A Emilinha

A Emilinha do Damião,
sem ter farinha faz muito pão.
 
A rica fada põe-se a amassar
Grandes fornadas num alguidar
 
Qualquer vizinha, por mais que faça
Sem ter farinha nunca tem massa
 
Mas ela não!…. Oh que memina
Tem tanto pão, quanto imagina.
 
Põe-se a tendê-lo sobre o estrado
Põe-se a benzê-lo já levedado.
 
Mete-o no forno, que sem brazido
antes de morno, já está cozido.
 
Que lindas pás já estou a ver
Nessas fornadas que há-de cozer.
 
Fonte: Tia Adélia (em 2 de Julho de 2012)
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Lengalenga dos Numeros

O numero 1 está deitado. O numero 2 também. Foram chamar o 3 a Belém. O 4 não quis cá vir. O 5 largou-se a rir. O 6 desalvorado, o 7 com a força armada para meter o 8 no castelo. O 9 foi dizer ao Melo que no 10 deu uma facada.

O 11 com a bebedeira. O 12 rogou uma praga. O 13 deu uma descarga no 14 por brincadeira. O 15 na mesma cegueira, o 16 muito zangado, o 17 escamado por o 18 não querer falar e o 19 não querer dar no 20 que estava deitado.

21 toca cavaquinho, 22 toca rabeca. 23 é o velho careca. 24 está ao cantinho. 25 paga o vinho. 26 é cabo de manga. 27 patusca a franga. 28 baila o saltério. 29 faz o que quer. 30 baila o fandango e 40 bate o Fado.

Fonte: Tia Adélia (em 2 de Julho de 2012)
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Dicionário de Sinónimos

Palavras ou expressões usadas em Alqueidão da Serra, que não vêm nos dicionários:

ABARBAR – Beber, aspirando o líquido com os lábios.

ABICHADO – Apressado, atarefado.

ACARVAR  – Atolar em lama.

ACEGUIA – Caminho muito estreito, entre paredes.

ACLIPAL – Eucaliptal.

ACLIPE – Eucalipto.

ADITAR-SE – Diz-se daquele cujos proclamas se lêem na igreja.

AFRESSURADO – Preocupadamente apressado.

ALAMBEL – Qualquer peça de vestuário pouco agasalhadora.

ALGAR – Pessoa de muito alimento.

ALGUERVE – Pedra do lagar de azeite em que poisam as seiras antes da espremedura.

ALPÚTEGA – Parasita vegetal, comestível, criado na raiz das estevas e doutras plantas.

ALQUÈVAR – Alqueivar.

ALRABICHO – Parte aguçada na traseira da albarda.

ALVACOTE – Sobretudo. (Aportuguesamento da palavra inglesa “overcoat”.

ALVAROZES – Fato-macaco. (Aportuguesamento da expressão inglesa “over alls”.

ALVEIRA (PEDRA) – Mó destinada a moer o trigo.

AMOCHAR – Aguentar, suportar.

AMOIAR – Falar vaidosamente e com excessivo louvor duma qualidade física ou moral.

AMONJO – Conjunto dos órgãos produtores do leite nos irracionais.

AMORINHO – Fruto comestível do espinheiro.

AMÒSTAR – Anunciar, por intermédio do prior à hora da missa, a perda ou o achamento de coisa ou animal.

AMOSTRAR-SE – Ser examinado pelo médico. Também se diz “ser visto pelo médico”.

ANECRIL – Alecrim.

ALMAZIO – Relento.

ARRELAMPADO – Adoentado.

ARRODEIO – Saborosa qualidade de figo branco.

ARROVALHAR – Orvalhar.

ARROVALHO – Orvalho.

ARRUAR – Diz-se do ruído que faz o porco esfomeado.

ATEIRÓ – Na frase “ganhar ateiró a alguém”, correspondente a ter-lhe má-vontade.

AVENTAR – Meter ar entre a pele e o tecido carnal duma rês antes de a esfolar.

AZERVAR – Resguardar uma planta com silvas, espinheiros ou tojo bravo. D

BACEIRENTO – Mal cheiroso. (Geralmente diz-se de pessoas que expelem gases intestinais,).

BAJANCO – Reservatório de água com grandes proporções normalmente aberto na terra ou na rocha.

BARRANCEIRA – Ribanceira.

BELISOMEM – Lobisomem.

BENDITOS (TERÇO DE) – Devoção vespertina, realizada na igreja, durante a qual se cantava o “terço de benditos”, com o SS.mo exposto à boca do sacrário.

BISMO (OLHAR PARA O) – Olhar para o que há-de vir ou olhar para ontem.

BOCADO – Pequena propriedade rural ou grupo delas.

MOIRISCO – Nome dado aos bois conforme sua cor.

BONISCO – Excremento da raça cavalar.

BORDAR – Sair um líquido ou um sólido do recipiente cheio demais.

BORRAÇAR – Cair chuva miudinha.

BORRAÇO – Chuva miudinha.

BORRANHEIRO – Chuva miudinha caída intermitentemente.

BORRIFANO – Animal enfezado de nascença.

BOTETO – Abcesso.

CABIÇALVO – Animal de cabeça, total ou parcialmente, branca.

CABESTREIRO – Aquele que, nos trabalhos da lavra, pega na soga ao longo do rego.

CAÇAPOS (AOS) – Saltar como os coelhos.

CAGANEIRA – Necessidade de evacuar.

CAGANEIROSO – Vaidoso.

CALDAR – Deitar água fervente sobre a azeitona moída antes de ir para a prensa.

CALÉ – Coisa sem valor.

CANAFREICHA – Planta cujo caule as crianças aproveitam para rudimentares brinquedos.

CANGARENA – Gangrena.

CANECO – Medida de 20 litros.

CANOCO – Caule do milho depois de seco e despido da folhagem.

CANTELHAS –  “felizmente”, “vá-lá, vá-lá”.

CAPA-CAPA – Orientação dada no jogo do “ró-rô” ao que está escondido, preparando-lhe a chegada ao coito.

CARAPIAR – Carpir.

CAROÇA (DAR À) – Render-se, morrer.

CARRAPETO – Parte duma erva bravia que, atirada à roupa, por si mesma se lhe pega.

CARVUNÇA – Resíduos negros da combustão da lenha que se vão fixando nas paredes da chaminé.

CEBOLÃO – Nome dado ao riscão quando serve na matança do porco.

CHACARÉU – Carapau seco ao sol.

CHARRUAR – Sons produzidos prolongadamente pelo suíno que tem fome.

CHENIAR – “charruar”, num tom mais agudo.

CHENO – Porco.

CHIOTA (ARDER A) – Diz-se daquele que protesta por se ver prejudicado.

CODECA – Côdea do pão ou da boroa, alimentação, “ganhar para a codeca”.

CÓDRILHEIRA  – Alcoviteira, intriguista.

CÓNHAR – Tirar, com a vassoira, as palhas e sujidades que aparecem no monte de cereais enquanto são padejados na eira.

CONHOS – Espigas não debulhadas, vagens de ervilhaca, etc. que se tiram dos cereais durante o padejamento de limpeza na eira.

CROIJA – Corja.

CURJIDOSO – Diz-se do agricultor que trata das fazendas com zelo e gosta de cultivar novidades diferentes.

CORRER-SE COM – Cortar relações sociais com alguém.

CRUTO – Parte cimeira de qualquer coisa. Das medidas de capacidade, diz que estão de cruto, tratando-se de sólidos, quando as coisas formam pirâmide. No caso contrário, a medida está rasa.

CUSAPEIRO – Nádegas.

CUINHAR – Vozear do porco se o agarram e seguram contra sua vontade.

CUSPINHO – Antigo jogo do pião em que ganhava o jogador que acertasse com o bico na marca, ou mais perto dela. A marca era um pouco de cuspo no chão.

DANGUE – Pessoa bem posta.

DENOS QUE – Desde que.

DESPENDER – Equilibrar a carga dum animal quando ela pende para um dos lados.

DIA DE S. FERNANDO – Dia de chuva miudinha.

DIARREIRA – Diarreia.

EALMAR – Cheirar enjoativamente mal.

EMONAR – Pôr-se inactivo, indiferente.

EMPEÇAR – Tocar levemente.

ENCAVAR – Meter cabo numa enxada, martelo, etc.

ENCOIÇAR – Meter num canto ou beco sem saída. Pôr em dificuldade de resposta.

ENCORDOIRA – Uma das partes laterais da carga feita com corda de “encrir”.

ENCRIR – Fazer uma carga com duas “encordoiras”, ligadas pela corda de “encrir”

ENDEREÇOS – A expressão “endereços ao dinheiro” significa coisas desnecessárias mas que, por qualquer circunstância, atraem os compradores.

ENGAVELAR – Comer muito e sofregamente.

ENGRA – Greta, fenda.

ENJOIJAR – Provocar a perda dos sentidos com uma pancada ou choque na nuca.

ENSAIPAR – Fechar dentro duma casa, compartimento, etc.

ENVACA – Uma das partes laterais do arado que vai afastando a terra à medida que se vai abrindo o rego.

ESBRUZINAR – Partir o rebordo da boca dum cântaro ou doutro recipiente de barro.

ESBRUZINADELA – A falha naquilo que se esbruzinou.

ESBURRAR – Cair de pedras e terra duma barreira.

ESCADERNAL (LER O) – Indicar a lista dos motivos porque se acusa ou ataca alguém.

ESCANDELIZADO – Diz-se duma parte do corpo que ficou dorida por efeito de contusão.

ESCARDOÇA – Chuvada forte puxada a vento; também se diz quando é pedraço.

ESCRAVUNÇAR – Sujar com “carvunça”.

ESCARVUNÇADELA – Máscara de “carvunça”.

ESCATAMUNHO – Grande alarido, banzé, espalhafato.

ESFOIRA – Diarreia muito aguda.

ESFOIRAR-SE – Sujar-se com “esfoira”.

ESGRAVELHAR – Remexer a terra como as galinhas.

ESGRAVULHAR – Tirar o milho do carolo com a mão depois de riscado.

ESMENECER – Diz-se da água que molha sem escorrer.

ESPADILHAR – Morrer miseravelmente, desfalecer com fome.

ESPANHOL – Pessoa difícil de entender por se expressar deficientemente.

ESPINGARDEAR – Dirigir-se a alguém com palavras agressivas e fazê-lo frequentemente ou por longo tempo. Refilar: “que estás a espingardear comigo?”

ESTAGULHO – Espinho grande ou ponta de objecto picante de tamanho grande.

ESTARAVANTAR – Diz-se quando melhora o tempo de chuva.

ESTROIDO – Destruído, estragado.

ESTROPER – Desaparecer dobrando a uma esquina ou passando uma portela.

ESTRUMEIRA – Terra de mato para estrume.

FALGAR – Terra leve de cor escura e muito fértil.

FARELEIRO – Rato pequeno.

FARRACHO – Grande pedaço de pão.

FAVA-SECA – Pancada no queixo inferior fazendo bater os dentes nos de cima.

FIGOTA – Figo sobre comprido e cinturado que parece a junção de dois pelo meio, no sentido do comprimento.

FOGUEIRÃO – Preguiçoso.

FOLATO (PASSEAR O) – Distrair-se andando ao acaso.

FONHEIRA – Terra leve de cor acinzentada e fácil de amanhar.

FREIRA – Bago de milho que, posto ao lume, rebentou e serve para comer.

FREIXA-DE-ÁGUA – Na frase “não ter freixa-de-água” é igual a “não ter pinga de água”.

FROUXEL – Película branca e leve que o milho solta em sendo padejado.

GADEIRA – Amigo de cuidar dos animais.

GAFO POR – Desejar muito alguma coisa.

GENLRO – Genro.

GRÃ – Parte granulada da areia.

GRAVELHO – Pequena parte dum ramo de árvore já seco.

GÚRIA – Mulher de mau génio, conflituosa.

GURITA – Parte mais alta de uma árvore.

GURINTINHA – Última extremidade da gurita.

IGREIJEIRO – Pardal de telhado. (Habituais frequentadores do telhado da igreja, onde fazem ninhos).

ÍMPADO – Choro convulsivo.

IRMÃOZINHO – Tratamento dado aos pobres de pedir.

JUNGALHAR – Rebolar por um plano inclinado.

LABITATO – O que tem grande dificuldade em se exprimir compreensivelmente.

LADRÃO – Parte inferior da tarefa onde fica almofeira e algum resto de azeite.

LAMBAÇA – Erva daninha.

LAMBUGEM – Raízes pequenas e finas de qualquer árvore, às vezes saídas doutras raízes.

LATOMIA – Conversa, narração ou cantilena, monótonos.

LATRADO – Diz-se do figo que, estando maduro, apresenta a pele rasgada por caprichosas rachas que às vezes figuram letras.

LEITARIGA – Planta silvestre que deita abundante suco leitoso.

LÉU (TER) – Ter vagar, ter ocasião.

MALINA – Doença.

MÁMINHO – Dedo mais pequeno da mão.

MÁQUINA – Bicicleta.

MARESIA – Gotas de água que, de manhã, se encontram nas ervas e plantas.

MARMILO – Pequeno cavaco devidamente aparado que os pastores punham na boca dos cabritos para os impedirem de mamar, prendendo-o com dois barbantes. Também designa as saliências carnosas que algumas cabras têm na queixada inferior.

MARROLHO – Planta silvestre.

MATRÁCULAS (DAR COM AS) – Descobrir as manhas ou habilidades de alguém.

MEDURA – Porção de azeitona tratado no lagar duma só vez.

MEXÚDIAS – Prato culinário que se prepara com sobejos da refeição de feijão com couves aos quais se juntou farinha de milho, fervendo tudo em conjunto. Tempera-se com azeite cru, come-se com azeitonas, sardinhas assadas, etc.

MENINO ISÁ – Benjamin da família ou preferido por qualquer pessoa.

MOFAR – Comer um tanto ou quanto à pressa, fazendo barulho com a mastigação.

MOLAR (TOJO) – Qualidade de tojo sem picos preferido na chamusca do porco.

MONA – Pião de dois bicos.

MORTEFÚGIO – Pessoa de quem a morte fugiria por causa da sua fealdade. Pessoa não desejada.

MUSGA – Diz-se da pessoa a quem cortaram excessivamente o cabelo e dos animais tosquiados em demasia.

NOLHA – Laçada que se desfaz rapidamente puxando uma das extremidades.

NOVIDADES – Sementeiras durante os seus primeiros tempos de nascidas.

ÓQUES – Na expressão “agora, óques” é igual a “diz-lhe adeus” ou “foi-se tudo”.

PAMPULHÃO – Empurrão.

PANAL (DAS CULPAS) – Responsabilidades complexas por qualquer facto.

PANTALUGO – Planta silvestre cujas folhas verdes serviam para varrer o forno de cozer a amassadura.

PANTAR: Colocar

PARTES – Porções que fazem a “medura” inicial da safra do azeite, constantes de azeitona derrubada pelo vento ou pelo temporal.

PASTO – Caule do milho, tanto verde como seco, para alimentação de bois ou de burros.

PEDIVES – Sementes de abóbora.

PÉGUIA – Nascente duma fonte, poço ou mina de água.

PESQUIM – Observação desfavorável, crítica. Diz-se “pôr pesquins”.

PETA – Parte superior, espalmada, do martelo de sapateiro.

PIAL – Pedra da cozinha onde se colocava o cântaro. O mesmo nome se dava a uma pedra que havia, na Rua de Cima, antes do arranjo da estrada. Nela se sentavam os moradores, com certa comodidade que lhes vinha do facto de terem uma parede a servir de encosto, a conversar ou a tomar fresco, à noite.

PICARO – Parte do figo que o liga ao ramo.

PIMENTEIRA – Planta rastejante que serve para estrume e que era queimada nas fogueiras dos Santos Populares, espécie de tomilho.

POCEIRA – Cesto grande feito de vime branco, normalmente sem asas.

POCEIRÃO – Cesto vindimo para transporte de uvas.

POSTELA – Crosta de ferida.

POSTO – Esconderijo da chave da casa.

QUARTEL – Casa de alojamento dos ranchos da azeitona.

QUILADA – Termo do jogo do pião que significa picada que o pião atirado faz no que está a dar e com a qual ganha a jogada.

RABIALVO – Arredio, esquivo, fugido aos encontros.

RABEIRA – O último quando os cavadores formam banco .

REBOLHO – Fruto que não se desenvolveu. Diz-se especialmente de uvas e azeitonas.

REFIA –  ráfia.

RESMENTO – Período seguinte ao parto durante o qual a mulher não devia ir à igreja, não mexia em água, de modo particular, na fria.

RESPO – “Bonisco”. Segundo a tradição, a palavra foi trazida de Lisboa por determinada mulher do Alqueidão a qual, tendo ido lá contratar a criação dum enjeitado, ouviu uma vendedora ambulante anunciar “respos”. Pensando tratar-se duma guloseima, teve a precaução de averiguar acerca da mercadoria. Perante ela, quis saber em que se empregava, sendo-lhe dito que servia para conservar o lume, visto os fósforos serem caros.

RISCÃO – Espeto de ferro, com cabo de madeira, para riscar as espigas de milho. Quando é usado para matar o porco, chama-se Cebolão

RISCAR – Preparação do milho para se “esgravulhar”, fazendo “riscos” na espiga com o “riscão” que se metia entre as carreiras de bagos, que deste modo saíam, deixando ficar uma espécie de risco.

RODEIRO – Sulco aberto pelas rodas dos carros numa estrada ou caminho.

ROSALGAR – Diz-se da pessoa que por qualquer circunstância, em geral doença, não pode trabalhar: “não presta para um rosalgar”.

SACANÃO – Safanão.

SALAMANQUINHA (À) – Ao pé coxinho.

SALSA BRAVA – Erva de S. Roberto.

SANTARENA – Bicho comprido e negro que se enrola sobre si mesmo.

SARRÃO – Instrumento dentado como a serra que se emprega no corte de toros com grande diâmetro. É puxado por duas pessoas.

SEGÓVIA – Atrevida, mulher a que se dá pouca consideração.

SEGUNDEIRA – Mó do moinho para o milho.

SENABRE – Peça do madeiramento do telhado duma casa.

SICUDÉRIO – Bom senso, juízo: “tem sicudério” .

SOVINA – Espicho de madeira para vedar o buraco feito no porco pelo “cebolão”, durante a chamusca.

SUB-BROCHA – Corda ou correia que liga as duas partes da canga em que fica o pescoço do boi.

SUNISGA – Pessoa metediça e intriguista.

SUSTREJAR – Ruído prolongado que o burro faz (imitante ao do começo do zurro) se, cheio de fome ou morto de sede, quando vê ou lhe oferecem comer.

SUTA – Parte do martelo que bate no objecto a atingir.

TAGARRINHA – Espécie de cardo cujas nervuras são muito apreciadas na sopa de feijão branco.

TALOFEIRO – Diz-se do pão bem fabricado e que ficou fofo.

TANCHOEIRA – Oliveira novinha e de pequeno porte.

TARAMBELHO – Jeito, habilidade.  “não tens taramenho nenhum”.

TARDINHOSO – Atrasado, demorado.

TÁTARO – Veneno empregado na fruta por causa dos ladrões.

TELHO – Pequeno bocado de barro cozido, partido de telha ou de coisa de barro. Coisa sem valor nenhum: “não vale um telho”.

TERLIDO: Nervoso, ansioso, “passado”.

TIBORNA – Grande quantidade de amoras, esborrachadas num recipiente, para comer.

TIOZINHO – Tratamento dado aos pobres de pedir.

TRAÇÃO – O bacorinho mais enfezado da ninhada.

TRAVA – Pequena peça de madeira que estica a corda da serra.

TRAVINCOLA – Pessoa alta e magra.

TROVENGA – Conversas ou ditos sem interesse; versalhada que se diz com alguma entoação.

VALICOTO – Pequena elevação de terreno, situada num plano ou entre montes.

VISITA – Aquilo que os convidados oferecem aos noivos por motivo de casamento.

ZAMPALHEIRÃO – Homem mal vestido, desajeitado.

ZANGALHAR – Diz-se dum objecto que bate ou baloiça por não estar bem fixado ou atado.

ZENIDA – Ruído prolongado nos ouvidos.

(recolha de Alfredo de Matos)

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As Moiras dos Vieiros

O Zambujal é um povoado muito antigo, embora pequeno desde sempre, e actualmente só com uma ou duas casas habitadas.

Nos velhos tempos, ainda os Moiros viviam em Portugal, já existia  gente cristã no Zambujal.

Certa vez em que seus moradores, casualmente olharam para o morro dos Vieiros, pareceu-lhes que no ponto mais alto deste, havia gente, e que esta se movimentava, não como quem anda, mas com pequenas corridas que ora estacavam de repente, ora mudavam de direcção, muito bruscamente. Era, assim, como uma dança.

Afirmaram-se melhor, levados pela estranheza que tudo aquilo despertava em cada um. E não lhes restou a menor dúvida: aquilo era uma dança, muito estranha, é certo, mas uma dança. Nisto, fechou-se a noite e cada um foi para sua casa, depois de terem concluído que aquilo vinha a ser coisa de rapazes e de raparigas.

Chegado o dia seguinte e, pela mesma hora, um pouco mais ou menos, lá estavam os bailarinos justamente nos mesmos propósitos.

Isto acendeu a curiosidade em todos os que presenciavam a cena. Decidiram ir lá ver com seus próprios olhos o que era aquilo. Desataram a correr por aí abaixo, atalhando caminho para serem os primeiros a verem. Com os bofes à boca, puseram-se lá em três tempos e com a surpresa maior do que o cansaço, verificaram que nem vivalma ali persistia!

Olharam para um lado e para o outro, percorreram o terreno em várias direcções e… Ninguém. Passando a um exame rigoroso e miudinho do chão, nem sinal de pé de gente se lhes deparou! Ora a verdade era que, dos movimentos e das corridas que os dançarinos faziam, forçosamente havia de resultar algum rasto, algum sinal. Nada, porém, se descobria ou adivinhava.

Dividiram-se aos pares, bateram o terreno palmo a palmo! Em breve acabou a tarefa, de resto fácil, uma vez que a área era pequena. Daqui e dali, saltava um coelhito, mas gente ou figura disso, é que nem sombra.

Diante disto que mais parecia bruxedo que outra coisa, voltaram para suas casas, todos e cada um jurando que tinham visto e, afinal, dava-se aquilo…

Embora o desalento fosse geral, ficou assente que no outro dia voltariam, à mesma, se voltassem a ver aquilo, que começava intrigar toda a população do lugarejo.

No dia seguinte, lá estava a mesma reinação e parece que mais vistosa. Era inteiramente certo que não havia o menor engano de olhos. Aquilo era mesmo gente. Até viam roupa estendida ao sol.

A surpresa era cada vez maior e o remédio que havia para o caso estava em deitarem pés ao caminho, indo uns por um lado, outros pelo lado oposto, de modo a fazerem cerco. Assim, forçosamente encontrariam quem andava de brincadeira com eles. Pelo menos, haviam de ver que espécie de pessoas eram as que se prestavam a tão esquisitas e extravagantes atitudes e comportamento.

E, com esta ideia fisgada, resolveram fazer o que ficara combinado. Mas antes disso, houve quem soltasse um berro, forte e prolongado, a chamar. E os outros fizeram o mesmo.

Lá em cima, tudo e todos continuavam na sua, como se não chegasse até eles o menor rumor dos zambujalenses. Destes, houve quem lembrasse que podia tratar-se de surdos e, daí não os ouvirem a chamar. Por isso, trocaram as vozes por gestos. E foi um louvar a Deus o número de braços erguidos e o prolongado meneio de mãos como quem faz insistente convite.

Foi o mesmo que nada. Homens e mulheres, rapazes crescidos e raparigas (de crianças é que nem sombra aparecia) continuavam na deles: corridas ligeiras e breves, voltas rápidas e paragens um nadinha demoradas, com os intervenientes a olharem-se de frente aos pares, tão concentrados como se nada se passasse ao redor, perto ou longe!

Foi por tudo isto que os curiosos e intrigados espectadores decidiram-se a organizar um cerco ao morro dos Vieiros. Dele, esperavam o completo esclarecimento daquele “mistério” nunca visto.

Foram uns por um lado e outros pelo outro, realizaram círculo e, num dado momento, começaram de apertá-lo, reduzindo a área da roda, até que nesta disposição, chegaram ao sítio onde se lhes afigurava que tinham visto as cenas descritas.

De todas estas miúdas diligências e espertos cuidados veio a resultar, nem mais nem menos que, exactissimamente a mesma coisa que na véspera: nada quanto a pessoas físicas, nada quanto a sinal da sua permanência nem sinal de rasto ou pé de passada gravados na terra. Nem o mais reles fio de roupa se via pendente de qualquer ramo de árvore.

Diante da incompreensível falta de sorte, ou lá o que era, alguns ficaram sem pinga de sangue por verem naquilo, obra do Diabo. Os que tinham dado a descoberta do segredo como “favas contadas”, só diziam: – “Isto não pode ser, isto não pode ser!”.

Resolveram bater o terreno todo, palmo a palmo, confiados no bom fruto da sua resolução. Se bem o pensaram, melhor o fizeram.

Aquilo foi um nunca acabar de espiolharem silvados, de meterem o nariz em todos os desníveis do local, de vasculharem os tufos de feno alto por ali espalhados, de aferroarem com os olhos todos os pequenos buracos que descortinavam no terreno. Terminaram já pela noite dentro, e desalentados resolveram voltar ao povoado.

O que o dia seguinte lhes ofereceu foi o mesmíssimo espectáculo, com mais algumas novidades. Uma foi pôr-lhes na frente dos olhos, uma enorme fogueira, cujas labaredas irrequietas parecia que enlaçavam os membros do grupo dançante, que se saracoteava incessantemente, sem se notar a mais leve amostra de cansaço, nem o menor jeito de perigo derivado do fogo.

Coçando, pensativamente, o nariz e a cabeça, amparando o queixo na palma da mão, magicavam maneira de explicar o que estava a acontecer. Todos os zambujalenses se meteram em suas casas, bastante preocupados.

Decidiram reduzir o atrevimento com que se dispuseram a descobrir a realidade. Depois de discutir o assunto, chegaram à conclusão que o melhor caminho era o desprezo. Mas, como não queriam ficar indiferentes à provocação descarada (assim é que eles interpretaram as folias do misterioso grupo) entenderam que a melhor forma de fazer com que os silenciosos bailarinos se saíssem, era irritá-los por meio de desafios.

Formou-se então um coro de vozes em que as dos homens alternavam com as das mulheres e as dos garotos sobressaíam entre as de uns e as dos outros. Dessa latomia ensurdecedora fazia parte uma enorme enfiada de termos, como se pode imaginar: – “Palermas”, gritavam os homens; – “Parvas”, continuaram as mulheres; – “Brutos”, guincharam os garotos; e continuavam chamando-lhes “Atrevidos”, “Malandros”, “Cabras” etc.

Até que, gritando todos ao mesmo tempo, mas dizendo cada um sua afronta ou insulto, aquilo se tornou em verdadeira assuada em que os participantes vibravam de acordo com o seu temperamento.

Lá no alto dos Vieiros, porém, o grupo não parava a dança, não interrompia qualquer movimento, nem dava mostras de prestar a mínima atenção à barulheira insultuosa que lhes dirigiam. Era como se absolutamente nada se estivesse a passar na outra banda.

Naquele dia, fosse obra do acaso ou de propósito para fazer negaças e a criar maior birra, a dança prolongou-se pela noite dentro. E o caso real é que, nem os do grupo desistiam nem a fogueira fazia menção de diminuir e muito menos de se apagar!

Perante isto, os zambujalenses, perderam a esperança de verem o fim daquilo tudo, e como no outro dia era dia de trabalho, puseram-se a caminho do “vale dos lençóis”.

Antes de recolherem ao conchego da cama, os mais velhos, decidiram que aquilo eram esconjuros ou práticas supersticiosas das Moiras, para ver se descobriam os tesouros que os romanos por lá deixaram.

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Francisco Vieira Dionisio

Nasceu no Alqueidão em 2 de Maio de 1893. Era filho de Cláudio Vieira Dionisio de de Thereza Affonsa.  Tinha dois irmãos: Afonso vieira Dionisio e Albino Vieira Dionisio.

Com decidida vocação para uma profissão marítima, matriculou-se no “Curso Elementar de Pilotagem”, em Lisboa, e a primeira vez que o frequentou foi em 1919, tendo concluído o ano com a classificação de 10 valores. Continuando os estudos em 1920, fechou este ciclo obtendo a mesma nota.

Em Julho de 1922 foi-lhe passada carta de 3º Piloto.

De acordo com o jornal  “O Mensageiro” de 22 de Novembro de 1916, era praticante do vapor “Machico” e, nesta qualidade, participou na proeza heróica, humanitária e patriótica em que seu irmão Afonso deu provas evidentes de coragem e abnegação, de grande sangue frio e de alta competência.

Concluído o curso na sua parte teórica, quando já tinha um bom grau de inteligente treino e de experiência , começou a executar os trabalhos de oficial de Marinha Mercante.

Nos finais de 1923,  princípios de 1924, seguiu para África. Ia como piloto do vapor “Lourenço Marques”. Passou depois a trabalhar no vapor “Manica” no posto de imediato.

Na então colónia de Moçambique, ficou cerca de dois anos. Era muito competente, no ponto de vista profissional, e conquistava amigos entre superiores e subordinados pela integridade do seu carácter e pela naturalidade do trato. Todos o viram regressar ao Continente, lamentando que se afastasse.

Em má hora regressou. Pouco depois, morria em circunstâncias verdadeiramente dramáticas que se resumem assim:

Na noite de 14 para 15 de Agosto de 1926, depois de ter ido com a namorada assistir à comemoração da Batalha de Aljubarrota, e quando se despedia desta que já se encontrava à janela, foi atingido por um pesado objecto de barro, lançado de um dos andares superiores dum prédio da Travessa dos Mastros.

Caiu redondamente no chão, como que fulminado, esgotando-se em sangue. Do choque, resultara um golpe no chapéu e um lanho profundo e extenso na cabeça. Aos gritos aflitivos da namorada, acodiu muita gente e o ferido foi levado para o Hospital de S. José, em estado muito grave. Apesar de ter sido operado, veio a falecer no dia 18 seguinte. Após a autópsia, foi sepultado no cemitério dos Prazeres em Lisboa.

Inicialmente houve suspeita de que a agressão teria sido causada por motivos amorosos. Os fundamentos desta conclusão inicial assentavam na circunstância de ele ter namorado, na mesma Travessa, uma outra rapariga de quem veio a afastar-se. Mas não tardou que uma investigação cuidada revelasse a verdade dos factos, que foi esta:

Na Travessa dos Mastros, morava, igualmente, José Manuel Dias, conhecido pela alcunha de “Zequinha”. Tendo a profissão de picador de caldeiras, era pessoa de muito maus instintos e de péssimo comportamento. Basta dizer que, à data, já o seu cadastro registava dez prisões, uma por agressão e as outras por roubo.

Na tarde da noite em que praticou o crime, trabalhava quatro horas na caldeira do vapor “Tagus”. O resto do tempo gastou-o na bebedeira, até à hora em que decidiu ir para casa, que era na Travessa dos Mastros, nº 25, 4º.

No caminho deparou-se-lhe um grande boião de barro que levou consigo. Foi com ele que agrediu Francisco Vieira Dionísio, depois de ter tentado fazê-lo com um prato, que lançou lá de cima, sem resultado, como ele próprio declarou quando foi da reconstituição do crime, altura em que a população tentou linchá-lo. Era a indignação do povo contra um assassínio praticado sem a menor razão, em pessoa que gozava da estima geral dos moradores da Travessa dos Mastros, onde morava há dois anos.

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