O Futebol no Alqueidão da Serra

Nos princípios da década de 30 o desporto mais popular no Alqueidão era o jogo da bola, que era jogado principalmente no Caminho Velho.

Este jogo era muito parecido com o jogo do chinquilho, com dois fitos com cerca de 30 cm de altura, mas neste caso as malhas tinham também a forma de um fito com um tamanho de cerca de 20 a 25 centímetros.

Jogavam 2, 4, 6 ou 8 jogadores ao mesmo tempo.

Destacaram-se nesta altura, neste jogo da bola, o Francisco Coiceira, o Francisco Gabriel e o ti Antoinico.

Com o passar do tempo o Jogo da Bola deu lugar ao Chinquilho que também se jogou durante muitos anos no Caminho Velho.

A Primeira Bola de Futebol

A primeira bola de couro e câmara de ar, atacada por cima com uma espécie de atacador e com um pipo comprido, chegou ao Alqueidão em 1936. Foi comprada em Leiria e custou um pouco mais de 100$00.

Esta bola foi bastante utilizada com pontapés para o ar, para ver quem conseguia chegar mais alto com o pontapé.

Durou relativamente pouco tempo, porque se descolou. O tio Zé Carvalho (que trabalhava na Conservatória), levou-a para colar em Porto de Mós, mas a bola nunca mais voltou para o Alqueidão. Lá ficou por Porto de Mós.

O Alqueidão ficou sem bola, até 1940. Nesta altura chegou a 2ª bola trazida pelo Manuel Santana que trabalhava lá para os lados do Estoril. Era uma bola já um bocado gasta, mas mesmo assim o pessoal comprou-a. Também durou pouco tempo.

Em 1942 chegou a 3ª bola trazia pelo tio Alfredo (o pai do Matateu) que a trouxe da tropa.

O pelotão onde estava o tio Alfredo comprou uma bola por 80$00, tendo cada um dos 40 soldados dado 1$50, cada um dos três sargentos que faziam parte do pelotão deu 2$50 e o Alferes deu o resto, ou seja 12$50.

Por decisão do Alferes quem ficou responsável pela bola foi o ti Alfredo, e por essa razão, quando o pelotão deixou de existir, o ti Alfredo trouxe a bola para o Alqueidão.

Em 1946 foi comprada outra bola, e aí também o ti Alfredo teve um papel determinante. A bola foi comprada em Leiria e o ti Alfredo deslocou-se até lá na bicicleta do ti Horácio (irmão do Hilário).

Em Leiria foi ter com o marido da D.Ema, o Sr.Santos que na altura era o presidente do Ateneu de Leiria e foram os dois comprar a bola que custou 60$00. Foi muito mais barata que as anteriores.

Os Campos dos Jogos

Entre 1942 e 1945 jogava-se, já com as regras atuais, nos restolhos do trigo e do milho, aquele que fosse ceifado mais cedo. Logo após as ceifas estava o terreno pronto para as peladinhas.

Foi assim que se jogou o futebol em terrenos particulares no Vale Perão (na cova do João D’Avó) e no Santo Estevão. Devido à natural oposição dos donos dos terrenos, passou também a jogar-se no Perulhal e no Chão Vermelho ( estes eram terrenos públicos mas de difícil acesso). Como não existiam as condições desejáveis pensou-se em comprar um terreno mais perto e com melhores condições.

O Campo da Chã

Estudados os locais que poderiam servir para a construção do Campo, veio a optar-se por um terreno na Chã que era quase plano.

Discutido o assunto no que respeita à compra do referido terreno que era do Inocêncio Carreira, veio a compra a efetivar-se pelo valor de 2.700$00.

Como não havia dinheiro nenhum, o Abel Laranjeiro e o Manuel Vieira Pedro dispuseram-se a financiar a compra, desde que o pudessem fazer gradualmente  até  completar os 2.700$00 do negócio.

Com base em algumas magras receitas provenientes das peças de teatro que eram realizadas no lagar do Manuel Jorge Furriel, foi possível fazer pagamentos parciais por conta dos 2.700$00, que só ficaram totalmente pagos em Janeiro de 1953.

João Bispo e Abel

Abel Laranjeiro e João Bispo numa das peças de teatro

Guião2

Nesta dinâmica nasceu o “Grupo Operário Alqueidoense”, com praticamente toda a população masculina associada. A evolução do desporto foi-se acentuando cada vez mais.

Para a contabilização das despesas existia um caderno de 35 linhas, datado de 30-03-1948, e assinado pelo nosso Francisco Furriel.

Para a utilização do Campo da Chã existia um regulamento datado de 05-08-1948, onde se fixavam penalidades ao seu não cumprimento, bem como se definia que o treinador era o Sr. Alfredo e o capitão da equipa o Sr. João Bispo.

Os sócios do “Alqueidão Operário Clube” em 25-07-1948 já formavam uma extensa lista, o que prova que havia uma adesão maciça da população às causas do Futebol.

A quota mensal então em vigor era de 2$50, e o número de sócios era de cerca de 150, dos quais o Sr. Rafael Gabriel (o pai do Vasco e do Telmo) era o nº 1.

Quotas

As obras de terraplanagem para o Campo da Chã, foram todas feitas manualmente, sem qualquer subsidio oficial, apenas com a boa vontade dos jovens e da população que lá trabalhou de dia e de noite.

Depois de cumpridos os horários de trabalho, à noite numa comunhão de esforços ali se juntava a maior parte da população ativa, com enxadas, marretas e todo o tipo de materiais adequados às necessidades.

Campo1

O Campo da Chã

Foi com o mesmo entusiasmo desta gente que por volta de 1948/49 se alargou o caminho para a Chã, onde até então mal cabia um carro de bois.

Tudo isto sem um centavo de ajudas exteriores, apenas com a contribuição  e o empenho dos jovens que iam sabendo  mobilizar toda a população.

Durante mais de 40 anos foi o Campo da Chã o local onde o Alqueidão jogou, criando bastantes tardes de glória para os jogadores e exercendo uma forte ação social na dinamização e aproximação das gentes desta terra.

Não se sabe ao certo qual foi o dia da sua inauguração, nem quem foi o primeiro adversário a jogar na Chã, sabe-se que serviu de recreio durante quatro décadas, e que o Clube foi sempre considerado um dos melhores clubes da região, profundamente respeitador  e respeitado.

A primeira farda utilizada foi uma farda à Belenenses, para não se criarem as discussões inerentes à escolha de uma farda à Benfica ou Sporting.

Jogadores

Em 1949, num jogo realizado ainda no campo do Chão Vermelho contra as Alcanadas, o Alqueidão ganhou por 2 – 0.

Já no Campo da Chã em 1951, num jogo tendo novamente as Alcanadas como adversário, o Alqueidão ganhou por 7 – 1.

Campo da Chã Alqueidão 7 - Alcanadas 1 em 1951

Campo da Chã Alqueidão 7 – Alcanadas 1 em 1951

Os jogos com equipas de fora eram muito raros, talvez ao ritmo de 4 ou 5 jogos por ano. Eram frequentes os jogos entre Alqueidão X Carreirancha e Benfica X Sporting.

A Primeira Sede – 1951/52

 Até esta altura no Alqueidão não existia um lugar próprio que servisse de sede onde as pessoas se pudessem juntar.

Como o futebol era muito popular e os rádios para ouvir os relatos escasseavam, o tio Hilário cobrava 0$50 a todos aqueles que pretendessem ouvir o relato da bola.

Como forma de fugir a este custo, o Zé Carolino juntamente com o Telmo e o Zé Mocho compraram um rádio por 3.600$00, ficando a pagar 300$00 por mês durante um ano.

A primeira sede que se arranjou, foi junto à casa do Tesório (a casa da Ti Coelha).

Aos Domingos de manhã levavam o rádio a Porto de Mós para poderem carregar a bateria e ouvir o relato da parte da tarde.

Esta primeira sede durou 15 dias tendo-se mudado para a frente da casa do Hilário (onde se fazia o licor Lena), local que depois veio a ser o café do Fazendeiro (Café Alqueidoense).

Café Alqueidoense

Foi aqui que se veio a constituir a “Sociedade Alqueidoense”, terminando assim o Alqueidão Operário Clube.

Foi nesta sede que permaneceu a “Sociedade Alqueidoense” até à data do primeiro alargamento de Campo da Chã que ocorreu em 1956.

Na sua forma original, as dimensões do Campo da Chã eram bastante reduzidas, ou seja cerca de 65 metros por 35.

Em 1956 o pessoal da bola pensou em alargar e aumentar o Campo, e de novo se reuniram esforços com o objetivo de melhorar as condições do Campo da Chã. Aqui se juntou de noite e nos momentos disponíveis, todo o pessoal ativo.

Os materiais utilizados voltam a ser os mesmos, e de novo todo o trabalho foi feito manualmente. As pedras mais salientes foram arrancadas e o campo passou a ter 70 metros por 38.

Nesta altura foi colocada uma camada de tufo sobre o Campo. O tufo foi trazido de um terreno na Custinha que pertencia ao ti Rafael (pai do Vasco).

O Campo ficou pronto no verão de 1956. Para a inauguração deste Campo com um novo visual foi convidada a equipa de Vila Moreira, disputando-se o jogo de futebol num dia quente de verão desse ano de 56.

1956

O Alqueidão perdeu 3 -1 com um golo marcado pelo Batista, tendo alinhado do seguinte modo: Tesório, Sacristão, Batista, Amadeu, Jota, Parra, Chico Matos, Zé Matos, Sôr, Canivete e Ministro.

Restauração do Campo da Chã Alqueidão 1 - Vilamoreira 3 em Julho de 1956

Julho de 1956 – Campo da Chã Alqueidão 1 – Vilamoreira 3

(agradeço a colaboração do Dr.Carvalho)

E a história continua…

Espreite os links abaixo:

Centro Cultural e Recreativo

A História Atribulada do Clube

Esta entrada foi publicada em Jogos Tradicionais. ligação permanente.

Uma resposta a O Futebol no Alqueidão da Serra

  1. António Saragoça diz:

    Fantástico trabalho,como sempre muito apreciado.
    Obrigado

    Gostar

Obrigado pela visita. Volte sempre!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s