O Lavrador da Chaínça

O livro “O Couseiro, ou Memórias do Bispado de Leiria”, na sua edição de 1868 da qual se transcreve : “ esta obra vem a ser a impressão d’um manuscrito feito há mais de 200 anos“, refere no final do capítulo 139, dedicado à freguesia do Alqueidão, o seguinte:

“Há nestra freguesia huma Ermida da invocação de Sancta Catharina, junto do Lugar da Mata Longa, feita para administração dos sacramentos, a cuja fabrica são obrigados os fregueses.”

Por altura do terramoto que destruiu a cidade de Lisboa em 1755 a Capela de Santa Catarina ainda existia. O Padre Sebastião Vaz deixou escrito o relato dos estragos provocados pelo terramoto nesta freguesia, e refere que se abriram algumas brechas nas paredes da Capela de Santa Catarina, que ele teve o cuidado de mandar reparar.

Referem os mais idosos que esta capela foi construída em terrenos situados ao poente da Lagoa. Diziam isto porque se lembravam de ainda terem visto de pé restos duma parede, rebocada e caiada, na qual tinha sido feita uma reentrância.

Lagoa de Santa Catarina em 1991. Actualmente ainda é possível ver esta lagoa, no inverno quando chove muito. Diz-se que foi nas imediações da Lagoa de Santa Catarina que apareceram as primeiras casas do Alqueidão.

Lagoa de Santa Catarina em 1991. Actualmente ainda é possível ver esta lagoa, no inverno quando chove muito. Diz-se que foi nas imediações da Lagoa de Santa Catarina que apareceram as primeiras casas do Alqueidão.

Segundo a narrativa popular o padre que celebrasse a missa na Capela de Santa Catarina tinha, por estrita obrigação, de perguntar antes do começo das cerimónias, se já estava o “Lavrador da Chaínça”.

Fazia-o, alto e bom som, se, como é evidente não estivesse convenientemente inteirado da sua presença na assistência.

Se estava, muito bem! Principiava. Se a resposta fosse negativa, o único remédio que tinha era esperar razoavelmente por ele que, neste caso, devia participar a chegada.

E quem era o “Lavrador da Chaínça”?

A tradição não nos presenteou com a lembrança desse facto. Não houve o simples cuidado de recolher e guardar o nome do beneficiário, nem porque motivo tinha ele tal regalia.

Sabe-se unicamente que tinha domicilio e vida agrícola na Chaínça, lugar que pertencia ao Reguengo do Fetal, e que mais tarde foi anexado a Santa Catarina da Serra.

E de onde viria o privilégio deste lavrador?

O fatal desaparecimento dos livros e papéis do arquivo paroquial, aliado à falta de pormenores na tradição oral, permitem formular várias hipóteses.

Pode ter recebido por herança de pais ou por doação de familiares a quem essa vantajosa regalia pertencesse por via da construção da Capela, ou pode ter tido esse beneficio em atenção ao oferecimento de alguma imagem de arte sacra, porventura aquela que foi orago da ermida. Ninguém sabe!

O inquestionável é que, por algum titulo, beneficiou da regalia que fica na memória, com tão perfeito acabamento quanto as circunstâncias o permitiram.

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