Nascidos em 1955

Os meninos e meninas de 1955 fizeram a sua festa de aniversário no sábado 8 de Agosto de 2015.

Todos os que se quiseram juntar a esta festa participaram na missa de ação de graças pelos 60 anos de vida que foi celebrada pelo padre Manuel Pedro, ao que se seguiu a romagem ao cemitério onde foram homenageados todos os colegas do mesmo ano que já faleceram.

Antes do jantar, ainda houve tempo para um lanchinho no Moinho, onde se conversou à volta de uma mesa onde havia coscurões, bolinhos, beijinhos, tremoços, pevides, grãos torrados, etc.

DSC01420

O jantar foi no restaurante “A Negra” na Golpilheira, e no final todos puderam levar para casa uma pequena lembrança desta festa.

 Retrato de uma Época

Em 1955 o Governo de Portugal era liderado por António de Oliveira Salazar. O ministro da Presidência Marcelo Caetano iniciou funções em 7 de Julho de 1955. Tudo era proibido. Não de podia falar, se fosse para manifestar opinião contrária à politica governo, nunca se sabia quem poderia estar a ouvir, a PIDE tinha informadores em todo o lado.

No Alqueidão estava o Padre Manuel Ferreira que tinha começado a tomar conta da Freguesia em 26 de Novembro de 1950, e que foi substituído pelo padre Américo Ferreira que tomou posse em 19 de Janeiro de 1958.

A autoridade máxima cá da terra era o Regedor que nesta altura era o Sr. Carlos Vieira da Rosa.

Toda a gente era muito pobre. Nenhuma casa tinha eletricidade, nem água, nem telefone, nem televisão. Não havia casa de banho e papel higiénico era coisa que também não existia.

Não existiam serviços de saúde. O médico, a quem chamavam cirurgião, ia a casa das pessoas quando o chamavam. Os bebés nasciam em casa, com a ajuda da parteira, ou da mãe, ou das tias.

Publicado em Vida Social | Deixe um comentário

O Salto para França

Durante as décadas de 50, 60, e inicio da década de 70, saíram do país, clandestinamente, cerca de dois milhões de portugueses. Todas essas pessoas resolveram partir em busca de uma vida melhor para si e para as suas famílias.

Portugal vivia uma ditadura, uma guerra colonial e uma extrema pobreza rural. Fugir ao regime, à guerra ou à miséria, era a única solução. Mas para poderem sair de Portugal precisavam do então conhecido “passaporte de coelho”: uma fotografia rasgada, doze contos, e um Passador que os levaria na viagem das suas vidas.

Nessa época, foram muitas as pessoas do Alqueidão que partiram “a salto” para França. Fugiam pela calada da noite. Pela frente esperavam-nos duas fronteiras, a PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado), a Guarda Fiscal Portuguesa, a Guarda Civil Espanhola, os Gendarmes Franceses e 2.000 km para fazer a pé.

Muitos deles nunca chegaram a passar a fronteira. Morreram afogados nos rios, de frio nas montanhas, de fome, sede, fraqueza. Ou simplesmente porque se perdiam ou eram mortos pelos próprios passadores ou pela polícia.

Viriato despediu-se de seu pai com um “até amanhã” e partiu. Juntou-se a outros dois rapazes do Alqueidão e um dos Bouceiros.

Seguiram viagem no carro do Passador que os levaria para fora do país. A certa altura a Policia mandou-os parar, mas quem os conduzia não obedeceu às ordens e carregou ainda mais no acelerador. Ouviram um tiro e todos baixaram as cabeças supondo que fosse para as rodas, e não pararam.

Quando puderam levantar a cabeça perceberam que Viriato estava morto. Um tiro na nuca. Tinha 17 anos.

Se ficassem ali por mais algum tempo, sabiam que iam presos. O Passador disse que queimava o corpo ali mesmo, e que os levaria para França conforme estava inicialmente previsto.

Não! “Não vamos abandonar o nosso amigo”, disseram eles.

Voltaram. Viram o pai, inconsolável, lavado em lágrimas, olhando para o corpo do filho ainda coberto com os seus próprios casacos,  e ouviram um policia dizer-lhe:

-“não o deixasse ir”.

Foram presos por terem tentado sair do país clandestinamente, mas Viriato foi sepultado com dignidade no cemitério da sua terra.

Muitas lembranças ficaram destes tempos tão difíceis. Os que conseguiram chegar a França, lembram que uma parte terrível era a travessia dos Pirenéus, que era feita de noite. Mais tarde quando olhavam para as montanhas, diziam: “ainda bem que passamos aqui de noite.! Se tivéssemos visto bem não tínhamos conseguido passar“.

Chegavam lá só com a roupa que levavam vestida. Não sabiam a língua, não conheciam nada, nem ninguém. Eram encaminhados para os bairros onde já estavam outros portugueses, e procuravam alguém conhecido. Naquelas cabanas sem condições nenhumas cabia sempre mais um.

almanaque

Depois iam à procura de trabalho. Aceitavam qualquer tipo de serviço e trabalhavam de dia e de noite, até conseguirem comprar ou alugar uma casa. Mandavam para Portugal, para a família, todo o dinheiro que conseguiam arranjar.

emigrantes

Com o passar do tempo, e com a mudança das condições de vida em Portugal, alguns construíram cá a sua casa e acabaram por voltar para a terra que os viu nascer.

Publicado em Alqueidão | Etiquetas , , | 4 comentários

O Alqueidão na Televisão

Em 1995, a 28 de Maio, dia Mundial das Comunicações Sociais, o Alqueidão teve o privilégio de receber a televisão para a transmissão da Missa do Crisma.

A televisão mostrou aquilo que somos: “um povo honesto, trabalhador, crente”, como disse o Bispo D.Serafim.

Para que aquela hora e meia de televisão pudesse chegar a casa de todos os portugueses, muito trabalho foi feito, desde a construção cuidada do cenário pelos homens da Comissão da Igreja, até à ligação direta a Lisboa donde saía a emissão.

D. Serafim apresentou o Alqueidão

O Bispo D.Serafim, gastou cerca de cinco minutos da sua homilia, para dar a conhecer o Alqueidão aos cerca de 500 mil portugueses que nesse domingo assistiram à transmissão direta da TVI a partir da nossa terra.

Daqui emigraram muitos trabalhadores, do Alqueidão para França, Canadá, Luxemburgo ou Alemanha. Aqui vive um povo honrado, trabalhador, crente. De boa raíz cristã. É este povo que quis acolher a TVI e dizer a todo o país que aqui se reza, aqui se pratica a fraternidade”.

Antes D.Serafim fez questão de informar os telespectadores de que a palavra Alqueidão é comum, é corrente em mais de duas dezenas de lugares em Portugal, e até mesmo no Norte de África. Significa passagem, tufo calcário, a terra do alcaide. E fez uma breve resenha histórica das raízes desta terra:

Aqui passaram os dinossauros. Depois, os romanos aqui estiveram. Há palavras como Alqueidão e Asseguia que denunciam a presença árabe. Por aqui passaram os exércitos portugueses comandados por D.Nuno a quem ofereceram um terço com pequeninas contas de osso, e, segundo a lenda, foi esse terço que deu força a D. Nuno Álvares Pereira para vencer a batalha. Por aqui passaram também os franceses.”

Depois de fazer uma breve referencia à atividade da exploração da pedra, verdadeira imagem de marca do Alqueidão, D.Serafim finalizou a apresentação da nossa terra testemunhando a amizade e o carinho com que sempre foi recebido, nas frequentes visitas que nos fez.

Este ano de 2015 em que se comemoram os 400 anos da criação da nossa freguesia, não haverá o Crisma, por decisão do padre Manuel Pedro, no entanto está previsto que, lá para o final de Agosto, o Alqueidão tenha de novo o privilégio de ver uma das suas missas dominicais ser transmitida em direto pela TVI.

Publicado em Vida Social | Etiquetas , , | 1 Comentário

A História Atribulada do Clube

Este mês de Julho de 2015 o CCR comemora 40 anos. Nasceu com a revolução do 25 de Abril. A ideia começou a surgir numa conversa no Farinhas entre o Vitor, o António Henriques e o Manuel Pipa.

Era preciso fazer alguma coisa pelo Alqueidão, não existia aqui nada, disseram eles na altura. Marcaram então uma reunião na qual compareceram muitas pessoas das mais diversas idades.

Vivia-se ainda a euforia do 25 de Abril, e logo nessa reunião começaram a esboçar-se rivalidades entre os mais novos, mais rebeldes e ansiosos de mudança, e os mais velhos mais conservadores e mais ligados ao passado.

Esta divergência materializou-se depois politicamente, com os mais novos a ingressarem nas correntes politicas de esquerda e os mais velhos nas forças mais conservadoras.

O primeiro local de encontro destes jovens foi no dispensário, edifício ligado à escola velha, onde hoje se encontra o Posto Médico.

Rua da escola velha

Depois surgiu a ideia de alargar o espaço disponível até ao edifício da escola velha que tinha um recreio que podia ser aproveitado para a construção de um ring (local onde atualmente está a Casa do Povo).

Para este efeito foi então consultada a comissão administrativa que representava na freguesia o poder central, uma vez que ainda não tinham sido eleitos os órgãos do poder local. Estávamos em Julho de 1975.

Depois de conseguida a autorização necessária começaram as obras no pátio e no interior do edifício: acimentou-se o chão, rebocaram-se as paredes, e arranjou-se o ring para a prática de futebol de salão, basquetebol e voleibol.

No interior do edifício instalou-se uma biblioteca, representaram-se peças de teatro e organizaram-se espetáculos, nomeadamente com a presença de Adriano Correia de Oliveira.

Foi entretanto criado o emblema do CCR. O Cruzeiro, que foi uma ideia do António Alberto, foi desenhado pelo José Tavares.

CCR

A eleição para os cargos administrativos da freguesia de pessoas mais conservadoras, não era compatível com as posições do CCR, mais ligados aos ideais propostos pelo 25 de Abril.

Numa Assembleia de Freguesia extraordinária, realizada em 15-11-1980 pedida pelo então presidente da Junta de Freguesia, foi decidido que as instalações onde o CCR estava tinham que ser abandonadas impreterivelmente até 30-11-1980, para que aí fosse construída uma Casa do Povo e Sede da Junta de Freguesia.

Para os sócios do CCR esta foi uma tentativa para acabar com a atividade da coletividade, mas tal não aconteceu. Logo foi oferecido por gente amiga do Clube um terreno para o qual foi criado um projeto de construção de um pavilhão.

As obras de construção da nova sede iniciaram em 31-01-1981. Chegaram a juntar-se lá para trabalhar cerca de 140 pessoas, na sua maioria jovens.

Feita a inauguração do edifício lá passaram a realizar-se algumas festas, convívios que se prolongavam pela noite dentro e que normalmente terminavam depois da intervenção da polícia, que tinha sido chamada pela vizinha sempre muito incomodada com o barulho.

Mas enfim, do que a malta gosta mesmo, é de estar junta!..

Havia ainda os intermináveis processos em tribunal por causa do direito à serventia. Isto porque a vizinha tinha conseguido que o Presidente da Junta lhe passasse um atestado de pobreza que a isentava de pagar as custas dos processos.

Coube ao CCR a organização dos jogos de futebol e fê-lo com muito brilho e até com bastantes dificuldades nomeadamente quando já não era possível realizar os jogos no velho Campo da Chã, por causa das novas diretrizes relacionadas com a prática de futebol federado.

Foi nesta altura a Casa do Povo reativou o Alqueidão Futebol Club (anterior ao 25 de Abril) e iniciou a construção de um campo de futebol, na Manga Branca.

Chegámos aqui a uma situação muito interessante: quem tinha a equipa não tinha campo, e quem tinha campo não tinha a equipa.

futebol

Felizmente hoje os tempos são outros e todas estas divergências foram ultrapassadas. O CCR comprou o campo da Manga Branca à Casa do Povo, e fez todos os melhoramentos necessários, como por exemplo a colocação do relvado sintético,  balneários e bancadas. O clube tornou-se reconhecido por toda a gente pelo extraordinário trabalho que tem realizado em prol da cultura e do desporto.

 Atividade Desportiva

  • Nas épocas desportivas 1976/1977 e 1977/1978 participou no Campeonato de Futebol do Oeste.
  • Nas épocas de 1978/1979 a 1986/1987 participou no Campeonato Distrital da 2ª Divisão da Associação de Futebol de Leiria, vencendo o troféu disciplina nas três primeiras épocas.
  • Na época 1984/1985 participou no campeonato de Futebol Sénior Feminino da Associação de Futebol de Leiria, obtendo um honroso 3º Lugar.
  • De 1987/1988 a 1992/1993 participou no Campeonato Distrital da 1ª Divisão da Associação de Futebol de Leiria , tendo sido Campeão da 1º Divisão Distrital na Época de 1992/1993,  e subiu à Divisão de Honra em 1993/1994.
  • Na época de 1995/1996 conquistou a Taça Distrial de Leiria, com uma finalíssima disputada no campo da União Recreativa Mirense.
  • De 1993/1994 até 2000/2001 participou no Campeonato da Divisão de Honra tendo subido à 3ª divisão Nacional no ano de 2001.
  • Pela primeira vez na sua história disputou na época de 2001/2002 o Campeonato da 3ª Divisão Nacional Série-D.
  • Na época 2002/2003 sagrou-se Campeão distrital da Divisão de Honra, título que ainda não possuía, vindo a integrar o Campeonato da 3ª Divisão Nacional na época seguinte.
  • Na época 2003/2004, mais concretamente em 28 de Dezembro de 2003, disputou e ganhou a Super Taça da Associação de Futebol de Leiria no estádio Municipal da Mata nas Caldas da Raínha, com a equipa do Bombarral, com o resultado de 1-0.
  • Na época 2003/2004 disputou o campeonato da 3ª Nacional na Série D, registando o facto de ser o único clube com um campo de terra batida, voltando a descer ao campeonato distrital.
  • Nas épocas seguintes, até à época de 2011/2012 disputou o campeonato Distrital da Divisão de Honra, voltando a ser campeão distrital na época 2010/2011.
  • O CCR abdicou da subida, pelo que na época seguinte 2012/2013 disputou o campeonato distrital da 1ª Divisão, subindo na época 2013/2014 de novo à Divisão de Honra da Associação de Futebol de Leiria.
  • Durante várias épocas o clube teve equipas de Futebol Juvenil, concretamente Escolinhas, Escolas Sub-12, Sub-13, Jevenis e Juniores.
campo Manga Branca CCR

Campo do CCR, na Manga Branca

 A festa de aniversário, neste ano de 2015 em que se comemoram os 400 anos da criação da freguesia, realizou-se no domingo dia 12 de Julho, com a missa das 11,30 oferecida pelas almas dos sócios falecidos. Depois o almoço de aniversário foi na sede do CCR.

Publicado em Vida Social | Deixe um comentário

O Lavrador da Chaínça

O livro “O Couseiro, ou Memórias do Bispado de Leiria”, na sua edição de 1868 da qual se transcreve : “ esta obra vem a ser a impressão d’um manuscrito feito há mais de 200 anos“, refere no final do capítulo 139, dedicado à freguesia do Alqueidão, o seguinte:

“Há nestra freguesia huma Ermida da invocação de Sancta Catharina, junto do Lugar da Mata Longa, feita para administração dos sacramentos, a cuja fabrica são obrigados os fregueses.”

Por altura do terramoto que destruiu a cidade de Lisboa em 1755 a Capela de Santa Catarina ainda existia. O Padre Sebastião Vaz deixou escrito o relato dos estragos provocados pelo terramoto nesta freguesia, e refere que se abriram algumas brechas nas paredes da Capela de Santa Catarina, que ele teve o cuidado de mandar reparar.

Referem os mais idosos que esta capela foi construída em terrenos situados ao poente da Lagoa. Diziam isto porque se lembravam de ainda terem visto de pé restos duma parede, rebocada e caiada, na qual tinha sido feita uma reentrância.

Lagoa de Santa Catarina em 1991. Actualmente ainda é possível ver esta lagoa, no inverno quando chove muito. Diz-se que foi nas imediações da Lagoa de Santa Catarina que apareceram as primeiras casas do Alqueidão.

Lagoa de Santa Catarina em 1991. Actualmente ainda é possível ver esta lagoa, no inverno quando chove muito. Diz-se que foi nas imediações da Lagoa de Santa Catarina que apareceram as primeiras casas do Alqueidão.

Segundo a narrativa popular o padre que celebrasse a missa na Capela de Santa Catarina tinha, por estrita obrigação, de perguntar antes do começo das cerimónias, se já estava o “Lavrador da Chaínça”.

Fazia-o, alto e bom som, se, como é evidente não estivesse convenientemente inteirado da sua presença na assistência.

Se estava, muito bem! Principiava. Se a resposta fosse negativa, o único remédio que tinha era esperar razoavelmente por ele que, neste caso, devia participar a chegada.

E quem era o “Lavrador da Chaínça”?

A tradição não nos presenteou com a lembrança desse facto. Não houve o simples cuidado de recolher e guardar o nome do beneficiário, nem porque motivo tinha ele tal regalia.

Sabe-se unicamente que tinha domicilio e vida agrícola na Chaínça, lugar que pertencia ao Reguengo do Fetal, e que mais tarde foi anexado a Santa Catarina da Serra.

E de onde viria o privilégio deste lavrador?

O fatal desaparecimento dos livros e papéis do arquivo paroquial, aliado à falta de pormenores na tradição oral, permitem formular várias hipóteses.

Pode ter recebido por herança de pais ou por doação de familiares a quem essa vantajosa regalia pertencesse por via da construção da Capela, ou pode ter tido esse beneficio em atenção ao oferecimento de alguma imagem de arte sacra, porventura aquela que foi orago da ermida. Ninguém sabe!

O inquestionável é que, por algum titulo, beneficiou da regalia que fica na memória, com tão perfeito acabamento quanto as circunstâncias o permitiram.

Publicado em Património Imaterial | Deixe um comentário