JOC – Juventude Operária Católica

Mira de Aire e Minde foram os maiores centros industriais da região, recebendo por isso muitos imigrantes vindos de várias regiões de Portugal. Actualmente, com a crise no sector têxtil, as fábricas fecharam provocando o desemprego e levando a população a procurar melhores condições de vida, noutros locais.

Na década de 50, muitas raparigas do Alqueidão foram trabalhar para as fábricas em Minde e Mira de Aire, (que nessa altura estavam em plena expansão), para ajudar as suas famílias que viviam exclusivamente do que a terra produzia.

Partiam na segunda-feira de madrugada, a pé pela serra fora com as cestas à cabeça, até ao local de trabalho e lá permaneciam toda a semana. Algumas dessas raparigas tornaram-se militantes da JOC, lutavam pelos direitos dos trabalhadores e apoiavam as mais novas fazendo-as compreender o seu valor tanto ao nível pessoal, como profissional.

A JOC nasceu para dar resposta à situação de sofrimento e exploração que era vivida pelos jovens operários. Foi criada em 1925, na Bélgica, por iniciativa do cardeal Cardijn. A sua implantação em Portugal ocorreu no ano de 1935.

Uma das militantes da JOC que trabalhou na fábrica, foi a ti Celeste Joaninho, a quem o Inocêncio Amado entrevistou em Junho de 1996, e cuja entrevista saiu publicada no nº 26 do Jornal mensal do Alqueidão da Serra, “O Cruzeiro”,  que a seguir se transcreve:

“O mais simples trabalhador vale mais que todo o ouro do mundo

A ti Celeste Joaninho foi militante da JOC (Juventude Operária Católica) nos anos 50. Quase sempre falando no plural esta mulher calma frente à vida e atenta aos problemas do mundo, cedo se apercebeu da importância de lutar pela dignidade da pessoa humana e pela valorização pessoal.

A JOC, movimento internacional fundado em 1925, teve como principal impulsionador um padre belga Joseph Cardijn, hoje considerado o seu fundador.

A Acção deste movimento na formação de jovens operários foi durante muitas décadas a única “escola” de pessoas que aos 14 anos já estavam na fábrica.

Quando lhe pergunto como entrou para a JOC responde como se tivesse acontecido ontem: “Fui a uma festa da Acção Católica em Porto de Mós, no fim da festa chamaram-me à parte e perguntaram-me se eu queria ser a responsável pela venda do jornal da JOC em Mira de Aire. Fiquei muito admirada, eu não conhecia ninguém, mas aceitei logo”.

O grupo que conseguiu reunir à sua volta ganhou algum prestígio junto de patrões e operárias. “O prestígio que tínhamos deve-se ao grupo e não a mim, aliás, a minha motivação era maior pelo facto de saber que não estava sozinha. Conquistámos a confiança dos patrões que nos emprestaram salas para as nossas reuniões. Nós próprios, e os de fora, ficámos admirados com as condições que conseguimos”.

Mas seriam os patrões assim tão compreensivos? Como olhavam eles os operários?

“Com uma grande distância. Mas eles sabiam que nós éramos bem recebidos nas fábricas: a nossa linguagem era uma linguagem diferente daquela a que as pessoas estavam habituadas na altura”.

Nos anos 50, em Portugal, aprender e acreditar que “o mais simples operário vale mais do que todo o ouro da terra” era revolucionário, mas nem tanto. “Embora sentissemos que as coisas deviam mudar, não tínhamos poder reivindicativo, e tínhamos consciência que reivindicar implicava riscos. Depois, na década de 60, a JOC passou a ter mais voz e alguns militantes acabaram na prisão. Mas nos anos 50 a nossa acção era formar o operário no sentido de o fazer descobrir a sua importância, e alertá-lo para outras coisas, como a valorização profissional e a sua dignidade como pessoa. Se os patrões desconfiassem que a nossa acção tinha outros objectivos, cortavam-nos as pernas. Nós só tínhamos aquilo que eles nos queriam dar. Hoje os jovens recebem formação nas escolas, mas nós não tínhamos nada. Tudo o que vinha, era bem vindo”.

Uma pessoa nestas circunstâncias decerto que se aperceberia das condições em que viviam as pessoas na altura, os seus medos, a falta de protecção social…

“Mesmo quando havia descontentamento, o medo era tanto que acabava-se sempre por fazer aquilo que o patrão queria. Nós sabíamos que por vezes havia irregularidades nos descontos, mas não podíamos fazer nada. As pessoas que eram vitimas dessas irregularidades ficavam totalmente desprotegidas em caso de doença. Penso que esta situação existia a nível nacional.”

A militância desta mulher na JOC proporcionou-lhe conhecer pessoalmente o seu fundador, no 25º aniversário da JOC . “O Sr. Cardijn veio a Fátima e oferecemos-lhe uma carpete muito bonita. Nessa ocasião, na minha qualidade de vogal diocesana fui chamada para o conhecer pessoalmente. Tivemos uma reunião, onde estavam a presidente da JOC e mais cinco ou seis pessoas. Ele falava em françês  e havia um tradutor para nós. Depois voltei a vê-lo em Lisboa num congresso. A chegada dele ao congresso foi uma coisa que nunca mais esqueço: impressionou-me e comoveu-me o calor humano com que ele foi recebido. Em relação a Cardijn, não foi propriamente a sua importância como pessoa que me tocou, mas o facto de ver o seu ideal espalhado por todo o mundo”.

O que ficou dessa experiência e como vê a juventude de hoje, fica bem explícito nas últimas palavras da nossa conversa:

“Foi muito importante para mim e continua a sê-lo. Foi uma rica escola de formação que os nossos pais não nos puderam dar. Aprendi a servir com prazer e descobri o significado da verdadeira amizade. Hoje os jovens podem ter tudo, e pessoalmente confio muito na juventude, pois até são mais directos, sinceros e prestáveis que no meu tempo, no entanto falta-lhes qualquer coisa: falta-lhes riqueza humana.”   Inocêncio Amado.

O jornal da JOC,  “O Trabalhador”, que tinha surgido em 1934, foi proibido em 10 de Julho de 1948, acusado de dar guarida a literatura marxista, e o seu director, o Padre Abel Varzim, até então pároco no Bairro Alto em Lisboa foi afastado para a paróquia rural de Cristelo, em Barcelos.

Inicialmente a JOC conheceu um grande protagonismo entre a juventude trabalhadora, mas esta situação modificou-se depois de 25 de Abril de 1974, visto que muitos dos seus militantes passaram a integrar outras organizações.

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