Jupéro e a Restauração da Diocese

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UM ALVITRE: CONTRA O ESQUECIMENTO

Com o título “Restauração do Bispado de Leiria – O Triunfo”, Jupéro volta ao assunto que lhe era tão caro na edição de 7 de março de “O Mensageiro” para evocar antigos colegas de luta que faleceram sem verem concretizada a visão de uma diocese restaurada e para apelar publicamente ao Presidente da República Sidónio Pais no sentido de, excecionalmente, permitir que o octogenário Padre Francisco Pereira, SJ, filho ilustre de Leiria exilado em Tui, na Galiza há cerca de 4 anos, estivesse presente na Sé de Leiria no dia da entrada do novo bispo na diocese, concedendo assim a “última e suprema consolação ao maior obreiro da restauração da sua e nossa Diocese”, escreve Jupéro que não deixa de enviar também um recado, bem ao seu estilo,  certamente com destinatários bem definidos: “Nesta empresa não há louros individuais nem mesquinhas emulações; todos trabalharam com dedicação e lealdade para a vitória que era ambição comum”.

O Padre Júlio Pereira Roque, combatente incansável, generoso e por vezes temerário, não foi nomeado, como julgava natural, para qualquer função no novo Paço Episcopal de Leiria.

Cansado, doente e desiludido com alguns dos seus pares, gasta os dias na sua casa no Alqueidão da Serra e aguenta sozinho as intimações psicológicas e físicas oriundas dos caciques republicanos locais que, certa vez, passaram das ameaças aos atos e perpetraram um atentado à bomba, sem consequências graves, contra o homem que um dia sonhou com “a cidade de Leiria cheia de galas a prestar homenagens ao seu novo Bispo”.

No Alqueidão da Serra a memória deste homem integro e corajoso, está preservada na forma como a autarquia e familiares cuidam do seu jazigo, mas a memória de Jupéro como ativista político e religioso, militante incansável da causa da restauração merecia da diocese de Leiria o tributo que nunca teve.

O Padre Júlio Pereira Roque está sepultado no cemitério velho de Alqueidão da Serra

FIM

 

(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)

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Jupéro e a Restauração da Diocese

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MISSÃO CUMPRIDA

Casa onde viveu Jupéro em Alqueidão da Serra

A Condessa de Penha Longa despediu o seu capelão particular, padre Júlio Pereira Roque, por ocasião da Páscoa de 1916 e este, como forma de garantir o seu sustento, fez algum trabalho pastoral em Alcabideche logo após o despedimento e antes de regressar ao Alqueidão da Serra.

Passou algumas temporadas no Santuário dos Milagres na residência do reitor e seu amigo padre Ferreira de Lacerda, mas é no Alqueidão da Serra que o Padre Júlio recebe com alegria a notícia da restauração da Diocese.

Dada em Roma a 17 de janeiro de 1918, a Bula da Restauração do Bispado de Leiria só foi conhecida no dia 22 de fevereiro e tornada pública a 28 através das páginas de “O Mensageiro” que titulava: “Católicos! Foi restaurado o Bispado de Leiria. Saudando-vos por essa restauração, bradamos: Viva S. Santidade Bento XV! Viva a Diocese de Leiria!”

Na hora de celebrar a concretização da missão da sua vida, Jupéro vê, qual guerreiro humilde retirado na pacatez da sua aldeia natal, o amigo recente e patrão no jornal “O Mensageiro” ser louvado, homenageado e premiado pelo notável feito.

O sentido de justiça do padre Ferreira de Lacerda levou-o a escrever o seguinte parágrafo na notícia da restauração do Bispado publicada no seu jornal:

“Têm sido dirigidas ao diretor de “O Mensageiro” vários cartões e cartas felicitando-o pela restauração do Bispado. É Jupéro quem tem jus a estas demonstrações de carinho e para ele as enviamos. O pouco que o diretor deste jornal trabalhou é nada com o que a restauração deve a Jupéro.”

Com esta brevíssima ressalva terá o diretor de “O Mensageiro” julgado saldada a dívida de gratidão para com o amigo e lutador da causa da restauração do Bispado.

Nesta edição do jornal Jupéro assina apenas uma local intitulada “Pela Semana- Crónica Política” onde analisa a política nacional. Sobre a restauração do Bispado, nem uma palavra…

Continua…

 

(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI)

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A “FOTOGRAFIA” DO DIA DA RESTAURAÇÃO

Jupéro “vê” como será a entrada na Sé de Leiria do novo Bispo no dia da restauração da diocese.

Usando a tribuna oferecida pelo padre José Ferreira de Lacerda, Jupéro faz um apelo, a partir de Sintra, à união de todos os leirienses e ilustra vivamente a sua visão do dia festivo com a entrada do novo bispo na diocese restaurada:

“Resta que todos se unam nesta cruzada de santa reivindicação religiosa, dando um alto exemplo de civismo e amor às tradições locais que é mister fazer reviver, para que esta Pátria se não afunde no mar de ignominia em que maus portugueses a pretendem subverter, arrasando-lhe a Fé que nos fez grandes no passado e nos há de restituir dias gloriosos no futuro.

(…) Os trabalhos encetados, o entusiasmo que se nota em muitas vigararias, a atitude digna que sempre manteve nesta ocasião e a boa vontade do ilustre prelado de Lisboa e do governador de Coimbra que não iriam contrariar o manifesto desejo da Curia Romana, cujos sentimentos a este respeito são conhecidos, são indícios mais que suficientes de que, desta vez, ecoarão na majestosa Sé de Leiria, os acordes do Ecce Sacerdos no dia grande da solene entrada do sucessor de D. Manoel de Aguiar.

Antevejo já a cidade cheia de galas a prestar homenagens ao novo Antístite. Para esta almejada consecução estarei sempre fazendo reviver entusiasmos, de idade, mais juvenis, ao lado de quem empunha o estandarte desta patriótica campanha que enobrece e eleva porque é simultaneamente religiosa e patriótica. Avante!

Pela Religião e por Leiria!”

A visão de Jupéro concretizar-se-á 4 anos mais tarde, em janeiro de 1918, mas até lá, o militante intrépido da causa da restauração da Diocese ainda teria de suportar muitos dissabores…

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(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)

 

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UM PONTO DE SITUAÇÃO

Sem o conhecimento da patroa, a Condessa Clementina Libânio Pinto Leite, Jupéro colaborou desde o primeiro número com o semanário “O Mensageiro” a convite do padre Ferreira de Lacerda e logo no número inaugural faz o balanço da campanha que agora parecia ganhar novo folgo:

“Um Alvitre”. Foi há 10 anos! (…) O que foi essa memorável e gloriosa campanha está na memória e todos.

O grito patriótico ecoou em todo o distrito, e, dentro em breve, todas as classes tomavam a peito esta causa que veio significar que as energias vitais do mesmo distrito eram um valor com que se devia contar na justa reivindicação dum direito.

Não é sem emoção que recordo a vinda, a Lisboa, da grande comissão em que tomaram parte os representantes em cortes do círculo, os chefes políticos, os presidentes e delegados das várias associações leirienses, clero na quase totalidade, muitos e tudo quanto no distrito havia de distinto e nobre, elementos populares, todos unidos numa comunhão de sentimentos e aspirações que só esta grande Causa seria capaz de unir! (…)

Depois… veio o malogro dos nossos esforços! Ainda é cedo para narrar a causa verdadeira deste insucesso! Parce sepultis! (Perdoa aos mortos!) Um dia, porém, há de vir a público toda a história desta campanha patriótico-religiosa que, agora, Deus louvado, há de ser levada a bom termo. As peias civis, que eram inevitáveis no sistema concordatário, desapareceram. “

Na convulsão legal gerada pela lei republicana da separação de poderes, Jupéro vê uma forma, uma oportunidade jurídica, de levar por diante a sua missão de restaurar a diocese de Leiria.

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(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)

 

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TENTATIVAS DE “MORDAÇA”

Jupéro esteve detido na antiga cadeia de Sintra

A visibilidade social, o impacto das suas crónicas, a militância desassombrada e, por vezes, temerária no contexto político da época, fizeram de Jupéro uma voz a silenciar.

Primeiro foram os republicanos de Sintra através de algumas intimidações e de uma denúncia falsa que levaria o padre Júlio à prisão. Depois a própria Condessa de Penha Longa que, alegando estarem as crónicas do seu assalariado a colocar em perigo os negócios e património da Quinta, exigia discrição sugerindo veladamente o despedimento do seu capelão particular.

Nesta fase difícil da sua longa estadia de cerca de 8 anos em Sintra, o padre Júlio recebeu um apoio humanitário de peso, prova da amizade profunda que pode unir dois homens, muito para além das circunstâncias e da ideologia.

O gesto nobre partiu do conhecido republicano e ex-padre, João Soares — pai do antigo presidente da República, Mário Soares — que se dispôs a sair de Santarém onde exercia as funções de Governador Civil e deslocar-se à prisão de Sintra para exigir a libertação do seu amigo perante o Administrador do Conselho que bem conhecia.

Mesmo depois de João Soares ter atestado a idoneidade do padre Júlio e demonstrado a impossibilidade de ele ter cometido o crime de assassínio de que fora anonimamente acusado, o administrador não estava disposto a ceder. João Soares procurou então uma cadeira e, ainda de pé, tem esta persuasiva expressão: “Nesse caso afirmo-te categoricamente que não abalarei de Sintra sem que o padre Júlio seja posto na rua. Faz como entenderes.”

João Soares não necessitou de se sentar, segundo relato de Alfredo de Matos na sua monografia “Alqueidão da Serra – História e Lendas, Usos e Costumes”, Vol. I, p. 439.

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(O autor destes textos, João Amado Gabriel, é sobrinho bisneto do Padre Júlio Pereira Roque. É jornalista e exerce funções de repórter de imagem na TVI.)
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