O Correio

A notícia mais antiga a respeito da maneira como o Alqueidão recebia o seu correio, vem na “Memória Paroquial”, escrita em 28 de Março de 1758, e diz assim:

“Não há nesta terra Correyo e valese do Correyo da Cidade de Leiria, a qual desta terra duas Léguas e meia está distante”.

Depois disto, segundo informação dos Correios, é absolutamente certo que o correio já funcionava em 6 de Setembro de 1895, data da última reunião camarária antes da extinção do Concelho.

Nesse tempo, a mala chegava ao Alqueidão pela via de Porto de Mós. Com a extinção do Concelho, o correio passou a receber-se vindo do Reguengo do Fetal.

1898Mais de um ano depois, por decreto de 13 de Janeiro de 1898, foi restaurado o velho Concelho de Porto de Mós.

A Freguesia do Alqueidão da Serra esperou pacientemente que lhe restituíssem o benefício da modalidade da recepção do correio que injustificadamente lhe tiraram. Como isso não aconteceu, reclamou publicamente valendo-se dos préstimos do jornal “O Portomozense”.

Na edição de 2 de Fevereiro de 1899, informava o jornal:

“Recebemos a seguinte reclamação:

Sr. Director do “Portomozense”. Os abaixo assinados pedem a V.Exª que se interesse no seu mui lido jornal para que o correio do Alqueidão da Serra seja feito por Porto de Mós e não pela Batalha, por disso lhe resultar bastante prejuízo. Alqueidão da Serra, 30 de Janeiro de 1899.

José Vieira da Rosa, João Vieira Dionisio, Joaquim Vieira da Rosa, Domingos Pereira Brioso, Joaquim Ribeiro, Hermano dos Santos, António Pedro Rato, José Amado, Francisco Ribeiro, Antonio Amado, Felicissimo Vieira, Manuel de Matos, Manuel Carreira, Simplicio dos Reis Calvario, Joaquim dos Reis Calvario, José Carvalho Primavera, José Vieira Saragoça, José Pereira Roque, Manuel Ferreira Cecilio, Francisco Vieira Alfaiate, José Baptista Amado.

É de inteira justiça esta pretensão porque o modo como actualmente é feito o correio para o Alqueidão da Serra prejudica imenso os habitantes daquela freguesia. Assim, sendo apenas distante desta vila seis quilómetros, as cartas deitadas nas caixas postais daqui, são mandadas para Leiria, daí para a Batalha, depois Reguengo do Fetal e por último Alqueidão da Serra, não sendo recebidas no mesmo dia, o que por maneira nenhuma se justifica. Além disso, acresce a circunstância do correio por essa forma ser mais caro, além de mal feito.

Feito o correio como antes da extinção do Concelho, isto é, de Porto de Mós directamente ao Alqueidão, é que deve ser, pois é esta a forma seguida para todas as outras freguesias.

Chamamos portanto, para este assunto de importância inadiável a atenção do Sr. Director dos correios e esperamos que resolverá de harmonia com a vontade do povo do Alqueidão, que nada pede mais que justiça”.

A população apelou também junto da Câmara Municipal. A acta da sessão de 3 de Fevereiro de 1899 diz assim:

“Nesta foi presente uma representação dos povos da freguesia do Alqueidão da Serra, pedindo que lhe seja restabelecido o Correio diário entre a sede d’aquella freguesia e a d’este Concelho como succedia antes da extincção d’este mesmo Concelho: e a Camara resolveu por unanimidade officiar ao Ex.mo Chefe dos serviços telegraphos postaes d’este Districto, pedindo a S.a Ex.cia se digne propor ao Governo de Sua Magestade as providencias conducentes a que aquelle Correio seja feito directamente entre aquella freguesia e esta Villa, e não pelo Reguengo e Batalha como agora succede havendo assim uma demora de dois dias na recepção da correnpondencia, não obstante a distancia entre as duas povoações do Alqueidão da Serra e a sede do Concelho ser só de quatro kilometros”.

As coisas foram seguindo seus caminhos e a verdade é que a resposta chegou com segurança e rapidez. O jornal “O Portomozense”, do dia 16 de Fevereiro de 1899 , volta ao assunto desta vez para informar que:

“O Correio para o Alqueidão da Serra vai brevemente ser feito por Porto de Mós e não pelo Reguengo. Fica assim satisfeita a reclamação do povo daquela freguesia que publicámos no nº 4 do “Portomozense”.

A Estação Postal

Tempos depois de todas estas andanças, deu-se um facto de grande importância e relevo na história do correio do Alqueidão. Foi a mudança de categoria para a classe superior.

Em 1907 a Freguesia foi brindada com as vantagens de ser “estação de 4ª classe”. A subida em causa foi determinada na Portaria de 27 de Fevereiro do citado ano, e divulgada oficialmente pelo “Diário do Governo” de 4 de Março de 1907.

O problema foi a escolha do encarregado da “estação”, o que se conclui pelo tempo passado à espera da sua nomeação. É no “Diário do Governo” de 17 de Julho de 1907 que ela vem publicada na Portaria com data de 12 deste mês.

Diz esta publicação que, “José Vieira da Rosa, actual depositário da caixa postal em Alqueidão da Serra, concelho de Porto de Mós, distrito de Leiria, foi nomeado para o lugar de encarregado gratuito da estação de 4ª classe da mesma localidade, criada por Portaria de 27 de Fevereiro último”.

José Rosa e Esposa no Casamento do Sr. AdolfoPor não existirem documentos que comprovem o espaço de tempo que José Vieira da Rosa foi depositário da “Caixa Postal”,é impossível dizer quantos anos ele serviu gratuitamente o Estado e a Freguesia, como responsável pelo correio dela. Acresce ainda que a “estação” funcionava na sua própria casa, sem encargos para o Estado. O certo é que, a seu pedido, foi desligado da referida função, em 1935.

O Correio da República

Proclamada a republica, a população do Alqueidão vê-se de novo em apertos e dificuldades quanto ao serviço do correio, o único a ligá-la ao País e ao mundo por onde andavam numerosos filhos seus, no honesto trabalho para ganhar a vida.

No jornal “O Povo de Porto de Mós”, no seu número de 29 de Maio de 1912, lê-se o seguinte:

“Por despacho de há poucos dias, foram suprimidas as estações postais do Alqueidão da Serra e da Calvaria que passam só à categoria de postos de caixa postal.”

Chama-se a isto andar para trás. Isto afectava a população pelos muitos prejuízos que lhe trazia. Entre outras vantagens que se iam de vela com esta decisão estava o desaparecimento do serviço de registo de correspondência, tanto da expedida como da recebida.

É claro que o povo reagiu contra este ataque aos seus direitos por meio da reclamação que se impunha. Utilizou para isso o jornal mais lido da região, e apelou às comissões políticas do Partido Republicano Português, porque a República foi proclamada para comodidade dos povos e não para prejuízo deles.

Em cinco de Junho de 1912 o jornal “O Povo de Porto de Mós”, voltou ao assunto. Desta vez argumentou com o facto de a Mendiga (com menos população e, sob alguns aspectos mais inferior ao Alqueidão e à Calvaria) ter ficado na categoria postal de que estas duas freguesias se viram apeadas. E, ressalvando a estima que a Mendiga e suas gentes lhe merecem, publicou o seguinte:

“Não pode ser… Não é por causa da ridícula economia de 24.000 reis a mais que se prejudicam assim duas freguesias importantes do Concelho. A República não se proclamou para isso que só serve para alienar amizades e servir adversários”.

Logo na edição seguinte (12 de Junho de 1912) o referido jornal noticiou que a Comissão Municipal Republicana, e mais os encarregados das estações extintas, se deslocaram a Leiria, a fim de falar com o Governador Civil e com o Director Distrital dos Correios e Telégrafos.

1913O director do Jornal “O Povo de Porto de Mós” esclareceu que, pelo funcionário dos correios foi dito que “tinham sido muito bem suprimidas”, e justificou esta sua afirmação dizendo que, em 1912 o Alqueidão apenas tinha recebido sessenta e oito registos e expedido só quatro, e ainda utilizou o argumento das distâncias, dizendo que o Alqueidão, tendo a três quilómetros de distância uma estação, a do Reguengo, em que podia fazer seus registos, não estava em condições de se poder considerar mal servido.

Os encarregados das estações extintas e o director do Jornal “o Povo de Porto de Mós” argumentaram que o Director-Geral dos Correios e Telégrafos do Distrito ignorava a corografia, pois o Alqueidão tinha povoados a mais de doze quilómetros quer da sede concelhia quer do Reguengo. E quanto aos três quilómetros que medeiam entre o Alqueidão e o Reguengo, recomendaram-lhe que se deitasse a percorrê-los, a ver se mantinha o que dissera, depois de palmilhar os caminhos de pé.

No jornal, com agudo sentido das oportunidades, foi ao passado e salientou que a Monarquia deu, e nunca tirou, a Estação Postal do Alqueidão, ao passo que com a República, “o regime do povo e para o povo”, era o que se via.

O que é certo é que, graças à Comissão Municipal Republicana e à teimosa obstinação do director de “O Povo de Porto de Mós”, o Governo, reconsiderando sobre a prejudicial decisão, restituiu à Freguesia a regalia que lhe tirara. O Alqueidão tornou à posse da sua Estação Postal, que  tal como antes, continuou a funcionar na casa de José Vieira da Rosa, até 1935, ano em que este pediu a demissão de encarregado.

Casa de José Vieira da Rosa onde era preparado o correio para ser distribuído

Casa de José Vieira da Rosa onde funcionou a 1ª “Estação Postal”

Respondendo aos repetidos convites do responsável pelo Correio em Porto de Mós, Francisco Gabriel deixou-se nomear para o lugar que ficou vago, ficando a Estação Postal a funcionar na sua casa de habitação que era, e ainda hoje é, a última do lado esquerdo de quem deixa a povoação caminhando para o Poente.

Casa onde viveu o Fiscal Costa e Francisco Gabriel

Casa onde viveu Francisco Gabriel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Francisco Gabriel não se fez velho no exercício das funções. Logo que lhe foi possível solicitou a libertação das responsabilidades que tomara.

Nesta altura a nomeação caiu em João Ferreira Cecílio, e os serviços foram instalados no estabelecimento comercial que este tinha, em frente ao adro, na sua parte virada ao Norte. Aqui se mantiveram os serviços durante muitos anos.

Em 20 de Julho de 1959 foi criada a Postal Rural e aprovado o giro do Alqueidão. . A Freguesia passou a ter a distribuição domiciliária do correio no dia 1 de Abril de 1960.

Taberna do Ti João Vitório

Em 5 de Junho de 1967, a Estação Postal foi transferida para a Rua de Cima, passando a ficar com José Augusto Silva Pereira na mercearia que explorava na altura, e que pertencia ao seu tio Francisco Vieira Patrão. O espaço onde funcionava esta mercearia veio a ser mais tarde a sala de jogos do café do Farinhas (Café Cordeiro).

Toda a população, desde o Casal Duro à Demó, dos Bouceiros às Covas Altas; do Covão de Oles aos Casais e Vales, passando pela Carreirancha, deitava sua correspondência na caixa, pendurada na casa onde funcionava o posto ou a estação. Aqui a procurava, também, sempre que, por qualquer circunstância, esperava carta.

Se a procura não era feita, então era o responsável pelo Correio da Freguesia que, de sua própria iniciativa, se encarregava de mandar recado aos destinatários mais afastados, de que tinham correspondência a levantar.selos1

Deixando a Rua de Cima a Estação Postal foi transferida para a Rua Adeferreiro, e ficou na mercearia da Ti Olivia até passar definitivamente para a sede da Junta de Freguesia.

O Alqueidão da Serra passou à categoria de Posto do Correio Telégrafo e Telefone, por despacho de 6 de Maio de 1965.

Mãe da Maria Pata

Escolástica Carreira

Ficava irremediavelmente cortada a história do Correio no Alqueidão sem uma referência, a Escolástica Carreira. Durante anos sem conta, ela foi a estafeta da mala do correio, a troco de uma paga ridiculamente pequena.

Desabassem do céu carradas de água, soprasse um vento cortante, caíssem escardoças de pedraço ou fizesse muito frio, lá ia ela, de mala à cabeça, para baixo e para cima, sempre, sem falha, enquanto pôde arrojar os pés.

Magra e desempenada, sempre de semblante alegre, cortês e sempre pronta para ser prestável em recados que não implicassem com o desempenho da sua missão, ela foi a responsável pela distribuição do correio no Alqueidão da Serra durante 36 anos. Este trabalho foi depois continuado pela sua filha Maria Carreira (conhecida por Maria Pata).

O Correio era distribuído todos os dias, menos ao Domingo. E iam aos Bouceiros 3 dias por semana.

Saíam de casa às 3 horas da madrugada, carregando uma mala grande fechada e selada. Chegavam a Porto de Mós às 4 horas e depois esperavam até às 6 horas que era a hora em que lhe entregavam a mala com a correspondência para o Alqueidão.

Maria Pata

Maria Pata

Enquanto esperavam pela mala com a correspondência, iam comprar as coisas que as pessoas lhes tinham encomendado. Nesta altura, o Correio em Porto de Mós era no Rossio.

De volta ao Alqueidão distribuíam o correio e as encomendas, de porta em porta. Mais tarde começaram a deixar o correio na casa onde estava a caixa postal, e depois as pessoas iam lá buscar.

Na altura que a ti Maria Pata deixou de fazer o correio, o ordenado dela era 200$00.

Ao todo, Escolástica e Maria Pata fizeram o correio durante 60 anos.

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A casa da Ti Maria Pata, junto à Calçada Romana (depois de retaurada)

O Carteiro

marinhaJosé da Silva Catarino, conhecido pela alcunha de “Marinha” como funcionário dos correios, começou a distribuir o correio nesta freguesia pouco tempo depois de ter sido criado o giro do Alqueidão, (Julho de 1959), e desempenhou a sua função de carteiro durante 36 anos.

No principio a mala do correio vinha para a casa onde estivesse a estação postal, era aberta pelo responsável pelo correio, e só depois a correspondência era entregue ao Carteiro para ser distribuída de porta em porta.

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Abóboras

O Outono é a época das abóboras. É por esta altura que colhemos os frutos das aboboreiras das nossas hortas.

Existem mais de 500 espécies diferentes de abóboras cultivadas em todo o mundo. Todos os anos se realiza uma feira nos arredores de Berlim onde são apresentadas centenas de espécies de abóboras.

Em Portugal, o 1º Festival da Abóbora realizou-se de 31 de Outubro a 2 de Novembro de 2014, no concelho da Lourinhã. Foi no Pavilhão Multiusos da Atalaia e durante três dias foi possível assistir a mostras de gastronomia, artesanato, exposições e workshops que tiveram sempre como tema a produção de Abóbora e as suas diferentes utilizações.

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As abóboras são protagonistas numa cozinha saudável. Elas estão carregadas de vitamina A, que mantém o sistema imunológico saudável, travam o processo de envelhecimento e também ajudam na capacidade visual. Por serem muito ricas em fibra melhoram o funcionamento intestinal.

E o potássio que é extremamente necessário porque regula os fluidos do corpo controla o ritmo cardíaco e a tensão arterial, também está presente nas abóboras. 

A maior parte das pessoas usa abóboras na sopa, mas elas podem ser consumidas das mais diversas maneiras, por exemplo, assadas, cozinhadas com arroz, para fazer filhoses, etc.

As sementes das abóbora, a que vulgarmente chamamos pevides também são óptimas para a saúde. Elas contêm magnésio e outros elementos que ajudam a relaxar, a sentir boa disposição e também combatem a depressão. Fornecem minerais como o fósforo, ferro, cobre, e ainda zinco que é de extrema importância no combate à osteoporose.

As sementes das abóboras que temos à nossa disposição, depois de secas e torradas no forno ficam prontas para comer. Antigamente elas ficavam a secar no forno de cozer o pão.

Já é um costume antigo no Alqueidão, ao domingo, o pessoal passar na Rua de Cima para comprar tremoços e pevides.

Lembramos a tremoceira, a Ti Maria Rasteira, que durante anos a fio vendeu tremoços e pevides à saída das missas do Domingo, e a Ti Trindade que ficava mais pela Rua A-do-Ferreiro, e que acabou por nomear o  Armando como o seu sucessor.

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As pevides podem ser incluídas  na nossa alimentação diária para se aproveitar todo o seu valor nutricional. Elas podem ser adicionadas inteiras aos legumes salteados ou saladas frias, e trituradas ficam bem misturadas nas sopas, nos cereais de pequeno almoço e nos sumos de frutas.

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Teatro

 Os Monólogos do Abel

Abel

Abel Laranjeiro

Foi por volta do ano de 1951 que os teatros começaram a realizar-se com maior frequência nesta aldeia, uma vez a equipa de futebol precisava de arranjar dinheiro para comprar o campo da chã e também era preciso comprar os equipamentos para os jogadores.

Com a sua queda natural para a comédia, Abel Laranjeiro foi considerado por todos os que tiveram o privilégio de o conhecer, como um homem sem igual, inimitável.

O palco era o lagar do Furriel. Lá se realizavam as peças de teatro e outros divertimentos. As sessões começavam sempre com o bailado, logo a seguir havia um momento de poesia e finalmente a peça de teatro.

No dia do espectáculo o Abel lá aparecia, sempre todo desalinhado, para desespero da sua esposa Alice, que achava que os outros iam sempre todos janotas.

Ele faltava sempre aos ensaios, só dava uma vista de olhos no texto do papel que ia desempenhar, e no dia da estreia chegava com a camisa fora das calças, o interior o bolso virado para fora, apoiado numa bengala de figueira muito grossa imitando os gestos do Charlot.

Logo no inicio do espectáculo começava o bailado com um grupo de rapazes e raparigas a executar algumas danças, nisto aparece o Abel a dançar, “todo maluco”, instala-se a confusão e os dançarinos perdem o passo de dança. O público ri às gargalhadas.

João Bispo e AbelQuando chega a altura da peça, em vez de recitar o papel que lhe cabe, o Abel diz tudo o que lhe passa pela cabeça mas de um modo tão tranquilo como se estivesse mesmo a desempenhar o seu papel. Para os outros actores é que era uma aflição, pois o que tinham ensaiado tinha que ser mudado rapidamente para dar com as trocas do Abel. O próprio “ponto” tinha que gesticular constantemente para chamar a atenção para os erros, mas sem sucesso.

O resultado era sempre uma comédia muitíssimo divertida, onde o público até chorava de tanto rir, sem nunca se dar conta da trapalhada que tinha havido no palco.

Normalmente, antes de subir o pano, o Abel aparecia no palco sentado, com as mãos e o queixo apoiados na bengala, e assim permanecia olhando para o publico. Era o inicio da risota. Então começava com o seu monólogo.

O monólogo mais famoso foi quando entrou no palco em cuecas e com as calças junto aos pés começou a dizer:

“Já estou um pouco mais aliviado, mas estive atrapalhado! Eu inté já via lume; valeu-me nesta aflição haver aqui um tapume, um prédio em demolição! Se tal não conquistei…não sei! Às calças deitei a mão, e…. lá vai disto que manda a lei! Safa…! que valentissima espiga! Vocências nunca tiveram assim uma dor de barriga?… Eu não sou um infeliz, e já me vem de petiz, pois o que me aconteceu, não fiquei admirados, porque eu, índa bem não, por mal dos meus pecados, ando com as calças na mão.

De madrugada, corro à privada
o sol a nascer, torno a fazer
Durante o dia vou p’ra bacia
Se a tarde vem, lá estou também
a noite a fechar e eu a cag…..
Safa! Pareço um cano de esgoto, e quem me vir diz que eu sou roto. 
Não sou não! Isto é fraqueza, é moléstia concerteza.
 

Uma vez fui passear com uma dama de galante, apreciando a paisagem, num diálogo interessante. Mas após alguns momentos, acompanhado de uns ventos (nesta altura começa a esfregar a barriga), ela falava, falava, dizia coisas de sobra. E eu só disse, lá vai disto que é abóbora.

Eu fiquei comprometido, e ela indignada e com razão: Ó seu atrevido, seu grande malcriadão!

Não sou não! Isto é fraqueza, é moléstia concerteza!

Foi tremenda esta borrasca, mas que havia eu de fazer, pois estava mesmo à rasca e não me pude suster.

Doutra vez fui convidado para assistir a um noivado, ali perto de Belém. Eu cá sentia-me bem, mas não sei se foi dos vinhos, dos doces, ou dos pastelinhos, que se repente, ai meu Cristo e não pude aguentar… Lá vai disto pr’aliviar.

Vocência não imagina, mas foi tão grande a quantidade que eu quando acabei, calculei dez quilos bem à vontade.

Vocência dirá com seus botões…. Este é o rei dos cag… Não sou não! isto é fraqueza, é moléstia concerteza.

D’outra vez… (de repente começa a desabotoar as calças) Ai, ai, ai! meus senhores não posso ter mais demoras, senão tenho que gritar… lá vai disto pr’a acabar!!”

 
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Cinema

O primeiro contacto que as gentes do Alqueidão da Serra tiveram com a “Sétima Arte” foi em 1946, pela mão de Manuel Aparício que, numa terra de alcunhas, era conhecido pelo nome de “Lambion”.

Da esquerda para a direita, em cima: Rafael Gabriel, Maria Filomena Silva. António Vieira Amado, Guilhermina Amado, Ester, Adelaide da Silva Amado, e Maria de Jesus Gabriel (Damascena). Em Baixo: Manoel dos Santos Aparicio, Maria da Fonte, Euclides Amado Gabriel, Clutilde Amado Gabriel (a bebé) Ernesto Amado e Francisco Gabriel

Da esquerda para a direita, em cima: Rafael Gabriel, Maria Filomena Silva. António Vieira Amado, Guilhermina Amado, Ester, Adelaide da Silva Amado, e Maria de Jesus Gabriel (Damascena). Em Baixo: Manoel dos Santos Aparicio com a viola, Maria da Fonte, Euclides Amado Gabriel, Clutilde Amado Gabriel (a bebé) Ernesto Amado e Francisco Gabriel

Como não existia energia eléctrica a projecção dos filmes era feita à manivela. Para não ter que se esforçar muito, o Lambion contratou dois assistentes que eram o Luis Rosa e o Ezequiel Furriel.

Foto de Eródes Santos Aparicio (Brasil)

A sala de cinema era o Lagar do Furriel, os filmes que passavam eram os do Vasco Santana e do Charlot e o preço dos bilhetes era 10 tostões para os adultos e 5 tostões para os jovens.

Não havia filmes para maiores de dezoito anos, eram sempre para todas as idades. Por vezes nos intervalos dos filmes havia sessões de musica onde o Lambion tocava guitarra e cantava o Fado, e o Francisco Gabriel tocava violino.

Logo que o Lambion arranjava dinheiro suficiente, ia a Lisboa comprar mais filmes.

Os pais do Lambion

Os pais do Lambion

Lambion nasceu no Alqueidão em 3 de Janeiro de 1897. Era filho de Aparício dos Santos e de Maria de São José Gabriel. Seu pai era exposto da Santa Casa. Segundo o livrete do exposto ele deu entrada na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em 14 de Fevereiro de 1864, tinha cor trigueira e olhos castanhos. Foi criado por uma familia do Alqueidão, aqui casou e constituiu família. Teve 3 filhos, o João dos Santos, o Domingos dos Santos e o Manuel dos Santos Aparício a quem chamavam Lambion. Em busca de uma vida melhor, Aparício dos Santos emigrou para o Brasil. Em 7 de Julho de 1926, o Consulado de Portugal em São Paulo (Brasil) emitiu o Passaporte de Viajante ao cidadão Português Aparício dos Santos, operário, de 56 anos, de filiação desconhecida. Este passaporte era válido pelo período de um ano.

lampiao

Lambion sempre fugiu às regras. Tinha fama de ser pouco amigo de trabalhar. Um dia resolveu também ele ir para o Brasil, na esperança de arranjar maneira de ganhar a vida, com pouco esforço. Lá conheceu a Anunciata com quem casou e teve duas filhas.

Por volta do ano de 1930 voltou para o Alqueidão com a familia, e tinha a ocupação de tirar fotografias, profissão que aprendeu no Brasil. A malta do Alqueidão entusiasmava-se muito com as fotografias dele, e algumas delas chegaram até aos nossos dias.

O trabalho como fotografo, nesta terra, não lhe rendia muito, e ele resolveu voltar para o Brasil, deixando a mulher e as filhas à sua sorte. Anunciata teve de criar as filhas sozinha, sobrevivendo do seu trabalho como costureira, até ir viver para Leiria, sempre sem nenhumas noticias do marido.

Em 1946 o Lambion, que tinha na altura cerca de 50 anos, voltou para o Alqueidão. Falava com um sotaque acentuadamente brasileiro. A primeira coisa que fez, foi deslocar-se a Leiria para ver a mulher e as filhas mas elas não o quiseram receber.

Recomeçou então a sua profissão de fotografo, mas entretanto resolveu ir a Lisboa comprar uma máquina de projectar filmes.

Por essa altura, uma moça cá da aldeia, com cerca de 30 anos, começou a frequentar muito as sessões de fotografia do Lambion, e… acabaram por se apaixonar. “Crespa” era a alcunha pela qual ela era conhecida.

Iam passear para as Capelas e buscar água à fonte e eram sempre seguidos pela malta mais nova que queria ver o que eles faziam. Esta relação “ilícita” tornou-se do conhecimento geral e o Lambiom caiu em desgraça na boca do povo.

Das canções por ele cantadas com o seu sotaque brasileiro, destaca-se uma que dizia:

“Era uma história singela
No meio de um triste dissabor 
A qual figura mais bela 
Para quem foi sacrificado o amor
 
Ó Jenny
Meu sincero amor
Ficarei ó flor
A rezar sempre a Deus por ti
 
Vi-a uma vez na Igreja
O olhar contrito a rezar
Como quer quer e deseja
que Deus lhe venha perdoar”
 

Por causa da fama que o Lambiom ganhou devido à sua relação com a Crespa, o Manuel Boal alterou a letra desta canção, e para a malta mais nova, isto ficou assim:

O Lambion mais a Crespa
passa a vida regalada
das Capelas para a Fonte
e da fonte para casa.
 
Ó Lambion
Já não tens dinheiro
andas ao fanico
Nem pareces brasileiro.
 
O Lambion mais a Crespa
são dois bichos traiçoeiros
O Lambiom pelo bico
E a Crespa pelo dinheiro.
 

Nesta altura  o Lambion decidiu que era melhor voltar de novo para o Brasil. As moças do Alqueidão, para implicarem com a Crespa diziam-lhe: “Já não vais para o Brasil, ele já não quer mais saber de ti”.

CriançasEngano o delas, Lambion mandou chamar a Crespa e ela foi ter com ele ao Brasil.

Não esqueceram no entanto, os amigos que deixaram no Alqueidão, e de vez em quando mandavam notícias. Uma das cartas vinha acompanhada com uma fotografia de dois dos seus filhos, e alguns anos mais tarde uma carta da Crespa deu-nos conta da morte do Lambion.

Manuel Aparício, o Lambion, ficou para sempre na memória de todos os que o conhecerem como um homem alegre, que dava muita atenção aos mais novos. Trouxe muita alegria e diversão a um povo simples que tinha que inventar as suas próprias diversões. As tardes de Domingo eram sempre muito animadas na companhia do Lambion.

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Tempo de Advento

O tempo do Advento tem uma duração de quatro semanas. Começa no domingo mais próximo ao dia 30 de Novembro e termina nas vésperas do Natal.

  • Os domingos deste tempo chamam-se: 1º, 2º, 3º, e 4º domingos do Advento.
  • Os dias 16 a 24 de Dezembro são os dias da Novena de Natal e prepararam-nos para o Nascimento de Jesus.
  • No dia 24 de Dezembro começa o Tempo de Natal.

Podemos distinguir dois períodos: No primeiro deles, que se estende desde o primeiro domingo do Advento até o dia 16 de Dezembro, somos orientados para a espera da vinda gloriosa de Cristo. Somos convidados a viver a esperança na vinda do Senhor em todos os seus aspectos.

No segundo período, que vai desde 17 até 24 de Dezembro, inclusive, somos convidados a viver com mais alegria, porque estamos perto do tempo em que se vai cumprir aquilo que Deus prometeu.

É tempo de colocar em nossas casas a Coroa do Advento.

Coroa de Adento

Temos quatro semanas nas quais nos vamos preparando para o Natal:

A primeira semana do Advento está centralizada na vinda do Senhor no final dos tempos. A liturgia convida-nos a estar vigilantes.

A Coroa do Advento terá uma vela acesa.

A segunda semana convida-nos a “preparar os caminhos do Senhor” isso é, a manter uma atitude de permanente conversão. A Coroa do Advento terá duas velas acesas.

A terceira semana já anuncia a alegria da vinda do Messias, pois já está cada vez mais próximo o dia de Natal. A Coroa do Advento terá três velas acesas.

A quarta semana fala-nos do advento do Filho de Deus ao mundo. Maria é a figura principal, e a sua espera é o modelo e o estímulo para a nossa espera. A Coroa do Advento terá quatro velas acesas.

Nossa SenhoraQuanto às leituras das Missas de domingo, as primeiras leituras são de Isaías e dos demais profetas que anunciam a vinda do Messías.

Os salmos responsoriais cantam a salvação de Deus que vem até nós.

As segundas leituras são textos de São Paulo ou das demais cartas apostólicas, que convidam a viver na espera da vinda do Senhor.

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