Cinema

O primeiro contacto que as gentes do Alqueidão da Serra tiveram com a “Sétima Arte” foi em 1946, pela mão de Manuel Aparício que, numa terra de alcunhas, era conhecido pelo nome de “Lambion”.

Da esquerda para a direita, em cima: Rafael Gabriel, Maria Filomena Silva. António Vieira Amado, Guilhermina Amado, Ester, Adelaide da Silva Amado, e Maria de Jesus Gabriel (Damascena). Em Baixo: Manoel dos Santos Aparicio, Maria da Fonte, Euclides Amado Gabriel, Clutilde Amado Gabriel (a bebé) Ernesto Amado e Francisco Gabriel

Da esquerda para a direita, em cima: Rafael Gabriel, Maria Filomena Silva. António Vieira Amado, Guilhermina Amado, Ester, Adelaide da Silva Amado, e Maria de Jesus Gabriel (Damascena). Em Baixo: Manoel dos Santos Aparicio com a viola, Maria da Fonte, Euclides Amado Gabriel, Clutilde Amado Gabriel (a bebé) Ernesto Amado e Francisco Gabriel

Como não existia energia eléctrica a projecção dos filmes era feita à manivela. Para não ter que se esforçar muito, o Lambion contratou dois assistentes que eram o Luis Rosa e o Ezequiel Furriel.

Foto de Eródes Santos Aparicio (Brasil)

A sala de cinema era o Lagar do Furriel, os filmes que passavam eram os do Vasco Santana e do Charlot e o preço dos bilhetes era 10 tostões para os adultos e 5 tostões para os jovens.

Não havia filmes para maiores de dezoito anos, eram sempre para todas as idades. Por vezes nos intervalos dos filmes havia sessões de musica onde o Lambion tocava guitarra e cantava o Fado, e o Francisco Gabriel tocava violino.

Logo que o Lambion arranjava dinheiro suficiente, ia a Lisboa comprar mais filmes.

Os pais do Lambion

Os pais do Lambion

Lambion nasceu no Alqueidão em 3 de Janeiro de 1897. Era filho de Aparício dos Santos e de Maria de São José Gabriel. Seu pai era exposto da Santa Casa. Segundo o livrete do exposto ele deu entrada na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em 14 de Fevereiro de 1864, tinha cor trigueira e olhos castanhos. Foi criado por uma familia do Alqueidão, aqui casou e constituiu família. Teve 3 filhos, o João dos Santos, o Domingos dos Santos e o Manuel dos Santos Aparício a quem chamavam Lambion. Em busca de uma vida melhor, Aparício dos Santos emigrou para o Brasil. Em 7 de Julho de 1926, o Consulado de Portugal em São Paulo (Brasil) emitiu o Passaporte de Viajante ao cidadão Português Aparício dos Santos, operário, de 56 anos, de filiação desconhecida. Este passaporte era válido pelo período de um ano.

lampiao

Lambion sempre fugiu às regras. Tinha fama de ser pouco amigo de trabalhar. Um dia resolveu também ele ir para o Brasil, na esperança de arranjar maneira de ganhar a vida, com pouco esforço. Lá conheceu a Anunciata com quem casou e teve duas filhas.

Por volta do ano de 1930 voltou para o Alqueidão com a familia, e tinha a ocupação de tirar fotografias, profissão que aprendeu no Brasil. A malta do Alqueidão entusiasmava-se muito com as fotografias dele, e algumas delas chegaram até aos nossos dias.

O trabalho como fotografo, nesta terra, não lhe rendia muito, e ele resolveu voltar para o Brasil, deixando a mulher e as filhas à sua sorte. Anunciata teve de criar as filhas sozinha, sobrevivendo do seu trabalho como costureira, até ir viver para Leiria, sempre sem nenhumas noticias do marido.

Em 1946 o Lambion, que tinha na altura cerca de 50 anos, voltou para o Alqueidão. Falava com um sotaque acentuadamente brasileiro. A primeira coisa que fez, foi deslocar-se a Leiria para ver a mulher e as filhas mas elas não o quiseram receber.

Recomeçou então a sua profissão de fotografo, mas entretanto resolveu ir a Lisboa comprar uma máquina de projectar filmes.

Por essa altura, uma moça cá da aldeia, com cerca de 30 anos, começou a frequentar muito as sessões de fotografia do Lambion, e… acabaram por se apaixonar. “Crespa” era a alcunha pela qual ela era conhecida.

Iam passear para as Capelas e buscar água à fonte e eram sempre seguidos pela malta mais nova que queria ver o que eles faziam. Esta relação “ilícita” tornou-se do conhecimento geral e o Lambiom caiu em desgraça na boca do povo.

Das canções por ele cantadas com o seu sotaque brasileiro, destaca-se uma que dizia:

“Era uma história singela
No meio de um triste dissabor 
A qual figura mais bela 
Para quem foi sacrificado o amor
 
Ó Jenny
Meu sincero amor
Ficarei ó flor
A rezar sempre a Deus por ti
 
Vi-a uma vez na Igreja
O olhar contrito a rezar
Como quer quer e deseja
que Deus lhe venha perdoar”
 

Por causa da fama que o Lambiom ganhou devido à sua relação com a Crespa, o Manuel Boal alterou a letra desta canção, e para a malta mais nova, isto ficou assim:

O Lambion mais a Crespa
passa a vida regalada
das Capelas para a Fonte
e da fonte para casa.
 
Ó Lambion
Já não tens dinheiro
andas ao fanico
Nem pareces brasileiro.
 
O Lambion mais a Crespa
são dois bichos traiçoeiros
O Lambiom pelo bico
E a Crespa pelo dinheiro.
 

Nesta altura  o Lambion decidiu que era melhor voltar de novo para o Brasil. As moças do Alqueidão, para implicarem com a Crespa diziam-lhe: “Já não vais para o Brasil, ele já não quer mais saber de ti”.

CriançasEngano o delas, Lambion mandou chamar a Crespa e ela foi ter com ele ao Brasil.

Não esqueceram no entanto, os amigos que deixaram no Alqueidão, e de vez em quando mandavam notícias. Uma das cartas vinha acompanhada com uma fotografia de dois dos seus filhos, e alguns anos mais tarde uma carta da Crespa deu-nos conta da morte do Lambion.

Manuel Aparício, o Lambion, ficou para sempre na memória de todos os que o conhecerem como um homem alegre, que dava muita atenção aos mais novos. Trouxe muita alegria e diversão a um povo simples que tinha que inventar as suas próprias diversões. As tardes de Domingo eram sempre muito animadas na companhia do Lambion.

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5 respostas a Cinema

  1. Muito bom, parabéns, esses relatos nos remetem ao passado, uma forma de conhecer nossas origens e como viviam nossos antepassados, Eródes, filho de Maria da Conceição Aparício e Manoel dos Santos Aparício, residente em São Paulo, Brasil.

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  2. roger.pedro1@aliceadsl.fr diz:

    Boa dia a todos, eu tambem assesti a uns fimes no algar, ainda me lembro de um com a Brigitte Bardot, em mais ou menos 1962, que saudades desse tempo, depois tambem vim para a Franca em Agosto 1969, ia fazer 15 anos.

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  3. Jorge Reis Amado diz:

    Uma achega sobre a foto da Benvinda com as filhas: Ela não pode ter sido tirada pelo Lambion, pois por essa altura, anos 40, já ele regressara ao Brasil. A foto em questão deve ser de finais de 50 ou princípios de 60. (O cenário costumava ser montado nos dias de festa frente ao alambique do senhor Carlos Vieira da Rosa.

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  4. Graça Maria da Silva Ferreira e Ferraria diz:

    Ao ler …recordo-me perfeitamente aqueles serões de cinema no lagar do meu avô Furriel , eu vim para França em novembro de 68,tinha 12 anos, foi muito antes e eu era miúda ,mas que tempos ! Nessa época não havia nada e essas sessões de cinema ,criavam um ambiente festivo na aldeia…

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