A Senhora Biscondença

Jogo para rapazes e raparigas, dispostos em qualquer ordem, a formarem uma circunferência cujo diâmetro dependia do número de principiantes.

Uma das raparigas fazia de “Biscondença”. Dela, todas as outras eram “filhas”.

Por seu lado os rapazes, à vez, iam-se fazendo candidatos ao coração das moças, enquanto o jogo durasse ou até haver raparigas sem pretendente declarado.

Dirigindo-se à “Biscondença”, o primeiro candidato, lança-lhe o pedido:

Ó Senhora “Biscondença”,
Com ponto de língua francesa,
Se me dá das suas “filhas”…

 

A resposta não se fazia esperar, em tom de quem tudo manda:

Eu não dou das minhas filhas,
Nem por ouro, nem por prata…
Nem por fios de algodão,
Tão bonitas elas são!

Desiludido com esta fala e com o tom da mesma, o rapaz fingia que se retirava, parando todavia, ao escutar a intimativa:

Para aí, ó cavalheiro,
Se queres ser homem de bem!…
Vai àquele conventinho,
E escolhe a que for teu bem…

 

Com tão geral autorização e tão franca liberdade de procedimento, o titular destas franquias girava em redol do círculo, da parte de fora, e deitando olho aqui, olho ali, acabava por exclamar triunfantemente:

Não quero esta por ser rosa,
Nem essa por ser cravo…
Nem aquela por ser jasmim,
Quero esta cá p’ra mim!

E, mal acabava de dizer os versos, tirava a preferida na qual travava o braço forte, levando-a consigo a dar uma ou mais voltas a toda a circunferência, após o que, retomavam seus lugares anteriores ou lado a lado.

Imediatamente, depois disto, repetia-se tudo o que fica dito, com outro rapaz, podendo este escolher a mesma ou outra parceira.

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Bichaninho

Para jogar o “bichaninho”, era preciso existir um monte de terra, disposto em forma de cone ou de pirâmide. O tamanho dessa moreia é conforme o número dos que entram na jogada.

No interior desse montinho de terra, colocava-se um objecto de qualquer natureza, o “bichaninho”, tendo a preocupação de o situar perto do meio, para que todos os jogadores tivessem igual número de probabilidades de o encontrar.

Pronto isto, os participantes na jogada acomodavam-se em volta do montinho de terra. Depois, com os dedos ou com um gravelhito, começavam a esgaravatar, pouco a pouco e ao mesmo tempo, no monte de terra. Enquanto esta operação durava, todos iam dizendo sem quebra, com a mesma entoação que era lenta, arrastada e monótona ao jeito de cantilena de pedinte de porta:

– “Bichaninho, bichaninho, bichaninho…”

A lengalenga parava logo que algum encontrava o “bichaninho”, o que correspondia ao fim do jogo.

Este era um divertimento a que só as crianças mais pequenas davam importância.

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A Cabra Cega

Neste jogo participavam rapazes e raparigas sem limite de conta, dispostos indiferentemente quanto ao sexo, de forma a formarem círculo.

No meio da roda, ficava um dos participantes que tanto podia ser rapariga como rapaz. Era a “Cabra-Cega”. Para ela efectivamente ficar “cega” vendavam-lhe os olhos por meio dum lenço bem apertadinho sobre eles. Com este preparo todo, um dos elementos constituintes do círculo perguntava-lhe:

– “Cabra-Cega, de onde vens?””

– “Venho de trás daquela serra…”

– “Que comeste por lá?”

– “Pão e vinho…”

– “Dás-me um bocadinho?”

– “Vem atrás do meu rabinho…”

E, caminhando vagarosamente ainda com os olhos vendados, ia chamando o interlocutor para este lhe seguir o “rabinho”.

Terminado este jogo, repetem-se outros pelo mesmo estilo.

Cada uma das jogadas era tanto mais prolongável, quantas mais vezes se proporcionasse a ocasião de perguntar à “Cabra-Cega”:

– “Que comeste por lá?”

Se ela tivesse imaginação e espírito reinadio ia “dando guita”, enumerando os mais fartos manjares tentando variar o diálogo e, assim, divertir os que jogavam e os espectadores, o que por vezes acontecia por meio de troça habilidosa ou de chacota descurada.

Lá quando lhe “dava na real gana”, encaminhava as coisas para o fecho do jogo. Nessa altura, tinha de falar numa comida que terminasse com o diminutivo “inho”, ou trazer ao paleio uma palavra que acabasse em “inho” (caminho, linho, raminho, etc.), para dar ensejo ao convite:

– “Vem atrás do meu rabinho”.

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O Lencinho

“O Lencinho” era jogo para ambos os sexos. Havia uma roda de jogadores, mas ficava um de fora. Este, fazendo um nó em qualquer das pontas do lenço de assoar, percorria a passo todo o círculo, pela banda exterior, e dava uma ou mais voltas, a seu entender. Lá quando e onde muito bem entendia largava o lenço (quanto mais despercebidamente melhor) atrás de um dos participantes.

Enquanto toda a roda se divertia soltando suas graças, umas vezes sem intenção especial outras para distrair o jogador atrás de quem fora posto o lenço, o que o depositara continuava seu caminho.

E se fosse caso que vingasse chegar ao pé do que escolhera para o efeito do jogo, sem este se aperceber do que se passara, pegava naquele pequeno e leve tecido e toca de açoitar o despreocupado jogador, com a parte do nó.

A vítima era obrigada a soltar-se das mãos a que estava ligado, e a dar a volta à circunferência até chegar ao ponto da partida, apanhando sempre com o nó, se o perseguidor conseguia apanhá-lo.

Uma vez aí, terminava o seu castigo e soava a hora da “vingança”. É que, a partir desse momento, pertencia-lhe pegar no lenço e fazer o mesmo que o antecedente.

Se, porém, era coisa que o parceiro que ele preferenciara para lhe pôr o lenço se apercebia do acontecido, este levantava-o e partia para a volta a tentar a sua sorte.

Daqui resultava que, em dada altura, ainda bem um jogo não ia a meio, já tudo estava em condições para começar o outro. Bastava para isto, que a roda estivesse fechada com o último a largar o “lencinho”.

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O Raminho Entronchado

Neste jogo, somente as raparigas participavam. Os rapazes assistiam ao seu desenrolar, tão próximos quanto elas permitiam. Na verdade eles também tinham a ver com o divertimento, visto que os nomes de alguns deles eram mencionados, segundo as normas antigas do jogo.

Agrupado o rancho de moças dispostas a realizar esta distracção tradicional, seguia-se o arranjo do “raminho” que, por norma, se compunha de mais que uma qualidade de flores, as que houvesse na quadra do ano. Atadas as flores para  que não se esbandalhasse o conjunto, resultava um “raminho entronchado” que é como quem diz, rechonchudo, encorpado, graças ao agrupamento das flores com o atilho.

“Raminho Entroixado” foi o nome que deram a este jogo tradicional, mas os raminhos utilizados na brincadeira eram mimosamente feitos e delicadamente variados no matiz.

Uma das raparigas (quase sempre a confeccionadora do “raminho”) com ele nas mãos, assim à altura do peito, aproximava-se de uma das parceiras do jogo e dizia-lhe:

– “Toma este “Raminho Entronchado” que manda o teu amor, que será do teu agrado…”

Curiosa, a interpelada, perguntava prontamente:

– “Que amor me dais?…”

E, logo, a do “Raminho Entronchado” lhe dizia ao ouvido, o nome do rapaz  que, por palpite, por confidência, por observação das atitudes, quer dum quer doutro, estava no convencimento de que lhe quadrava.

Corridas todas as outras, sempre com o mesmo cerimonial, voltava à primeira, na compostura inicial, e perguntava-lhe:

– “Para que queres o amor que te dei?”

E lá vinha a resposta, ora tardonha e envergonhada, ora pronta e espevitada que exprimia sincera ou fingidamente, mas sempre com ar de reinação e brincadeira, as “intenções” da interrogada relativamente ao préstimo daquele que lhe fora dado como “amor”.

Diziam coisas que, trocadas em miúdos, vinham a dar, muitas das vezes, numa troça pegada, diziam por exemplo: “para o pôr a tirar água à nora”, “para lhe oferecer uma albarda”, “para lhe oferecer umas cangalhas e cântaros em que traga água da fonte”, “para lhe pôr um cabresto novo com que o puxe até à feira”. E, às vezes, chegava a surgir a declaração:

– “Para casar!”

Acontecia também aparecer na baila o próprio nome do rapaz, dito pela interveniente no jogo, adivinhado por uma resposta, palpitado por uma olhadela escapadia ou por um dedo indiscreto, que apontava de fora.

Segundo a praxe, o jogo terminava entre risadas sonoras cortadas por ditos de galhofa, comentários levemente escarninhos quando não era com a previsível primeira avançada para o namoro.

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