A Capela de Santa Catarina

Alfredo de Matos deixou escrito como decorreram as suas investigações no que diz respeito à desaparecida Capela de Santa Catarina.

Disse ele:

“O testemunho mais antigo a respeito da capela de S.ta Catarina, de que tenho conhecimento, acha-se em “O Couseiro”. O que é pena é ser tão pouco quilo que ele diz sobre o assunto, que bem pode comparar-se a quase nada. Senão, leia-se o que vem nos finais do capítulo 139, dedicado à freguesia do Alqueidão, que é o seguinte:

Há nestra freguesia huma Ermida da invocação de Sancta Catharina, junto do Lugar da Mata Longa, feita para administração dos sacramentos, a cuja fabrica são obrigados os fregueses.

Já existiria quando o Alqueidão foi promovido a Freguesia, caso que se deu em 1615, com pequena diferença para mais ou para menos, se diferença existiu?

Parece que não, se atendermos ao completo silêncio do livro, em tal ponto. Com efeito, vai ele referindo as capelas do Reguengo e, depois se ocupa especialmente da de Nossa Senhora do Fetal, da de S. Mamede e da de S.ta Iria, cita a de Alcanede, que em sua primeira construção teve S.to Hilário como orago e, na segunda, S. Mateus. Logo a seguir afirma:

Havia mais a Ermida de Sam Joze do Alqueidão da Serra, que ao depois foi eregida em Confraria, como em seo titolo se dirá.

Mas voltemos à primeira sitação:

Há nestra freguesia huma Ermida da invocação de Sancta Catharina(…)

Posto o quase dispensável esclarecimento de que a palavra “freguesia” ou foi escrita por lapso ou reproduzida, por erro de cópia, em vez de “freguesia”, como o próprio contexto exige, prossegue a lista das capelas e vem no eito, a das Torrinhas ou Piqueiral e a do lugar do Vale Magro. Mais nenhuma. Quer isto dizer que a capela de Santa Catarina, ainda não estava construída, na data em que o Alqueidão passou a freguesia. Se ela existisse, com que razão era omissa no livro quando este ainda fazia menção da que, ao diante, foi matriz da nova freguesia, desmembrada do Reguengo?

Estamos, portanto, a lidar com uma construção posterior a 1615, sem coisa que dúvida faça. Quanto ao ano exacto da sua construção, não dispomos de ajuda que leve a indício de caminho para o acharmos, nem sequer de maneira aproximada. De resto, a bem dizer, quase tudo é incertezas no que toca a este desaparecido templo. Tudo ignoramos das suas medidas, da orientação, quantos e quais eram os seus altares, que imagens possuía, se tinha campanário e garrida anunciadora das práticas religiosas. Nem, propriamente, sabemos da sua exacta localização.

Das inculcas, por mim lançadas, para averiguar em que sítio a implantaram, pouco resultou. Para meus pais, e para muita gente mais idosa (Hermano Santana e Manuel Santana), a capela foi construída em terrenos situados ao poente da Lagoa. Para o dizerem, os primeiros fundavam-se no facto de ainda terem visto de pé restos duma parede, rebocada e caiada, na qual tinha sido feita uma reentrância. Esta, que era de reduzido fundo e pouca altura, assentava numa pequena laje, de rebordo levemente fora do prumo da empena. Por ter sido aberta, muito chegada ao canto da parede e devido ao seu feitio, imitado a algumas, vista nalguns templos, em que o sacristão colocava as galhetas, antes da reforma litúrgica em vigor desde há anos, originou a conclusão já dita, quanto ao posicionamento da ermida, visto que, ao lado, (no centro, portanto) ficaria o altar.

Com ela me conformei, à falta de melhor e por não topar em meio de a contraditar. Em 1971, ( O terreno, em 1971, pertencia a Tiago Vieira Gomes) à cata de esclarecimentos para certas miudezas que implicavam com o sítio, uma dúvida surgiu, inesperadamente, à qual sou devedor de atenções. Quis o acaso que, deslocando-me à Lagoa, como se diz simplificadamente, orientado por João da Silva Marto foi ele quer me deu conta da velha tradição que afirma a existência de um cemitério antigo, a nascente da lagoa, em terrenos que foram de Joaquim Sapateiro e que, hoje pertencem a várias pessoas, entre as quais se registam herdeiros de Francisco Carvalho e de José Vieira da Rosa, também conhecido por José Lato. Em tempos que lá vão, encontraram aí muitos ossos humanos.”

Lagoa de Santa Catarina em 1991

Para muita gente mais idosa, a capela foi construída em terrenos situados ao poente da Lagoa. Diziam isto porque se lembravam de ainda terem visto de pé restos duma parede, rebocada e caiada, na qual tinha sido feita uma reentrância.

O pároco Sebastão Vaz, dá-nos conta do estado em que ficou a Capela, por consequência do terremoto de 1755. Escrevendo nos começos de 1756, o seguinte:

“Naõ se aRuinou caza alguma nesta minha freguezia, Nem sei que ficaçem em prigo algum. Nem ha mais edefiçios que esta Igreja desta Freguezia, e huma ermida de Santa Catherina, que algum damno teve; mas foi quazi nada so se abriram mais algumas Rachas que tinha nas paredes, que ja mandei Reteficar.”

Como se vê não era famosa a conservação da estrutura da capela.

A outra coisa que se sabe é o motivo por que a construiram, “feita para administração dos sacramentos” a um ramo da Freguesia.

A única lembrança material deste templo, é a imagem de S.ta Catarina, padroeira da Capela que, por desaparecimento do edifício ficou na igreja paroquial, e foi posteriormente transferida para a Capela de Nossa Senhora da Tojeirinha.

 

Reza a tradição oral que a capela de Santa Catarina foi destruída aquando das Invasões Francesas, por um destacamento militar que ocupou o Alqueidão durante alguns meses.

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Jubileu de São José

S. José foi o orago que o Bispo leiriense, D. Martim Afonso de Mexia, deu ao Alqueidão, na altura em que fez dele sede de Freguesia, a primeira e única, em toda a Diocese, com esta invocação.

Em “O Couseiro”, que é o livro mais antigo em que se fala do patrono da Freguesia, lê-se:

“O mesmo Bispo D. Martim Afonso de Mexia desmembrou da freguesia do Reguengo o lugar do Alqueidão da Serra, na parte que é termo de Leiria, com outros lugares, e levantou aí a Freguesia, da invocação de S. José, na ermida que estava no mesmo lugar; e para se dizer missa na nova igreja se deu licença no ano de 1620.”

Do culto religioso prestado a São José, há que referir que, antigamente raríssima era a família do Alqueidão em que não houvesse um menino chamado José. E quando numa família só nasciam meninas, alguma delas haveria de se chamar Maria José.

A devoção da Freguesia ao seu padroeiro vem dos primeiros meses do ano de 1756, altura em que era pároco Sebastião Vaz.

Encarregado, superiormente de escrever o que se passou no Alqueidão, quando foi o terremoto de 1755, o Padre Sebastião Vaz, descreve minuciosamente as providências de natureza espiritual, que tomou.

Mencionou certas devoções, que duraram “nove dias contínuos”, depois regista que se iniciou outra Novena ao Senhor S. José, e que no fim se realizou a Sua festa, com dois sermões, de manhã e de tarde, e uma procissão com seus andores, e que passados quinze dias se tornou a repetir outra festa ao mesmo Senhor S. José, Orago desta freguesia.

Tanta e tal era a fé que tinham ao grande Santo, que lhe repetiram as súplicas numa solene manifestação pública, pedindo para que a todos livrasse dos pavorosos perigos que o tremor de terra lhes tinha mostrado, tão clara, repetida e prolongadamente, na trágica manhã do 1º de Novembro de 1755.

Uma outra manifestação do culto a S. José chegou mais tarde. Trata-se de uma preciosa graça de natureza espiritual, concedida pelo Papa Pio IX: ” O Jubileu de São José”.

O documento que a concede aos paroquianos do Alqueidão, e que a estende a quantos desejarem beneficiar dela, tem a data de 11 de Julho de 1872. Ele é a resposta dada pelo Sumo Pontífice a um pedido que lhe fez o Padre Manuel Afonso e Silva.

Conservou-se na igreja paroquial em condições pouco famosas. As injúrias do tempo, e a indiferença de alguns, deram este fatal resultado: uma boa quantidade de mossas na moldura e a infiltração de humidade que prejudicaram a cópia feita pelo sacerdote requerente, de modo que ficou muito difícil a sua leitura.

Para que não se perdesse para sempre, Alfredo de Matos publicou no jornal “O Mensageiro”, de 17 de Maio de 1947, o teor do documento:

PIUS, PAPA IX

PIO IX, PAPA

Ad perpetuam rei memoriam. Ad augendam fidelium religionem et animarum salutem, coelestbus Ecclesiae. thesauris pia charitate intenti, omnibus utriusque sexus communione refectis, qui eccle-siam in honorem Sancti Joseph Beatae Mariae Virginis Sponsi, loci do Alqueidão da Serra nun-cupato dioecesis Leiren, domini-ca tertia post Pascha Ressurec-tionis Domini Nostri Jesu Christi, a primis vesperis us que ad occasum solis diei hujus, singulis annis devote visitaverint et ibi pro Christianorum Principum concordia haeresum extir-patione, Santae Matris Ecclesiae exaltatione pie ad Deum preces effunderint, plenariam omnium peccatorum suorum indulgentiam et remissionem quae et pro animabus Christifidelium quae Deo in charitate conjunctae ab hac luce migravere per modum sufragii applicari possunt, misericorditer in Domino concedimus. In contrarium non obstans quibuscumque praesentibus perpetuis futuris temporibus instimularis. Datum Romae apud Sanctum Petrum sub annulo Piscatoris die 11 julii MDCCCXLII pontificatus nostni anno vigesimo sexto.

Pius, Papa IX Para aumento da religião dos fiéis e salvação das almas. Nós, por pia caridade, atendendo aos celestes tesouros da Santa Igreja, a todos e a cada um dos fieis cristãos dum e doutro sexo, verdadeiramente arrependidos de seus pecados, que visitarem a Igreja de Alqueidão da Serra, dedicada a S. José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, desde primeiras vésperas até ao pôr-do-sol do terceiro domingo depois da Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, e aí tendo-se primeiro confessado e comungado, orarem pela concórdia dos príncipes cristãos, pela extirpação das heresias, e pela exaltação da Santa Madre Igreja, concedemos misericordiosamente no Senhor indulgência plenária e remissão de todos os seus pecados, indulgência esta, que se pode aplicar por modo de sufrágio por aquelas almas que unidas a Deus pela caridade, partiram deste mundo e estão detidas no Purgatório. As presentes letras perpetuamente terão vigor nos tempos presentes e futuros, não obstando qualquer coisa que haja ou houver em contrário, Dada em Roma, junto de S. Pedro, debaixo do anel do Pescador, a 11 de Julho de 1872, vigésimo sexto do nosso pontificado.

Pio, Papa IX

Nas freguesias e lugares vizinhos, também a concessão produziu seu eco. Houve tempos em que era considerável a afluência de pessoas de fora, à igreja matriz do Alqueidão por causa do Jubileu de S. José. Vinham do Reguengo, dos Golfeiros, das Alcanadas e da Fonte dos Marcos. Até 1925 muitos  foram os que se deslocavam ao Alqueidão a fim de ganharem o Jubileu.

Durante a sua paroquialidade o Revº. Américo Ferreira actuou no sentido de manter e dar novos alentos a esta tradição local do culto de S. José, impregnando-a da mais intensa e diversificada vida religiosa.

Com este objectivo específico, instituiu o Sagrado Lausperene, que durava desde as 7,30 horas do sábado em que abriu o Jubileu, até domingo depois da missa solene às 8,30 horas.

Durante as horas do dia, a participação nele era livre para ambos os sexos. Para de noite, levando em conta o louvor permanente enquanto dura a exposição do Santíssimo, criou zonas para os diversos turnos de rapazes e de homens.

A primeira vez que este facto se verificou na Freguesia, as zonas estavam marcadas da seguinte maneira:

  • Das 23 horas às 24, velavam os homens dos Casais, Vales e Covão de Oles;
  • Das zero horas à uma coube aos rapazes, e da da uma às duas aos homens da Carreirancha até à Barreira;
  • Das duas às três aos homens da Barreira até à escola;
  • Das três às quatro pertenceu aos homens do Alqueidão, lado nascente da estrada que dá para o Celeiro; e das quatro às cinco abrangeu os homens compreendidos entre esta estrada e a que leva a Porto de Mós e a das cinco às seis esteve a cargo dos homens situados na parte sul desta estrada.

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Nicho de Nossa Senhora dos Caminhos

Fica situado na estrada de Porto de Mós, do lado esquerdo de quem entra no Alqueidão pelo poente.

Foi mandado construir pela Mocidade Portuguesa Feminina. Toda a parte da construção civil é feita de pedra.

No retábulo, está uma pequena imagem de Nossa Senhora dos Caminhos, iluminada electricamente durante a noite, a partir de 10 de Maio de 1964.

Numa das pedras, que tecem a parede do Nascente, rasgou o construtor, as seguintes iniciais: F. V. P. (abreviaturas que correspondem a Francisco Vieira Patrão).

  • Desenho e construção do Sr. Francisco Vieira patrão.
  • Inícios da Paroquialidade do Sr. Padre Américo.
  • Presidente da Junta Sr.Atónio da Laura.

O CULTO A NOSSA SENHORA PELA MOCIDADE PORTUGUESA FEMININA

A Mocidade Portuguesa Feminina era uma organização instituída na vigência do regime salazarista do chamado “Estado Novo” (1926-1974). O seu objectivo era educar as jovens das classes dirigentes para serem boas donas de casa, esposas carinhosas e católicas devotas amigas dos pobrezinhos.

A Mocidade Portuguesa Feminina promovia diversas acções, uma das quais era a edificação de “nichos” com a imagem de Nossa Senhora, normalmente colocados no cruzamentos dos caminhos, como eram antigamente as “alminhas e cruzeiros”. As filiadas da Mocidade consideravam-se donzelas de Nossa Senhora.

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Padre Manuel Afonso e Silva

Manuel Afonso e Silva nasceu em Alcaria no dia 2 de Outubro de 1825.  Foi batizado no dia 9 do mesmo mês e ano na Igreja Paroquial de Alcaria.

Era filho de  João Afonso e de sua mulher Constancia Maria naturais e residentes em Alcaria.

Filho de gente modesta, como geralmente eram quantos viviam na corda de serras em que nascemos, desde muito cedo sentiu em si o chamamento celeste para a vida sacerdotal, mas devido a grandes dificuldades materiais não lhe foi possível, nessa altura, seguir este seu impulso.

Para ajudar os seus pais, exerceu a profissão de moleiro, durante vários anos.

Até que um dia as coisas mudaram. Aquele rapaz, a cair para homem, de rosto picado das bexigas, olhos encovados e a penderem para o verde, arranjou maneira se seguir a sua vocação.

Naquele tempo, com respeito a religião, as coisas não iam nada bem no nosso país. O desenvolvimento da Maçonaria e as alterações da política nacional por ela favorecidas, fizeram com que o Rei tivesse que decretar o encerramento dos conventos.

Sem dó nem piedade, sem fé nem religião, acabaram com os frades! O caso histórico, em toda a sua brutal desumanidade, alterou até a forma com que nos exprimimos: costumamos dizer que certa pessoa ou coisa “levou uma volta que nem os frades de Alcobaça”.

Corria o ano de 1834. Do convento de Varatojo, onde vivia debaixo da regra de S. Francisco, fugiu para a Serra de Santo António, de onde era natural, um frade sorumbático que se chamava Frei José da Conceição.

Na mesma altura, pregava, em Ferreira do Zêzere, outro frade do mesmo convento. Chamava-se Frei Manuel da Conceição e era natural do Cartaxo. A primeira ideia que teve foi a de procurar abrigo na sua terra natal. Receberam-no com tanta pancadaria que lhe deixaram as costas num harmónio muito desafinado. Teve que fugir.

Suspeitando que Frei José estaria acoitado na casa dos seus pais, deitou pés ao caminho  e juntou-se ao antigo companheiro.

Feitios opostos – Frei José, metido consigo e Frei Manuel, comunicativo, tendo nos lábios um sorriso que alumiava como a graça divina – entendiam-se às mil maravilharas. Ambos resolveram abrir aulas para ensino de várias matérias. Para assinalar esse dia plantaram uma oliveira no pátio de Frei José. As suas lições chegaram a ter grande fama, e tinham alunos de todo o país.

Manuel Afonso e Silva, um belo dia, pega em si e vai bater à porta dos fradinhos. Foi recebido pelos Mestres que franciscanamente lhe abriam os braços de bom acolhimento a ricos e a pobres. “Bons costumes” era o que exigiam dos alunos. Que se lhes dava a eles a riqueza ou a pobreza do candidato a estudante, se nem chavo recebiam por ensinarem?

Logo que os frades o deram por acabado e pronto quanto a estudos, foi para o Seminário de Leiria. As cartas em que os seus antigos mestres garantiam o bom porte moral e os excepcionais dotes de inteligência do aspirante a seminarista tornaram-no pessoa querida. Fez um curso brilhante e saiu padre aí por 1859.

O Sr. Bispo de Leiria, confiou ao seu cuidado pastoral a freguesia de Monte Real em que trabalhou com grande zelo, apenas durante dois anos, porque as febres o prostraram, a ponto de se ver forçado a abandonar esta Freguesia, com grande pesar dos seus paroquianos, que, por muito tempo, lembraram a perda do seu bondoso pastor.

O Sr. Bispo de Leiria pensando que talvez as febres contraídas no “Campo” se curassem com os lavados ares das serras onde se criara, enviou o pároco do Monte Real ribeirinho e mimoso, mas doentio, para o Alqueidão serrano e de fragas despidas, mas saudável.

Deve ter sido em meados de 1861 que o Padre Afonso tomou conta da sua nova Freguesia, visto que o primeiro assento que ele assinou, tem a data de 24 de Junho desse ano. Para assinalar o dia da sua chegada o Padre Afonso plantou o freixo que ainda hoje se encontra no adro da Igreja.

Nem é bom a gente falar do estado espiritual em que veio encontrar a nova freguesia, mas o  que mais o espantou foi a imoralidade reinante, que nem sequer tinha aquele mínimo de pejo que a levasse a disfarçar-se um nadinha.

De acostumado que estava à luta, desde pequeno, não desanimou. Homem de viva e ardente fé, de austeros princípios, de porte irrepreensível e de exemplares costumes, depressa conquistou a posição de onde podia lançar o fogo crestador de vícios e purificador de defeitos, o fogo trazido por Cristo.

Fê-lo com o exemplo de todas as horas e todos os dias, com a sua palavra apostólica, cheia de convicção religiosa, rude e veemente como a dos Profetas do Antigo Testamento.

Os efeitos não tardaram e o Alqueidão começou a ser outro. Foi o Padre Afonso quem lhe pôs de novo, ao sol do brio e da dignidade, a sua verdadeira face. Os que apoucavam a terra com graçolas chochas deixaram de ter motivos para isso.

O Padre Afonso, que não se especializara nas aulas de Pastoral, conseguiu realizar, em pouco tempo, uma obra de que muitos se orgulhariam.

Anteriormente à sua vinda, era muito difícil encontrar no Alqueidão quem soubesse ler ou escrever. Não havia quem ensinasse as primeiras letras.

Diante disto, que faz o Padre Afonso? Na sua própria casa, à imitação de seus desinteressados Mestres, criou uma escola de que foi professor único.

As aulas eram diárias, de longa duração e o mestre não estava ali para brincadeiras. Frequentaram as suas aulas e ouviram, com proveito as suas lições, (entre muitos outros):

  • O Padre João Vieira Amado, que paroquiou esta Freguesia e morreu em Torres Novas, onde também exerceu o ministério sacerdotal;
  • O Padre Joaquim Vieira da Rosa, pároco de Alpedriz, Porto de Mós e Alqueidão da Serra;
  • O Padre Júlio Pereira Roque, durante alguns anos coadjutor em Porto de Mós, Capelão da Condessa da Penha Longa, jornalista fogoso, de aprimorado estilo e aguda visão dos problemas político-religiosos, batalhador das lutas de Deus e da Pátria, a quem se deve, em boa parte, a restauração da Diocese de Leiria. A ele deve também esta Freguesia, o facto de o olival do Santíssimo não ter levado a mesma volta que levaram os frades de Alcobaça.;
  • O Padre Francisco Vieira Inácio, prior de Pataias e da Abrã;
  • O Padre Joaquim Pereira, que exerceu funções eclesiásticas em Loures e Nazaré, acabando seus dias como Vigário de Itacoatiara (Brasil);
  • O Padre Francisco Vieira Real, prior de Sesimbra, de cujo município, foi secretário;
  • O Padre António Vieira da Rosa, pároco do Juncal, Rio de Mouro e do Gradil
  • O Padre Francisco Vieira da Rosa, que foi Beneficiado e prior da Sé Patriarcal de Lisboa.
  • Lourenço da Costa, Fiscal Geral dos Hospitais Civis de Lisboa, cuja vida cheia de benemerências é um título de glória para a terra onde nasceu.
  • Afonso Vieira Dionísio, distinto e valente oficial da nossa Marinha Mercante durante a 1ª Grande Guerra.
  • João Soares, (pai do Dr.Mário Soares) Governador Civil da Guarda e de Braga, antigo Ministro, homem de muito altas e reais qualidades de carácter, de inteligência e de coração, herdadas de sua tão santa mãe.

O desinteressado amor do Padre Afonso à instrução do seu povo subia a tal ponto que uma parte dos seus bens materiais deixou-a ao Seminário de Santarém, com a pensão de admitir gratuitamente, um aluno do Alqueidão e outro de Alcaria. Mais ainda: mesmo depois de criada por sua influência, a cadeira de instrução primária, continuou com a sua escola aberta para os que não podiam frequentar a escola publica.

O Padre Afonso foi presidente da Junta de Freguesia do Alqueidão da Serra desde 20 de Março de 1899, até 03 de Julho do mesmo ano. Há ainda que fazer registo do vastíssimo trabalho que realizou para o desenvolvimento da Freguesia, no respeitante ao progresso da valorização material da mesma:

A IGREJA — O templo, que veio encontrar, devia ser, com pequena diferença, a modesta capela que, em 1620, o Bispo Diocesano D. Martim Afonso de Mexia levantou à categoria de igreja paroquial. Mas estava em péssimas condições. Encontrava-se em estado impróprio da casa de Deus. O Padre Afonso transformou-a. Nesse tempo, a entrada principal dava para a estrada, ficando, portanto, a capela-mor, no lado oposto.  Foi o Padre Afonso quem deu outra orientação à igreja, fazendo nela as modificações permitidas pelos magros recursos financeiros de então.

A SENHORA DA TOJEIRINHA — Das beneficiações introduzidas pelo Sr. Padre Afonso nesta velhíssima e devota ermida dão fé as paredes da Capela-Mor. Nelas se vê onde, na parte velha, ligou o acrescento que a levou ao ponto em que a temos hoje.

O CEMITÉRIO é também obra do Padre Afonso. Até à sua vinda, faziam-se no adro os enterramentos. O funeral de  Inocêncio Pereira Roque foi dos últimos que se fizeram ali. Vitimou-o uma febre tifóide.

A FONTE— Também a esta preciosa prenda  se estendeu à acção do Padre Afonso. Vinha de longe a luta de nossos avós com a falta de água.

A ESTRADA — O Alqueidão vivia isolado e preso na crista onde o implantaram. Não tinha uma estrada que o ligasse à sede do Concelho. Ia-se até lá, descendo ao Falgar, cortando depois para os Tojeiros ou para o Zambujal e atravessando a Cunca, de onde, a meia encosta da Cabeça, se caminhava por um carreiro. Isto doía ao Padre Afonso que, para obter esse imprescindível melhoramento, se embrulhou nos enredos políticos do tempo, tendo a sua acção sido parte grande na abertura da estrada.

Conta-se que nas Mangas do Goivado, o Padre Afonso achou uma moeda de oiro, do tempo de Nero, imperador romano, que foi cruel persegui-dor dos Cristãos. Essa pequena mas histórica e reluzente rodela de oiro deve ter relação com os restos de estrada que, ali perto, se estendem a mostrar a sua antiguidade. A estrada e a moeda estão ligadas à tão graciosa lenda que se refere à cadeira de oiro, escondida nas Mangas do Goivado.

Foi também o Sr. Padre Afonso quem pediu e obteve do Papa Pio IX, em 11 de Junho de 1872, os tão valiosos privilégios espirituais que se desfrutam no Jubileu de S. José. (Alfredo de Matos publicou a tradução do texto latino da Bula Papal em “O Mensageiro”, de 17 de Maio de 1947).

A casa do Padre Afonso era no Prazo. Os seus terrenos chegavam até ao Caminho Velho, onde existia uma entrada com uns grandes portões.

Casa dos padres Rosa, Francisco e Joaquim Rosa, Pedra do Alqueidao, Pia, Alpendre e átrio de entrada

O Padre Afonso costumava esconder-se por detrás dos muros da sua propriedade junto ao Caminho Velho, e ouvia todas as conversas das mulheres que iam à fonte lavar roupa. Ninguém o via, mas ele sabia sempre tudo o que se passava na aldeia.

No Prazo, foram encontrados vários vestígios da presença dos Romanos na nossa terra. Lá se encontravam as fornalhas em que os Romanos preparavam o minério. Era assim que o P.e Manuel Afonso e Silva classificava dois poços, que ainda encontrou abertos, ao tomar conta da referida propriedade, pouco depois de ter sido nomeado pároco da Freguesia.

O padre Manuel Afonso e Silva faleceu em 26 de Novembro de 1908. Aparte o que doou ao Seminário de Santarém, deixou tudo o que amealhou à sua terra adoptiva. E registe-se, que só esse generoso legado permitiu aquele aumento e remodelação da igreja, que a fez o que é hoje.

Ficaram entre nós os seus restos mortais, cobertos por modesta campa. A sua alma gentil, cheia de rectidão e de paternal interesse pela Freguesia, esvoaça por cima dos nossos telhados, como anjo protector.

Pelos 36 anos em que  esteve a presidir aos destinos espirituais desta Freguesia e por tudo o que fez por ela, merece que o seu nome seja recordado pelos tempos além.

Saibamos escutar as lições que nos deixou: amor de Deus, interesse pelos Homens e dedicação à Terra.

A irmã do padre Afonso também ficou sepultada no cemitério de Alqueidão da Serra

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Aqui Jaz Thereza Affonsa irmã do Rev. Padre Affonso natural da freguesia de Alcaria. Nasceu a 20 de Setembro de 1823 e faleceu a 25 de Julho de 1905. Pede um Padre Nosso.

(texto eleborado com base nas investigações de Alfredo de Matos)

 

 

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Frei Diogo de Santo Alberto

Frei Diogo de Santo Alberto, de Alcunha “O Calça” nasceu em Alqueidão da Serra no dia 1 de Agosto de 1630.

O seu nome de baptismo era Diogo Esteves e era filho de Domingos João Mendes  e Maria Esteves Malha.

Em 31 de Agosto  de 1651, entrou para o Convento de Nossa Senhora dos Remédios em Lisboa, onde professou em 8 de Setembro de 1652. (O Convento de Nossa Senhora dos Remédios existiu em Lisboa de 1581 até 1834, ano em que a ordem religiosa foi extinta pelo Mata Frades. Actualmente está transformado em Hotel: York House Lisboa.)

No ano de 1655 Frei Diogo de Santo Alberto foi estudar filosofia para o Colégio de Nossa Senhora do Carmo de Figueiró. (O Colégio de Nossa Senhora do Carmo de Figueiró dos Vinhos era masculino e pertencia à Ordem dos Carmelitas Descalços. Em 1642, o convento foi destinado a Colégio das Artes e, posteriormente, ao ensino de filosofia. Aqui se realizaram também alguns Capítulos Provinciais.)

No ano de 1658 foi estudar teologia para o colégio de São José de Coimbra.

Esteve pouco tempo neste colégio, porque o dispensaram dos estudos e o nomearam para ser um dos fundadores do Convento de Nossa Senhora do Carmo de Luanda, em Angola, para onde partiu em 31 de Maio de 1659.

Ao fim de 120 dias de navegação chegou à cidade de Luanda em 28 de Setembro de 1659.

Ao fim de três meses de permanência em Luanda assistiu à inauguração do novo convento em 24 ou 25 de Dezembro e aí ficou alguns anos.

De regresso a Portugal o barco onde viajava passou por uma grande tempestade e naufragou. Os frades foram resgatados por um barco de Mouros, e seguiram para Argel como prisioneiros.

Como não chegaram a Portugal na altura prevista, correu a noticia que o barco tinha naufragado e que todos tinham morrido.

Frei Diogo de Santo Alberto e os seus companheiros estiveram cativos em Argel durante algum tempo.

Voltou para o Convento dos Remédios em Lisboa onde esteve sem qualquer ocupação até Maio de 1670, altura em que tomou posse do noviciado, tendo sido nemeado Mestre dos Noviços.

Em 22 de Abril de 1673 foi eleito Prior do Convento de Nossa Madre Santa Thereza de Santarém,  de que tomou posse em Maio desse mesmo ano. Pouco tempo governou esta casa,  porque fez troca com o Prior de Nossa Senhora do Carmo de Figueiró, e entrou a governar o dito colégio em 29 de Julho de 1674.

Dando fim a esta ocupação em 1676, ficou outra vez no Convento dos Remédios em Lisboa até ao ano de 1679.

Foi depois nomeado Visitador Geral dos Conventos Ultramarinos, lugar que ocupou até 1683.

Regressou ao Convento dos Remédios em Lisboa onde foi eleito IV Substituto do Capitulo Provincial XXIV, cerimónia que ocorreu no Colégio de Coimbra em 22 de Abril de 1684. Permaneceu neste cargo até ao ano seguinte.

Em 12 de Maio de 1685 foi nomeado Difinidor Geral e Protector das Províncias das Indias, cujo lugar ocupou até 8 de Maio de 1688, altura em que foi declarado Reitor do Colégio de Coimbra, no qual entrou a 20 de Junho.

Dois anos mais tarde, a 15 de Abril de 1690 nomearam-no II Difinidor e I Substituto para acompanhar os padres que deviam vir votar no Capítulo Geral XXXVII  de 5 de Maio de 1691.

Vindo de Castella pediu patente para o Convento Eremético de Santa Cruz do Buçaco onde entrou a 9 de Junho de 1691, e saiu no ano seguinte.

Voltou de novo para o Convento dos Remédios em Lisboa onde faleceu em 17 de Junho de 1698, com 67 anos de idade e 46 anos de hábito.

(Pesquisas de Alfredo de Matos)

 Em homenagem a Frei Diogo de Santo Alberto, foi dado o seu nome à rua que fica do lado esquerdo da Igreja Paroquial.

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