O Velho Moínho da Cabeça

Um ligeiro apontamento de história, no que diz respeito a um dos moinhos da Cabeça, aquele que fica mais do lado do Nascente, e que atualmente se encontra mais degradado: Um dos operários que participaram na sua construção chamava-se Francisco de Matos (Galo), pedreiro de profissão, nos intervalos dos trabalhos agrícolas de sua casa.

Ali empregou ele seus esforços e competência na arte de fazer parede de pedra. Como isto aconteceu pouco depois do seu casamento, o moinho deve ter sido posto a funcionar nos meados da década de 1880.

DSCN4329

Os moinhos ergueram-se nos locais onde era possível aproveitar ao máximo a força do vento. Perto deles, situava-se uma pequena construção onde os moleiros depositavam os sacos do grão, e onde guardavam também os sacos cheios de farinha até chegar a altura de serem distribuídos.

Locais onde existiram moinhos

  • Na Chã existiam quatro
  • Na Tojeira existia um
  • No Cão Vermelho existiam dois
  • No Maçadal existia um que servia as populações do Curral das Vacas e Bouceiros,
  • No Chão Castelo existiam dois
  • Na Cabeça existiam dois

Ainda existe um moinho na Chã, e dois na Cabeça.

Publicado em Alqueidão | 1 Comentário

Flores Comestíveis

A Primavera é a estação das flores, que admiramos pela sua beleza e pelo seu perfume mas, nos dias que vão correndo, para além do seu efeito estético as flores são também utilizadas em culinária.

Usar as flores na nossa alimentação implica o conhecimento das espécies. É de extrema importância saber distinguir as flores comestíveis das restantes.

Apanhar flores comestíveis no meio da natureza é uma actividade que pode ser comparada à colheita de cogumelos, há que saber conhecer as espécies perigosas.

Vamos esquecer as papoilas, os lírios, os cravos, as hortênsias e os malmequeres. Essas não se podem comer. A nossa atenção vai as flores do campo que para além de nos presentearem com sua beleza e outros benefícios, também nos podem servir como alimento.

Mas não basta à flor ser comestível, é necessário também que cresça longe de fontes de poluição. A colheita deve ser realizada de manhã e de preferência com tempo seco.

Para as espécies em que apenas as pétalas são comestíveis, como por exemplo a camomila, cravinas, gerânio e rosa, devem separar-se as pétalas das restantes partes da flor para evitar reações alérgicas ao pólen, e lavar por imersão em água não muito fria, secando e escorrendo em papel absorvente.

As restantes flores, que podem ser usadas completas, lavam-se e limpam-se de restos de caules e partes danificadas.

Utilização das flores em culinária

Em saladas de legumes ou de frutas: alfazema, amor-perfeito, borragem, cebolinho, coentro, couves, rosas, tomilho, etc.

Como guarnição em entradas: queijo fresco esmagado com flores de cebolinho ou coentro sobre tostas guarnecidas com pétalas e flores comestíveis.

Em cubos de gelo: colocar em cada forma uma flor ou pétalas com a face para baixo.

Em geleias: amor-perfeito, rosa.

Flores comestíveis que aparecem nas nossas serras

Borragem

Conhecemo-las pelo nome de “mézinhas”. As flores frescas têm um tom azul e, quando são mais velhas passam para rosadas. São usadas em saladas e decoração de bolos. Esta planta dá às saladas um sabor fresco, ligeiramente salgado e parecido com o do pepino. Tempera-se com endro e cebola.

As flores de Borragem podem ser adicionadas ao vinho e também podem entrar na composição de bebidas alcoólicas.

DSCN7744

 Camomila

Usada para decorar saladas e pratos, e também para fazer chá que é bastante conhecido por ajudar a dormir e para acalmar os nervos.

Apenas as pétalas destas flores são comestíveis. O pólen pode causar alergias.

Camomila

Camomila no Falgar

 Dente de Leão

Todas as partes destas plantas podem ser utilizadas. As folhas são colhidas na Primavera, até ao final de Maio e devem apanhar-se mal elas começam a despontar, porque enquanto são novas elas têm um sabor suave. As flores podem ser consumidas quando desabrocham e as raízes podem ser retiradas do solo no Outono e secas ao sol ou no forno para guardar para o Inverno.

As folhas podem ser usadas cruas em saladas, em sumos ou cozidas com com se fossem espinafres.

Dente de Leão ou Taráxaco

  Girassol

Os botões das flores podem ser cozidos e servidos como espargos. As flores ficam bem em em saladas.

Chão Falcão

Campo de Girassóis no Chão Falcão

 Rosas

Têm inúmeras utilizações. Com pétalas de rosas podemos fazer licor, geleia, gelado, compotas e doces, e ainda decorar bolos e saladas.

DSCN4751

  Erva de São Roberto

Esta planta é vulgarmente utilizada para fazer chá e é comprada seca para esse efeito, não se aproveitando o que a natureza nos dá… de borla.

Na primavera temos acesso à Erva de São Roberto fresca, que aparece nos campos que nos cercam e podemos usá-la para fazer sumos, saladas, esparregado, ou simplesmente fazer chá com a planta fresca.

Erva de São Roberto

 Flor de Malvas

As folhas das malvas podem ser comidas cruas, ou cozidas como vegetais. As flores são usadas em saladas.

As malvas acompanham bem as refeições com arroz, tortilhas, carnes e massas.

DSCN7914

Madressilva

Chamamos-lhe Maias e são muito apreciadas por causa do seu perfume. O que a gente faz geralmente é chupar o delicioso néctar das flores, sem comer as pétalas.

As flores têm um sabor doce, e são usadas em saladas de fruta, chá, xaropes e pudins. As bagas são tóxicas e não devem ser ingeridas.

DSCN7964

 Hortelã

As pequenas flores das várias espécies de hortelã são extremamente aromáticas e servem para decorar todo o tipo de pratos. Podem também ser acrescentadas em saladas verdes, saladas de frutas, morangos, mousse de chocolate ou bolo de chocolate.

Hortelã

Couves

Muitas vezes deixamos de aproveitar as couves depois de entrarem em floração, mas a verdade é que as suas flores podem ser usadas em saladas.

DSCN7816

Abóbora

As flores da abóbora têm um sabor doce e cortadas em fatias finas podem ser adicionadas a sopas, saladas, omeletes ou ovos mexidos.

Alecrim

O alecrim é uma erva muito usada na cozinha. Com ele se faz tempero para frango, molhos, omeletes, grelhados, etc.

DSCN4055

 

 

 

 
Publicado em Plantas Silvestres | Etiquetas , | Deixe um comentário

A Fonte Velha

O Alqueidão nasceu num sítio pedregoso, carateristicamente sequeiro, e o facto é que a água tão necessária à vida do homem, não aparecia na natureza que nos rodeia.

Os romanos que habitaram esta região, e que se dedicaram à exploração do ferro na zona dos Vieiros, foram os primeiros a procurar a água tão necessária para o seu uso pessoal e industrial, e encontraram-na em abundância num local que todos conhecemos pelo nome de “Lagar”.

Esta é a mais velha captação particular de águas subterrâneas de quantas se conhecem nesta Freguesia. Ninguém se lembra da sua origem. É a mais remota e a única no seu género.

Consta de uma galeria, praticada no tufo local, a céu aberto e orientada no sentido Poente-Nascente. No fim dela, após um breve desnível, abre-se a mina subterrânea que se orienta para o Norte. Não consta que, alguma vez, tenha sido explorada até ao fim, no sentido do comprimento.

E porque se chamará Lagar a esta tão grande e farta nascente? Consta que um dos antigos proprietários da Mina, com as suas engenhoquices para facilitar a extracção da água, colocou lá uma peça de um lagar de azeite.

A Fonte abriu-se na parede que suporta as terras do Lagar. A água corria livremente de dia e de noite sem nunca parar, e foi ela que deu o nome de “Ribeiro” ao caminho que hoje ainda conhecemos por o “Caminho do Ribeiro”.

O Caminho do Ribeiro

O abastecimento da fonte provinha exclusivamente do caudal da mina do “Lagar”, de onde se encaminhava por conduta subterrânea até à bica por onde se escoava.

Durante que período de tempo se terá o povo abastecido nesta fonte? Ninguém o sabe, no entanto, uma das probabilidades é quando a população teve água no sítio onde se estabeleceu a fonte que serviu a população durante mais de 300 anos, com sucessivas pesquisas e notáveis alterações no seu conjunto.

A darmos crédito a um documento referente à Confraria de Santo Estêvão, a fonte situada no “Caminho do Ribeiro” já no dia 2 de Março de 1688 tinha uma substituta. Nesta altura ela já era tratada por a “Fonte Velha”.

Pouco a pouco a “Fonte Velha” deixou de ter serventia, até que secou, ficando na parede a memória da sua existência.

DSCN7745

Tempo veio em que até esta memória desapareceu por exigência de arranjos de conservação do velho suporte de terras. A tudo isto sucedeu o esquecimento completo.

Falar na Fonte passou a ser o mesmo que dizer aquela que a substituiu, e que também desapareceu por completo, ficando em seu lugar o fontanário que conhecemos actualmente.

A Fonte em 2013

Figure cada um na sua imaginação, a descida de dois pequenos lanços de degraus que deixavam a gente no patim da Fonte. Entretanto virando-nos para sul, logo à mão direita ficava o que todos chamavamos “A Fonte”, por excelência.

Era uma espécie de tanque, todo metido no chão, formado por quatro grandes lajes  com cerca de 1,70 de altura e 1,50 de largo, e o fundo igualmente de pedra.

Este reservatório tinha em cima uma cúpula de quatro faces inclinadas feitas de tijolo, rebocado e caiado. No bico terminal das quatro faces havia um pequeno e simples florão de cantaria, até onde as crianças trepavam fincado a ponta do pé em pequenas escavações, abertas no tijolo.

A cúpula assentava numa cimalha de cantaria, sobre a qual era possível andar em volta da cobertura, com algum atrevimento. Só a parte que ficou virada a Poente ficou aberta na sua quase totalidade. Era nesta ampla e alta abertura que as pessoas mergulhavam cântaros e as bilhas.

fonte

Construída para substituir a Fonte Velha do “Caminho do Ribeiro”, deram-lhe por nome “A Fonte”.

Desapareceu quando o seu conjunto arquitectónico foi estupidamente demolido e soterrado por uma terraplanagem feita sem a menor sensibilidade e sem qualquer noção do valor do património espiritual e material desta Freguesia.

“Fonte de posso” lhe chamou o Padre Sebastião Vaz em 1758, de acordo com a terminologia da época, quando lhe deram o encargo de  fazer o relatório dos estragos provocados pelo terramoto de 1755 nesta aldeia.

“Fonte de mergulho” e “fonte de chafurdo” se foram designando as fontes iguais a ela, nas quais a água se obtinha mergulhando a bilha com jeito, ou chafurdando tudo sem cuidado. A do Alqueidão, enquanto não chegou o vergonhoso fim que lhe deram, foi sempre na boca de toda a gente, “A Fonte”.

Sucedeu isto milhentas vezes, ao longo daqueles verões quentes e prolongados que obrigavam a péguia a baixar e faziam com que as bicas de metal, apenas deitassem um fininho fio de água: ficavam no patim uma tal restolhada de cântaros e de quartas que mal cabia um pé… E toda a gente ardia em pressa de se despachar.

Debaixo das bicas, os cântaros iam enchendo, aos pares, com enervante morosidade. Junto deles os donos aguardavam a vez de os retirar do sitio em que enchiam.

Mas, tão débil fio de água corria que acontecia muitas vezes eles bordarem e ninguém se aperceber do caso. Verificado isto, ouvia-se o lamento geral pelo facto de “estar a correr para a Fonte”. Aqui, “A Fonte” era o tal reservatório, de cúpula em formato de pirâmide, para o qual passava toda a água que as bicas deitassem e que não fosse aproveitada para encher os cântaros.

Carreirancha

A água da nascente do Lagar, mesmo depois de a Fonte Velha ter desaparecido, continuou a alimentar o poço da fonte e todos os outros poços existentes na Várzea.

Com o aumento da população, e com a adopção de novos hábitos de higiene, foi feito o abastecimento domiciliar e, com a colocação das bombas no poço da Fonte secaram todos os poços da Várzea. O caudal da Mina deixou de ter qualquer expressão, e com o passar do tempo a Mina ficou completamente abandonada, estando, nos dias que vão correndo, completamente coberta por silvas.

DSCN7749

DSCN7736

Publicado em Património Arquitectónico | 3 comentários

Burros e Burro

Pino de Junho de 1967…

Os estudantes regressaram a casa para as férias grandes. As professoras primárias encerraram as últimas folhas dos livros da escola.

Entre si planeiam um passeio à serra. Definem itinerários e divulgam convites: “Os intelectuais, em passeio de burro”: Alqueidão, Carreirancha, Calçada Romana, Chão Falcão”.

Os intelectuais

E convidaram-me, não por fazer parte dos intelectuais, mas por fazer parte dos…

Para todos os habitantes da aldeia, o burro era um animal de estimação, até por ser o único meio de transporte.

De burro,  com cangalhas, ia-se à fonte buscar água… de burro, com golpelhas, ia-se levar o esterco às terras… de burro, com seirões, iam-se buscar carrascos para o lume e milho para as eiras.

burro (1)

Ir de burro a Porto de Mós ao mercado das sextas feiras era o usual, como usual era gritarem-se  ladainhas fiadas de palavrões grosseiros (que chorrilho!) para ajudar a calcar o trigo nas eiras. Nele sovavam-se azedumes, amuos, arrelias e indisposições… tudo.

Sem favor… é credor de um monumento.

Fiquei surpreendido com a inclusão no grupo organizador, eu que nunca andara de burro!!! Resisti, mas os porfiados convites venceram-me. Mais tarde soube o motivo…

O chefe da equipa, o Carlos, achou por bem  escolher o mais elegante, o mais possante   e mais adestrado animal para… o senhor prior. De entre os de mais de quatrocentos exemplares (sem exagero) existentes no lugar, seleccionou o melhor. Pediu o burro à ti Laura, mulher do Espiritual da Carreirancha. Ela e o marido, ficaram radiantes com a preferência. Limparam-no bem e trataram bem dele durante a noite.

À hora e local do anterior aprazado, o grupo perfilou-se. Foi-me apresentado  o burro, o “especial one”, engalanado de albarda domingueira, revestida de manta multicolor, digna do  bragal de noiva rica.

O meu ajudante fez a última inspecção. Deu meia volta ao arrocho e convidou-me a montar. Subi a um murete de pedra desalinhado junto da casa paroquial e, amparado por ele, com sofrível estilo, sentei-me, tomando posse.

Casa Paroquial

Residência Paroquial

Com um verdiço numa das mãos e com  a arreata bem segura na outra, acomodei-me a custo, ao dorso do animal.

Os componentes do grupo, ao verem-me, sorriram.  De supetão, com elegância e a golpes   de perícia, tomaram o seus lugares.

E começou o desfile.

Dado os primeiros passos, o meu burro deu-se conta de que a carga muito hirta, não se sincronizava com o seu caminhar e tentou rejeitá-la. Contorcendo-se de má vontade, os seus movimentos descontentes faziam-me bamboar como sino de torre em dia da festa.

Não obstante, ser um caloiro na arte   de cavalgar, solene e impante, com quase noventa quilos de peso, de fato preto e de chapéu preto, por momentos, imaginei-me um nobre peralvilho, Dom Quixote, entronizado em soberbo corcel galopando as veigas fartas de Castela.

Fiz questão de seguir no couce do cortejo. Algumas pessoas, despertadas pelo tropel inusitado  da marcha saíam de casa para saudar. O Carlos, de lenço mandão de escuteiro, atado ao pescoço, levava o guião e marcava o ritmo da marcha.

Não tardou que o cortejo começasse  a desconjuntar-se. Vencida a Carreirancha, os burros lestos dos intelectuais bem adestrados, avançaram harmoniosos e deixaram o meu ficar para trás, de cada vez mais reticente em prosseguir, não obstante as vergastadas inclementes desferidas.

Na primeira curva da calçada romana, o do guião olhou para trás e viu a enorme distância que mediava entre os titulares e o caloiro na arte. Todos pararam e eu… aproveitei.

Calçada Romana

A modo de banda musical, em tarde de procissão, os meus pés fizeram de baquetas ritmadas a ruflar no tambor do burro e  ele, animoso, num assomo de coragem e valentia, estugou o passo, sacudiu os receios e integrou o cortejo. Que valentão!   E eu fiz-lhe uma festinha, acariciando-lhe o pelo .

E a caravana compacta ensaiou a escalada da serra, pelos córregos serpenteantes da encosta, e o meu valentão não mais descolou do pelotão.

Padre Américo

Chegados ao Chão Falcão, termo da jornada, ajudaram-me a descer. Com cuidado atei o meu asno a um pinheiro, não fosse ele fugir e ajudei a  confeccionar o almoço.

Com gargalhadas à mistura, o tema da conversa foi a minha arte de bem cavalgar.

Antes de se organizar cortejo de regresso, todos a uma só voz, instaram para eu saltar o burro. Resisti… resisti… porque de antemão sabia que uma enorme cambalhota me esperava, para gáudio de todos. Mas não pude furtar-me a  tão reiteradas súplicas .

Saudei os tempos de estudante, em que, nas aulas de ginástica, saltava o plinto.  Muito a custo, determinei-me.

Desatei o jerico. Conduzi-o a caminho seguro e plano. Confiei a arreata ao chefe do grupo e tentei o salto.

Recuei uns 20 metros. Imprimi-me velocidade de atleta olímpico. Fiz vigorosa chamada no trampolim do chão. Calquei as mãos nos suportes do animal. Subi bem alto e, amolecido, deixei-me cair sobre a albarda fidalga do meu valentão.

Todos aplaudiram. Mas o burro… desferiu um estrépito estranho e começou a regar o pó.

Pressentindo haver algo de anormal, apressei o regresso. No cortejo, o burro das provisões caminhava à frente. Seguia-o o grosso do pelotão, cavalgando com elegância. Na retaguarda seguia eu.

Poucos metros volvidos, o meu burro começou a estrebuchar e a curvar os joelhos em jeitos de alijar. Quase exangue, desfazia-se em humidades porfiadas. Não podia mais. Aproveitei uma inflexão e consegui descer.

Peguei na arreata e… a pé, humilhado,  desci a encosta. A caravana, olhando para trás, viu-me a pé, a conduzir o burro e … riu…riu.

Corado de vergonha, a pé, com a arreata na mão, imaginei-me   um pacóvio Sancho Pança, de botas no cinturão, vestido de figurão, a  pisar as pedras anónimas duma serra distante. E… entendi a razão do convite.

Desta vez, esperaram por mim. De regresso à Carreirancha, vi alguns burros a beber água na Barreira. Indiferente, avancei. Bati à porta do Espiritual Vieira da Costa e entreguei o burro à ti Laura. Ao meu muito obrigado,  retribuiu jubilosa: “quando precisar”…

A Barreira em 1982 - Local onde actualmente está o jardim onde foi colocado o monumento em homenagem ao Major.

A Barreira em 1982 – Local onde actualmente está o jardim onde foi colocado o monumento em homenagem ao Major.

Os intelectuais olharam, de soslaio, o padrão alusivo às comemorações centenárias da criação da freguesia e…

Padrão das Comemorações da Criação da Freguesia

…continuaram   a marcha,  sobre as triunfantes montadas até ao local aprazado não longe do cruzeiro. E a mim, a pé, triste, derrotado, sem burro, não ofereceram boleia.

Cruzeiro da Independencia

No dia seguinte, por volta das nove horas, tocou a campainha. Fui atender. Era a ti Laura. Com cara de solto posto, gaguejou :” senhor prior, o burro morreu.

Tem de mo pagar”. Disparei uma larga gargalhada e ela, sem achar graça nenhuma, ajuntou: “Ao menos, pague meio dia a um homem para ele abrir a cova”. E eu, indiferente, ripostei com nova gargalhada.  E ela… vencida, retirou-se.

Laura Vieira Amado filha de MARIA DAS DORES AMADO

Laura Vieira Amado

Volvidos quarenta anos, no dia 10 de Maio de 2011, mais de noventa alqueidanenses desceram ao Tojal, minha aldeia natal, para “ um encontro de afectos”. Nunca aquela terra recebeu tão nobre como robusta embaixada. Na comitiva, a ti Laura e o Carlos do guião.

Saí de casa para os receber.

Casa do Padre Américo no Tojal

 Apertaram-se cumprimentos, invocaram-se nomes e alcunhas e reviveram-se peripécias do passado.

Algumas das muito velhas irromperam e usurparam beijos atrevidos, chupados, quiçá recalcados, Deus sabe há quanto tempo. Ele e elas me perdoarão, se julgo mal.

Terminada a recepção, seguiu-se um sessão músico – cultural. Exaltaram-se discursos de ocasião, potenciaram-se promessas adiadas e aplaudiu-se o “Coral” em acordes polifónicos de música clássica e profana.

CoralE tal a proficiência dos meios técnicos do João Gabriel que o “youtube”, registou, longamente, este “encontro de afectos”.

Num convívio fraterno onde se partilhou o pão, prevaleceram os afectos.

Os tempos idos avivaram saudades, engrossaram risadas criativas, reuniram memórias dispersas, inflacionaram elogios  fingidos.

E, para memória futura dei cada um dos participantes um cartão, retrato evocativo daquele pino de Junho de 1967.

 Chamei a ti Laura. Dei-lhe o retrato… Ela olhou – o e suspirou numa fácil gargalhada: “Oh… o meu burro”!!!

Tia Laura

E eu, vitorioso, retirei-me….

E todos se retiraram, levando um burro na mão.

 Agosto de 2012

De “As minhas memórias”

Padre Américo Ferreira
Publicado em Memórias do Padre Américo | Etiquetas | 1 Comentário

Evocando o padre Júlio Pereira Roque

Transcrição gráfica efectuada pelo Padre Américo Ferreira a partir de gravação sonora da oração laudatória do Padre Júlio Pereira Roque, proferida pelo Cónego Dr. José Galamba de Oliveira, no dia 25 de Outubro de 1970, em Alqueidão da Serra, no contexto das celebrações do 350.º aniversário d a criação da freguesia.

“Convidaram-me há uns 8 dias para fazer, aqui, hoje, a evocação do Padre Júlio Pereira Roque em cuja honra se acaba de descerrar esta pequena lápide a recordar-lhe o nome e os feitos.

Não era eu que devia estar aqui. O culpado é o meu incorrigível desejo de servir, junto à dificuldade de dizer um não. Fora convidado o Senhor Cónego Lacerda, companheiro de armas do Senhor Padre Júlio Pereira Roque, nas duras batalhas travadas pela restauração da diocese e noutros campos de acção.

Ninguém melhor do que ele poderia e saberia fazer reviver a figura e a personalidade deste homem invulgar: pormenores biográficos, anedotas históricas, factos conhecidos ou inéditos, de tudo o Senhor Cónego Lacerda se serviria, para, no seu estilo inconfundível, nos deliciar por uns momentos.

Ninguém, mais do que eu, lamenta que uma gripe seguida de um forte ataque de reumatismo, o tivesse impedido de vir. Sugeri outras personalidades mais competentes e curiosamente adornadas com o pó das bibliotecas e arquivos, como o Senhor dr. Cristino, culto professor do nosso Seminário e o dr. Luciano e este, mais a mais, membro do mesmo concelho.

Estou sinceramente arrependido de não ter insistido num destes nomes e de não ter recusado aceitar o convite. Que não era para tapar um buraco, diziam, e tinham razão. O buraco fica aberto na mesma. Sentimos todos a ausência do Senhor Cónego Lacerda, por cujas melhoras fazemos os mais ardentes votos; e eu continuo a sentir pena de não estar simplesmente no meio de vós.

Não se trata de figuras de retórica nem desacordo com a festa que nos reuniu aqui. É óptima ideia cuidar das nossas aldeias e vilas, recordar os homens bons que nos precederam, pôr em justo relevo os seus inegáveis valores. E penso que não é de somenos importância a vinda aqui das Ex.mas Autoridades.

Precisamos de elevar o nível de vida da gente do campo e da serra, é certo: de melhores salas de aulas, vias de comunicação, previdência e assistência, energia eléctrica, água potável, etc.. Mas não podemos esquecer que é aqui, na aldeia, que em geral, se forjam e temperam carácteres dos grandes homens. Mal de nós se o olvidamos. E tenho pena de que durante tanto tempo a província estivesse na situação do Ultramar: objecto de injusto desprezo, e, até as vezes de total abandono. Deus queira que ainda se venha a tempo.

Mas receio que nos encontremos diante de um movimento irreversível de abandono da aldeia para uma concentração urbanística aonde, teimosamente, continua a ocorrer a concentração da actividade industrial. Mas não foi a isto que vim. Desculpem.

É de Jupero, o Padre Júlio Pereira Roque que tenho de tratar. Como, se não o conheci, ou, pelo menos, me não recordo dele? Cantei missa em Julho de 26 e o Padre Júlio morria dois anos depois. Não tive tempo de saber que tipo de homem era: se baixo ou alto, magro ou gordo, a cor do cabelo, a natureza do olhar, o timbre de voz, a forma do rosto. Nem é preciso afinal. Só se eu fosse pintor ou escultor para fixar plasticamente o seu tipo físico!

Ouvi dizer que era um homem duro, agarrado as suas ideias, as vezes mal humorado, pouco aberto a diálogos. Talvez fosse. E que tem isso? Que poderia a gente esperar de alguém criado na escola do padre Afonso, nesta terra, hoje alindada, mas então dura e inóspita onde só a teimosa insistência do homem fazia as pedras produzir pão, azeite e batatas e a erva magra da serra, com os pequenos arbustos transformar-se em carne ou leite?

Que sabe disso a mocidade de hoje, vestida de malhas fabricadas por máquinas e de fibras artificiais em vez de estamanha e riscadilho e das mantas tecidas nos teares da aldeia e das camisolas fortes, feitas durante os longos serões do inverno ou nos lazeres da vida pastoril, com a lã das ovelhas, fiada pelas velhas e pelas moças da terra?

Era dura a vida. Eram de rija têmpera os homens! Nem sei como foi a infância nem a juventude do Padre Pereira Roque. O que eu sei é que nos encontramos diante de um homem que formou um nobre ideal e que se soube bater por ele. Não é entre fumos de tabaco ou de álcool, no café ou na taberna, na excitação fácil de companhias duvidosas ou de lúbrica música de batuques que se preparam os homens de amanhã.

A gente é como a seara. Mal vai se não cai geada e se não há treino de luta. Jupero foi um combatente, um lutador. Não se gastou em questiúnculas; pequenas escaramuças como de zaragateiros não lhe detiveram o caminho.

A sua terra, o seu concelho, a sua região, os necessários ou almejados melhoramentos, a sua diocese, o clero, a instrução, a Igreja, eis os elementos de que se entretecia o ideal pelo qual batalhou até ao fim.

Nascido em Alqueidão da Serra, a 7 de Maio de 1876, veio a falecer a 18 de Outubro de 1928. Morreu novo; 52 anos; talvez incompreendido de alguns, mas com uma grande alegria na alma. Pode dizer-se que, por serviço de Deus, das almas e da Igreja, o que mais o apaixonou foi a restauração danossa diocese. Fora extinta em 30 de Setembro de 1881. Logo em 1885 começou a reacção por parte de um homem leigo, um benemérito que a História não pode esquecer – Vitorino da Silva Araújo. Este, porém, não era da têmpera rija de Jupero.

Recomeça a campanha em 1903. E, de então por diante, não pára, não descansa, não desanima, não depõe as armas. Atacado, escarnecido, desacompanhado, Jupero forma com o clero de Porto de Mós um pequeno grupo. Vem novas adesões de freguesias vizinhas. Depois, é o clero da vigararia de Leiria, a princípio um pouco hesitante, para não desgostar o Senhor Bispo de Coimbra.

A arma de que se serve é a pena, ora em cartas particulares, ora sobretudo na imprensa, o Portomosense de que é assíduo colaborador. Fui ler os seus artigos para o conhecer melhor. Vi nele um homem possuído por uma ideia, que o domina, o comanda, o conduz. Bate sempre as mesmas teclas; insiste, repete quase num estilo matraqueador de moderno mentalizador marxista. E tanto bate, tanto bate que arrasta os outros. É um chefe. Leiria vibra e deixa-se arrastar. Monárquicos e republicanos, padres e leigos, católicos e indiferentes, o comércio, as famílias mais representativas da terra, todos se dão as mãos. Não faltam os operários, os artistas, como então se dizia. O teatro D. Maria Pia enche-se para uma grande assembleia em que toma parte a melhor gente da terra. Porto de Mós vai agradecer.

El-rei recebe uma luzida comissão. Há promessas que se esvaem. Jupero insiste, a imprensa diária e regional alinha com o “Portomosense. Desde os grandes diários como a Palavra, do Porto, o Século, o Diário de Notícias, o Correio da Noite, o Correio da Tarde, o Diário Ilustrado, a Época, a Nação, o Correio Nacional até aos mais afastados jornais da Província e as mais categorizadas revistas como a Revista Católica, os Ecos de Roma e a Voz de Santo António, é um coro unânime de aplausos, de aprovações, de apoios a Jupero.

De repente, apaga-se a luz. Suspende-se a campanha em Novembro de 1904. Aparentemente e na imprensa, apenas.

1913 – 9 anos vão passados; debaixo das cinzas havia brasas vivas. As exéquias por alma do Senhor Bispo-Conde, na Sé de Leiria, dão ensejo a uma reunião do Clero. E a campanha recomeça com novo vigor. Jupero escreve, agora no Mensageiro, nascido a 7 de Outubro de 1914 e no qual o seu fundador, editor e proprietário, o Senhor Cónego Lacerda, o convida a colaborar. Jupero responde as objecções, torna pública a carta e a maneira de sentir do Senhor Bispo-Conde e a representação solenemente entregue a Sua Magestade.

A pequenina faúlha, atiçada em Porto de Mós pelo Padre Júlio Pereira Roque e em três períodos por ele mantida, surte efeito. Jupero vê os seus esforços coroados de êxito. Triunfa.O bispado de Leiria, em má hora extinto, sem razão, ressuscita. Leiria, diocese, assemelha-se aos estados tampões, como a Bélgica e a Polónia. De vez em quando, os grandes atiram-se a ela, com fúria leonina e instinto de chacais.

O exemplo do passado é lição para o presente. Não sei o que teria acontecido se determinadas e insensatas ambições, os não tivessem encontrado unidos e alertados. Por agora afastou-se o perigo. Mas a honra da nossa terra, o interesse da Igreja e das almas e da glória de Deus, o nome dos que nos precederam exigem de nós, prudência, vigilância e fortaleza na defesa e na luta.

Que alegria imensa não terá enchido a alma, a transbordar naquele dia glorioso de 5 de Agosto de 1920, quando a Diocese esteve em Leiria para receber o bispo mandado por Deus!

Não se julgue, porém, que o problema da restauração do bispado lhe absorveu totalmente as energias. Bem pode dizer-se que não havia problema importante de ordem geral, como a educação religiosa, o ataque demo-maçónico ao clero, ou de ordem regional, como o caminho de ferro de Tomar/Nazaré que não tivessem a senti-los a pena apurada de Jupero, um dos mais notáveis polemistas de entre os jornalistas amadores do seu tempo.

Era o “nunc dimmitis”. Jupero recebera uma missão da Providência: lutar pela restauração da diocese. E cumpriu com galhardia. Agora podia recolher-se com a missão cumprida. Não sei como o mundo o tratou. O Senhor chamou-o a Si. Oito anos depois entregava a alma a Deus. Mas deixava em testamento a gente da sua terra e a nós todos, o exemplo dum homem que soube lutar por um ideal nobre,num combate sem quartel. E seguiu-o até à vitória final.

Nem a todos os que lutam está reservado o triunfo. Mas todos os que sabem lutar recebem, ao menos a mais alta recompensa: o testemunho da própria consciência do dever cumprido.

A pedra que aqui fica é a memória de um homem que honrou a sua família e a sua terra, que teve um nobre ideal a norteá-lo, que soube servir com denodo Deus, a Igreja e a Pátria.

Que a sua memória perdure e sirva de exemplo aos homens de hoje e de amanhã e que o Alqueidão da Serra, com muito mais possibilidades hoje do que ontem, seja viveiro fecundo de homens que, a exemplo do Padre Júlio Pereira Roque, no seguimento do Divino Mestre, com nobreza e desinteresse saibam servir.

José Galamba de Oliveira”

Publicado em Comemorações dos 350 Anos de Freguesia | Deixe um comentário