto capitão, um alferes – que seria o Franklin – e três soldados. A Berliet com o carregamento das G-3 seria interceptada pela viatura dos militantes do PRP, que exibiriam ao sargento um documento, forjado, do chefe da região militar, em que se explicava ter chegado aos comandos militares a informação de que se preparava qualquer coisa para desviar o carregamento, e por isso, a responsabilidade do transporte ficava a cargo da equipa especial que era portadora da missiva.

Segundo nos contou o Franklin, a acção, que deveria ter lugar em fins de Fevereiro de 78 estava milimetricamente planeada (“já tínhamos todos os cabelos cortadinhos à militar”), quando foi anulada.

O carro da acção não tinha pinga de gasolina

Em fins de Maio de 78, o Franklin participou, conjuntamente com o Joca, o Manel e o Chinês, no assalto bem sucedido à agência do BESCL em Campolide, acção que foi preparada por Amílcar Romano.

“O assalto foi muito mal preparado, mas também não se podia esperar melhor da cabeça do Romano”.

Ainda não refeito do assalto à agência do BESCL de Campolide, o Franklin foi escalado para fazer outra operação de “recolha de fundos” na agência de Sintra do mesmo Banco.

“A primeira tentativa de assalto ao BESCL de Sintra fracassou porque quando estávamos para partir verificámos que o carro da acção não tinha uma gota de gasolina. De qualquer maneira esta acção fracassada serviu para entender a moral dos dirigentes do partido. Na manhã anterior ao assalto, os camaradas que iam comigo arriscar o cabedal decidiram, sem dizer nada, que do saco seriam retirados cinco contos para minorar as dificuldades económicas e para que assim eu não me visse obrigado a parar definitivamente, já que de todos eu era o único que não era funcionário.

Além de o partido não ter o mínimo dispêndio de dinheiro comigo, eu ainda gastava bastante, quando tinha, apoiando camaradas recuados, dando dinheiro para comidas, gasolinas, etc., e ultimamente a minha vida era de quase permanente trabalho para a organização, o que além dos gastos me trazia também o problema de não receber, já que no meu trabalho só ganhava quando trabalhava.

Fiquei imensamente surpreendido e chocado quando os meus camaradas me contaram o episódio e relataram que o Romano tinha respondido que cinco contos era muito e não podia ser, ordenando-lhes que, quanto muito, retirasse mil escudos”.

A rotura do Franklin com o PRP, que teve como fundo a divergência sobre a análise política da direcção (golpe fascista ou insurreição armada) acentuou-se depois da prisão.

“Depois de preso, tive contactos com outras pessoas mais responsáveis e conhecedoras da organização e apercebi-me de podres e desonestidades, que lá fora eu não julgava que fossem possíveis em pessoas e partidos deste tipo.

Enquanto eu e muitos outros corríamos riscos e passávamos por privações arriscando-nos a morrer para ir buscar dinheiro aos bancos, o Carlos Antunes tinha dois filhos a estudar em Paris, na Sorbonne, à conta do dinheiro dos assaltos. Está provado que, só de uma vez, foram enviados 150 contos para o sustento dos filhos do Carlos Antunes e há gravações, em 17 cassetes, apreendidas ao Pedro Goulart de reuniões da direcção nacional do PRP  em que se discutem desvios de fundos da ordem dos milhares de contos.

Por isso, eu dou razão, neste particular, aos militantes das FP-25 que se reivindicam do 3º Congresso do PRP e expulsaram o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo acusando-os de corrupção e desvio de fundos. Há milhares de contos para os quais não há explicação.

Dos 9.500 contos roubados depois de eu estar preso, na agência de Sintra do BESCL, apenas se sabe que o Romano utilizou 500 contos para pagar salários em atraso dos funcionários e que fugiu com os outros 9.000 para Espanha” concluiu o Franklin.

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FIM do artigo publicado no Jornal  ” O Comércio do Porto” ano de 1982.

O Comércio do Porto foi um jornal português, fundado no Porto em 1854, e que deixou de se publicar em 2005.

Depois do 25 de Abril, em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso) o jornal “O Comércio do Porto” chegou a imprimir 120 mil cópias.

Com o passar do tempo este jornal deixou de ser economicamente viável, a sua última edição foi impressa em 30 de Julho de 2005.

Esta entrada foi publicada em Pós 25 de Abril. ligação permanente.

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